Emmanoel, Gilda e Thiago na comemoração dos 85 anos. Rio, 5 jan. 2013
Amílcar, Silvania (esposa) e Emmanoel. Belo Horizonte, nov. 2009
Um Texto a 4 mãos
Thiago Barcelos* / Amilcar Santos**
Já são 5 anos desde a última vez que nos reunimos em homenagem ao Tio Emmanoel, e muito se passou durante esse tempo. Em comemoração aos seus 85 anos (ainda que ele aparente ter apenas 67) e como há muito o que se falar dele, nós, sobrinhos-netos, tentamos sintetizá-lo em uma frase e concluímos que:
O Tio Emmanoel sempre foi um homem muito à frente de seu tempo!
Se nós simplesmente não pensarmos em todas as lembranças afetivas que temos (e não serão poucas), podemos dizer que, ainda assim, ele sempre foi um homem de vanguarda. A preocupação com a arte e a cultura foram marcas sempre importantes para ele, fazendo com que as pessoas mais próximas ou os familiares (até os mais distantes) pensem na importância de valorizar o trabalho de artesãos e artistas. Tal sensibilidade despertada constitui-se em um legado imaterial que ele tem deixado para nós ao longo de sua vida.
Além disso, sua perspectiva diante de um problema ou uma adversidade relembra o olhar de uma lente grande angular. Sua maturidade e serenidade para tratar de questões postas sempre revelaram que ele era um ancião em sua sabedoria. Ele não se limita a um ponto, a uma questão. Ao contrário, sempre nos impulsionou a ver qualquer situação por um foco mais amplo, além do alvo ou da preocupação. Com essa postura, ele acaba nos levando a encontrar opções, saídas e alternativas que um olhar mais simplista jamais conseguiria.
E como não fazer referência à sua paciência (somente comparável à de um monge budista) e ao seu bom e inteligente humor! Essas duas qualidades são marcantes numa personalidade tão interessante e que mantém viva uma presença e um senso de responsabilidade com o próximo. Somente tamanho altruísmo e despojamento seriam capazes de criar um círculo tão grande e intenso de pessoas que desejam o seu bem e que se inspiram em suas atitudes.
Falando em atitudes, suas viagens pelo mundo e seu sucesso como cineasta, aeronauta, pesquisador e acadêmico sempre foram inspiração para muitos. Acredito que muitos de seus “pupilos” (consanguíneos ou não) deixaram-lhe um gosto de frustração... porém, outros tantos têm em sua conduta, em suas ações e conquistas, um marco que suscita novas conquistas, vitórias e sucessos! Dessa forma, buscam alcançar um lugar melhor nessa picada chamada vida e têm, na sua pessoa, a inspiração e a motivação para chegar lá.
Aliás, para uma pessoa de vanguarda, suas missivas sempre criaram a ideia de “compartilhar”, que hoje está tão em voga. Sua vida e sua conduta mostram o quanto isso sempre esteve em prática ao longo de sua vida. Acrescemos ainda a ideia de “reunir”, promovendo encontros entre familiares distantes e integrando as pessoas à sua volta. Em suma, um autêntico “construtor de pontes”. Talvez tenha sido ele a inspiração para o termo networking.
E, para finalizar, como a expressão “pensar fora da caixa” pode ser considerada uma síntese para suas atitudes, ela simboliza esse olhar por outros ângulos, mais crédulos e otimistas, buscando a felicidade e a realização — mesmo num ambiente complicado/complexo, como são a sala de aula e a convivência familiar!
Um feliz aniversário, um grande e forte abraço, Tio. Contando — como há 5 anos atrás — que estaremos juntos até os seus 120 anos!
Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2013.
*Thiago Barcelos, sobrinho de Emmanoel. Engenheiro de Qualidade, Mestrado pela University of Portsmouth, no Reino Unido.
**Amilcar Santos, sobrinho-neto de Emmanoel. Professor. Pesquisador em Ciências da Educação pela Universidade do Minho, Portugal.
Foto de Mauricio Matos. Araras, 1998
Maria Theresa Abelha Alves*
Que linda homenagem a uma pessoa tão iluminada como foi o Emmanoel!
Tinha sempre uma palavra carinhosa, acolhedora e animadora.
Honradíssima por tê-lo como amigo!
