Amilcar Santos

Thiago Barcelos

Um Texto a 4 mãos

Thiago Barcelos* / Amilcar Santos**


Já são 5 anos desde a última vez que nos reunimos em homenagem ao Tio Emmanoel, e muito se passou durante esse tempo. Em comemoração aos seus 85 anos (ainda que ele aparente ter apenas 67) e como há muito o que se falar dele, nós, sobrinhos-netos, tentamos sintetizá-lo em uma frase e concluímos que:

                                     O Tio Emmanoel sempre foi um homem muito à frente de seu tempo!

Se nós simplesmente não pensarmos em todas as lembranças afetivas que temos (e não serão poucas), podemos dizer que, ainda assim, ele sempre foi um homem de vanguarda. A preocupação com a arte e a cultura foram marcas sempre importantes para ele, fazendo com que as pessoas mais próximas ou os familiares (até os mais distantes) pensem na importância de valorizar o trabalho de artesãos e artistas. Tal sensibilidade despertada constitui-se em um legado imaterial que ele tem deixado para nós ao longo de sua vida.

Além disso, sua perspectiva diante de um problema ou uma adversidade relembra o olhar de uma lente grande angular. Sua maturidade e serenidade para tratar de questões postas sempre revelaram que ele era um ancião em sua sabedoria. Ele não se limita a um ponto, a uma questão. Ao contrário, sempre nos impulsionou a ver qualquer situação por um foco mais amplo, além do alvo ou da preocupação. Com essa postura, ele acaba nos levando a encontrar opções, saídas e alternativas que um olhar mais simplista jamais conseguiria.

E como não fazer referência à sua paciência (somente comparável à de um monge budista) e ao seu bom e inteligente humor! Essas duas qualidades são marcantes numa personalidade tão interessante e que mantém viva uma presença e um senso de responsabilidade com o próximo. Somente tamanho altruísmo e despojamento seriam capazes de criar um círculo tão grande e intenso de pessoas que desejam o seu bem e que se inspiram em suas atitudes.

Falando em atitudes, suas viagens pelo mundo e seu sucesso como cineasta, aeronauta, pesquisador e acadêmico sempre foram inspiração para muitos. Acredito que muitos de seus “pupilos” (consanguíneos ou não) deixaram-lhe um gosto de frustração... porém, outros tantos têm em sua conduta, em suas ações e conquistas, um marco que suscita novas conquistas, vitórias e sucessos! Dessa forma, buscam alcançar um lugar melhor nessa picada chamada vida e têm, na sua pessoa, a inspiração e a motivação para chegar lá.

Aliás, para uma pessoa de vanguarda, suas missivas sempre criaram a ideia de “compartilhar”, que hoje está tão em voga. Sua vida e sua conduta mostram o quanto isso sempre esteve em prática ao longo de sua vida. Acrescemos ainda a ideia de “reunir”, promovendo encontros entre familiares distantes e integrando as pessoas à sua volta. Em suma, um autêntico “construtor de pontes”. Talvez tenha sido ele a inspiração para o termo networking.

E, para finalizar, como a expressão “pensar fora da caixa” pode ser considerada uma síntese para suas atitudes, ela simboliza esse olhar por outros ângulos, mais crédulos e otimistas, buscando a felicidade e a realização — mesmo num ambiente complicado/complexo, como são a sala de aula e a convivência familiar!

Um feliz aniversário, um grande e forte abraço, Tio. Contando — como há 5 anos atrás — que estaremos juntos até os seus 120 anos!

Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2013.

*Thiago Barcelos, sobrinho de Emmanoel. Engenheiro de Qualidade, Mestrado pela University of Portsmouth, no Reino Unido.

**Amilcar Santos, sobrinho-neto de Emmanoel. Professor. Pesquisador em Ciências da Educação pela Universidade do Minho, Portugal.

Foto de Mauricio Matos. Araras, 1998

Maria Theresa Abelha Alves*


Que linda homenagem a uma pessoa tão iluminada como foi o Emmanoel! 

Tinha sempre uma palavra carinhosa, acolhedora e animadora. 

Honradíssima por tê-lo como amigo!
Para os que o mantêm vivo na lembrança e no coração -- sou uma dentre os muitos--, o canal vai mantê-lo vivo, como se ele estivesse participando das conversas.

As fotos principais são perfeitas: o olhar penetrante, as rugas de seriedade na testa,  e o esboço de sorriso um tanto irônico e um tanto trocista. 

Tinha esse mesmo sorriso quando me falou que fora cineasta e eu achei que era uma das muitas brincadeiras dele que nos deixavam na dúvida se eram verdade ou mentira. Era verdade e o comprovamos em Florianópolis, quando vimos cenas do filme "O preço da ilusão", pela mão do seu amigo Salim Miguel. E as poucas imagens que restavam dele eram muito bonitas, com perfeita utilização dos efeitos simbólicos do claro-escuro. 

Quando disse que fora aviador também duvidei, porque ele nem dirigia automóvel, mas, enfim, era verdade. 

Muito depois percebi que toda aquela cultura que ele, de maneira tão natural e sem nenhuma pompa, transmitia se devia ao fato de que ele era homem de muitos interesses e os vivia intensamente. 

Que venham cheios de boas lembranças os 100 anos do Emmanoel!

Rio de Janeiro, janeiro de 2026.

*Ensaísta e professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA)

Maria Theresa Abelha Alves e Emmanoel em New York, dezembro de 1989

O Professor Emmanoel

Mauricio Matos*


o olhar profundo
o semblante quase circunspecto
hercúleo conforme alexandre
tão forte quanto pode o mar

em araras
o erguer-se por sobre a própria voz
em silêncio feroz e terrível
fez-me tremer-me a mim mesmo
por dentro dos próprios segredos

foi um aroma perdido na tempestade
um máximo ente magnífico
como aquele que ecoa
sem resvalar-se jamais


*Professor Associado de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado do Amazonas - UEA. Poeta e ensaísta.

Lisboa, 02/01/2026

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