Recortes Cotidianos

Rio, 2004

Com a família numerosa e os muitos amigos espalhados por vários cantos, Emmanoel criou o hábito de enviar cartas (num tempo anterior ao correio eletrônico) como forma possível e eficaz de manter o contato, já que o telefone nem sempre estava ao alcance de todos (antes dos celulares). 

Cartas que tanto partilhavam notícias e comentários pessoais, do cotidiano doméstico ou de registros das muitas viagens, como recortavam textos alheios, pinçados da imprensa, de livros ou de falas ouvidas aqui e ali. 

A temporada californiana de 9 meses (1992-3) adensou esse hábito e as "cartas-circulares" policopiadas e remetidas a vários destinatários passaram a ser um misto de diário, de crônica, de livro de bordo, onde a mescla de temas acaba por traçar o perfil de quem as escreve e a delinear o panorama de um tempo (muito bem) vivido. Depois, já adotado o e-mail, mantiveram o mesmo padrão.  

Nesta sequência de páginas, dos anos 90 a 2005, muitos de vocês se encontrarão mencionados ou recordarão algumas de suas próprias vivências.  

Gilda Santos

Califórnia 1992 --- Gilda escreve longa carta a uma colega de juventude. Copio trechos:

“Viagem ótima. VARIG. Do Rio a Los Angeles. De Los Angeles a Santa Bárbara (foi preciso sair do Brasil para usarmos avião brasileiro) pegamos uma aeronave Brasília, da Delta AIRLINES, que voa baixo junto à costa , e tem-se uma bela paisagem. A recepção é festiva, com ampla cobertura fotográfica a cargo de casal amigo. Ficamos no previsto cantinho de Santa Barbara, agarradinhos ao “campus”, mas preferimos um outro apto. em vez daquele cujo endereço deixei aí. Uns plátanos dourados e vermelhos, que os amplos janelões desta sala onde escrevo praticamente põem dentro de casa, foram o fator decisivo da mudança...”. “Os dias têm estado maravilhosos. Uma delícia de outono que nada tem a ver com aquela neve e tempestades que a televisão mostra em lugares aqui mesmo da Califórnia, porém mais ao norte.” “Fizemos, logo ao chegar, aproveitando o luxuoso carro de um casal amigo de passagem por aqui, um passeio por lugares mais ao norte de onde estamos: SOLVANG (cidade de colonização dinamarquesa, fato que o comércio explora às últimas, criando um ambiente dinamarquês de cenografia, mas sempre bonito), CARMEL (cidade de artistas e de galerias de arte), LOMPOC (para visitar a impressionante missão de La Puríssima), MONTEREY (só para comer os famosos pratos de peixes do “old fisherman’s wharf”).. Não escapamos à turística 17 Miles Drive (vale a pena!) e estivemos no campo de golfe (a região tem muitos) talvez mais luxuoso do mundo. Vimos a ilhota dormitório de leões marinhos e pássaros diversos. Aliás, a bicholândia aqui é muito curiosa: há esquilos que vivem nas falésias da costa e abordam os turistas para pedir comidinha. Gaivotas e corvos convivem pacificamente em nosso telhado (às vezes há um pássaro do mar procurando comida nos latões de lixo, pois já descobriram o famoso desperdício norte-americano). E há beija-flores pesquisando (flores?) nos plátanos.” “Estar aqui em época de eleição foi muito instrutivo para se penetrar melhor na mente do eleitor local.” (Aliás, aqui no condado – é isto mesmo! – de Santa Bárbara, o leitor tinha de trabalhar com seis fichas, daquelas antigas de computador, marcando nos dois lados de cada. Uma loucura! Eleições para Presidente, vice e mais uma porção de cargos, além de plebiscito sobre certas medidas administrativas ou estabelecimento de novas leis. Assuntos federais, nacionais e locais).

1993

Califórnia, 02/03/1993 --- Como não existem cartas hoje pedindo resposta (a nossa linda loirinha “correia” só nos trouxe impressos, com a VEJA registrando que o dólar está no Brasil a vinte...mil!) posso me dar ao luxo de divagar. Aí no Brasil trabalhava em PC usando o DOS, aqui estou com laptop usando o ambiente Windows. O laptop é IBM e a impressora idem. Ainda assim o vendedor IBM, entendido em computadores, não conseguiu acoplar os dois. Apelamos para a IBM, mas logo vimos que a eficiência norte-americana é para ser vista de longe, lá do Brasil. Aqui de perto foi um desastre. Cansados de não ser atendidos, apelamos para um nosso amigo, português, fazendo “computer science”, que também não resolveu, que isto de estabelecer conexão de um periférico é coisa muito aquém do interesse de quem vive nas altas esferas dos algoritmos. Quem resolveu foi um terceiro (como na canção infantil), também português e realizando estudos em área que nada tem a ver com hardwares e softwares. Ele agiu à oriental: leu o manual (os outros não haviam lido) e descobriu que havia uma conexão errada. Assim, já posso imprimir meus textos, sendo este exatamente o primeiro.

01.07.93 – Mais um cartão “massagista” (de meu ego) enviado pelo querido amigo Francisco, reiterando elogios a meus “relatórios”. Começo a admitir (admirem minha modéstia!) que os ditos são, no mínimo úteis e, assim, pretendo continuar com eles enquanto for possível.