Para os que o mantêm vivo na lembrança e no coração -- sou uma dentre os muitos--, o canal vai mantê-lo vivo, como se ele estivesse participando das conversas.
As fotos principais são perfeitas: o olhar penetrante, as rugas de seriedade na testa, e o esboço de sorriso um tanto irônico e um tanto trocista.
Tinha esse mesmo sorriso quando me falou que fora cineasta e eu achei que era uma das muitas brincadeiras dele que nos deixavam na dúvida se eram verdade ou mentira. Era verdade e o comprovamos em Florianópolis, quando vimos cenas do filme "O preço da ilusão", pela mão do seu amigo Salim Miguel. E as poucas imagens que restavam dele eram muito bonitas, com perfeita utilização dos efeitos simbólicos do claro-escuro.
Quando disse que fora aviador também duvidei, porque ele nem dirigia automóvel, mas, enfim, era verdade.
Muito depois percebi que toda aquela cultura que ele, de maneira tão natural e sem nenhuma pompa, transmitia se devia ao fato de que ele era homem de muitos interesses e os vivia intensamente.
Que venham cheios de boas lembranças os 100 anos do Emmanoel!
Rio de Janeiro, janeiro de 2026.
*Ensaísta e professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA)
Gelda Lhamas*
Páscoa de 1984. Encontro com um interessante casal, Gilda e Emmanoel em Prados, um pequeno município histórico de Minas Gerais fundado no século XVIII, com sua bela Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e seu charmoso povoado de Bichinho.
Às procissões de Páscoa foram acrescidas longas conversas com Emmanoel, passeios em busca da história e fazeres da população local.
Outros encontros se seguiram, no Rio de Janeiro e em Araras, sempre com conversas regadas de conhecimento e carinho.
Não foram muitos momentos juntos, mas os poucos deixaram ótimas lembranças de uma pessoa “aconchegante”.
Páscoa de 1984.
*Engenheira e PhD em Ciências Ambientais.
Maria Fernanda Matias e Emmanoel em Araras, 2008
Gelda e Emmanoel em Araras, abril de 1986
A expressão de Emmanoel
Maria Fernanda Matias*
Há fotografias que tiramos sem saber, no instante do disparo, qual será o seu destino. Julgamos fixar apenas uma presença, uma luz, uma expressão fugidia; anos depois, descobrimos que essa imagem guardou mais do que um rosto. Guardou uma forma de estar no mundo, um traço de carácter, talvez mesmo uma verdade discreta da pessoa retratada.
Foi isso que senti ao saber, pela querida Gilda, que uma fotografia de Emmanoel Santos, tirada em 2004, fora escolhida para abrir uma das chamadas deste espaço de memória. A fotografia, quando acerta, pertence sempre um pouco a quem nela se reconhece.
Uma expressão, ao contrário de uma pose, não se fabrica. Surge, passa, esconde-se. Depende da confiança entre quem olha e quem é olhado; depende também de uma espécie de suspensão do tempo. No retrato, a pessoa deixa por momentos de se defender da câmara. Não representa; comparece. Emmanoel não posou. Esteve ali.
Recordo-o como presença inteligente e contida, de trato fino, marcada por uma vida intelectual ampla e por uma curiosidade pouco comum. Havia nele qualquer coisa de homem formado por várias fidelidades: à língua, ao pensamento, ao ensino, ao cinema, às amizades. Não era uma figura encerrada num único ofício. Pelo contrário, parecia atravessado por diversos caminhos, todos convergindo numa mesma exigência interior: compreender melhor, dizer melhor, escutar melhor.
Essa multiplicidade não o dispersava. Dava-lhe densidade. Emmanoel pertencia a uma geração para a qual a cultura não era adorno, nem mera especialização. Era modo de vida. Lia-se, via-se cinema, discutia-se uma palavra, seguia-se a história de uma ideia, escrevia-se com atenção, conversava-se com gosto. Hoje, num tempo veloz e ruidoso, essa atitude parece quase uma forma de resistência. Emmanoel trazia consigo essa resistência calma dos espíritos cultivados: não precisava de se impor para se fazer ouvir.
Emmanoel era enófilo. Falava dos vinhos do paralelo 8, os do Vale do São Francisco, vinhas do sertão a oito graus do equador, onde a videira dá duas e três colheitas por ano, contra tudo o que os manuais ensinam. Ouvi-lo era ficar para trás. As palavras dele iam longe de mais para mim, e eu seguia-as como se segue uma língua amada e mal sabida: pelo som, pelo gosto de quem a fala, sem apreender o sentido por inteiro. Não guardei a lição. Guardei o homem a dá-la.
Em cada ida ao Rio de Janeiro, Emmanoel e Gilda levavam-me com eles, sempre atrás de um teatro, de um museu, de uma fazenda, de uma boa mesa onde a conversa valesse a demora.
Emmanoel não é apenas nome com biografia, é pessoa devolvida aos seus afetos. A fotografia faz a ponte. Não explica, não resume, não interpreta. Apenas oferece uma presença. E, por vezes, uma presença diz mais do que uma síntese.
Este site, nascido do amor de Gilda, tem esse valor: não procura monumentalizar Emmanoel, mas restituí-lo na sua complexidade humana. Há nele palavras, recortes, textos, imagens, testemunhos. Há uma vida intelectual reconstruída por vestígios. Há também o cuidado de quem sabe: a memória precisa de forma para não se perder. Os arquivos pessoais são prolongamentos de uma existência. Cada recorte, cada fotografia, cada texto guardado contém uma pergunta silenciosa: que ficará de nós quando já não pudermos contar a nossa própria história?
A resposta passa pelos que ficam. Passa por Gilda, antes de todos, pela sua ternura luminosa. Passa pelos amigos, alunos, leitores, colegas, por todos aqueles que conheceram Emmanoel em diferentes momentos e receberam dele uma palavra, uma ideia, uma atenção. Passa também por objetos modestos: uma fotografia, uma dedicatória, uma página recortada, um texto reencontrado. A memória raramente se organiza em grandes gestos. Vive antes destes pequenos sinais, frágeis e persistentes.
Entre Portugal e Brasil, Emmanoel pertenceu ainda a essa comunidade profunda onde a língua é casa comum, herança, debate e afeto. A língua portuguesa, nos seus vários timbres, aproximou muitos de nós. Aproximou-nos através dos livros, das universidades, dos encontros, das conversas que continuam para lá das circunstâncias. Recordar Emmanoel é também recordar essa circulação viva entre margens atlânticas, feita de palavras, cumplicidades intelectuais e reconhecimentos mútuos.
Não escrevo como especialista da sua obra, nem como intérprete do seu percurso, mas como alguém que o fotografou há mais de duas décadas, o ouviu e o estimou.
Deixo esta homenagem simples: à memória de Emmanoel Santos, à sua inteligência discreta, ao seu amor pela cultura; e também a Gilda, que soube transformar saudade em arquivo, afeto em transmissão, perda em presença partilhada.
O correio já não me entrega os seus relatos datilografados. Se, no entanto, uma fotografia pode, por instantes, vencer o esquecimento, será porque nela continua a respirar uma expressão. A de Emmanoel permanece. Serena, atenta, inteira.
10 de junho de 2026
*Museóloga, investigadora nas áreas do património cultural e da memória indo-portuguesa. Consultora da Fundação Calouste Gulbenkian
Maria Theresa Abelha Alves e Emmanoel em New York, dezembro de 1989
Foto de Maria Fernanda Matias, 2004
O Professor Emmanoel
Mauricio Matos*
o olhar profundo
o semblante quase circunspecto
hercúleo conforme alexandre
tão forte quanto pode o mar
em araras
o erguer-se por sobre a própria voz
em silêncio feroz e terrível
fez-me tremer-me a mim mesmo
por dentro dos próprios segredos
foi um aroma perdido na tempestade
um máximo ente magnífico
como aquele que ecoa
sem resvalar-se jamais
*Professor Associado de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado do Amazonas - UEA. Poeta e ensaísta.
Lisboa, 02/01/2026
Espaço para amigos, colegas e familiares deixarem testemunhos e boas lembranças de Emmanoel.
Sua mensagem será publicada neste espaço.
Evite conteúdos ofensivos, discriminatórios ou que violem a privacidade. Mensagens podem ser editadas para correção, formatação ou remoção de trechos inadequados antes da publicação.