02.07.93 - Estelle (a “tutor”) recebe homenagem do casal E&G no restaurante Skandi, cuja dona é uma sueca com porte de rainha, e que nos foi apresentado pela própria Estelle. Como presente de despedida Gilda lhe dá um bonito anel com ametista lapidada e forma de coração. Feliz como uma criança, Schneider (nome de família) exulta. Não sabe o que dizer, nem como  agradecer. Mostra o anel à garçonete (um exemplar aceitável de bonita e – principalmente – sadia camponesa da Suécia) e à “rainha”. Todos ficam felizes com a alegria de Estelle.

3, 4 e 5 de julho de 93 – O jeito comunicativo, sociável, solidário, etc. de Gilda andou marcando gente por aqui. (como moldura, o marido Emmanoel apoiou a ação da esposa-locomotiva sem atrapalhar). Um dos resultados foi a tríplice festa de despedidas: uma em português, uma em espanhol e uma em inglês. Apresentando uma espetacular feijoada, Mécia foi a promotora da primeira. Compareceram os mais ligados a mim lá na UCLA (o casal Hulet e o casal Quicoli) e mais o casal Franchetti & Susan, por lá de passagem; além dos pais de Susan e irmão. De Santa Bárbara estiveram Graciela, Mercedes, Paulo e seus pais & Inês, a filhinha, Jorge Fazenda Lourenço, David (um francês a estudar na Brooks), Márcia (da UFRJ à UCSB para receber a orientação a nível internacional de Gilda), Gilda e eu. Da casa, Mécia, Mariana e... Hamlet.

As falantes de espanhol, com Mercedes à frente, promoveram sua despedida ao casal E&G nada menos do que no Rancho Santo Isidro (da rede “Relais & Chateaux”). A classe do ambiente nem dá pistas para se saber que é o “Independence Day”. Meu prato foi soberbo. O vinho branco, o melhor que bebi até então. Ficou sendo o melhor até...

Mercedes, Graciela e Sara (a do rosto asteca sem ter sangue asteca) mais uma vez foram simpaticíssimas.

A festa de despedida “em inglês” foi na casa de Mrs. Reba Baker. Em bairro bonito, verdejante e florido (o que não é raro aqui), e em rua que atende pelo interessante nome de “Calle de los amigos” (e nome interessante e em espanhol também não é raro aqui). Rara é a Mrs Baker, apesar de ser uma velhinha americana típica de classe média bem alta. Sua casa é um encanto. O jantar foi sempre muito elegante, mas de formalismo atenuado pelas circunstâncias (mão de obra cara) da vida por aqui, e como deve ser por todos os “States”

06.07.93 – Gilda mexe os pauzinhos e consegue da Varig gratuidade para o transporte dos livros e demais material impresso. (A pobre da Varig não sabia em que estava se metendo...) Seguindo instruções da Varig fizemos um enorme volume com os livros & Cia., mas, percebendo que seria quase impossível manobrar tal caixotão, desdobramos a livralhada. Ainda assim, os filhotes ficaram pesando mais de 60 kgs. E as passagens? Suspense. A Varig informa que estão a caminho, transportadas por mensageiro especial. Chega o dito, aliás, a dita, com uniforme safári, calção e tudo. Uma versão mais escovada e menos jovem e bonita de nossa carteira habitual. Que vimos hoje novamente. Livros arrumados, Gilda passa a noite em claro arrumando a bagagem. Eu apenas cochilo. É toda uma casa, pequena embora, que precisa ser desmontada e empacotada. E Gilda reservou para isso pouco tempo. Mas o estoque de tempo reservável não era mesmo muito grande. De qualquer forma, fico (ainda!) admirado pela fortaleza de Gilda. E disso ela daria provas durante toda essa aventura que foi regressar ao Brasil com tanta bagagem. Mais de 300 quilos, principalmente livros e cópias xerox em excelente papel. Papel pesadíssimo, portanto.

07.07.93 - A volta. Parecia impossível, mas Gilda conseguiu empacotar tudo que desejava levar para o Brasil. Muita coisa ficou e foi doada a quem de direito, mas as coisinhas de estimação ficaram prontas para viajar. Começou então o drama de transportar toda a tralha. Tínhamos combinado compartilhar o utilitário com uma família de regresso a Portugal.

Haveria lugar para tudo? Ao chegarmos à casa de Mécia já estava lá o utilitário, bem menor do que imaginávamos. Bagagem atulhando todos os espaços disponíveis no interior e o restante empilhado, equilibrando-se, no teto do veículo. Chegamos em cima da hora, com o “Last minute rescue” de Gilda sempre funcionando, e era preciso então sair logo. Saímos. Como? Mais tarde a Mécia contou: com o carro adernado e a bagagem oscilando perigosamente em cima. Em dado momento, na estrada rumo a Los Angeles, um motivo de apreensão: um motorista nos acena e todos concluímos que um volume havia caído. Mas não era nada disso e ficamos sem saber a razão do aceno assustador.

No aeroporto, no balcão da Varig, um primeiro problema: os volumes com mais de 60 quilos não poderiam ser despachados. Felizmente a Varig é organizada e forneceu embalagem para o desdobramento, que a heróica Gilda fez ali mesmo no balcão, com uma tranquilidade que ela arranjou não sei onde. Um segundo problema é que nos deixou de fato intranquilos: combinação de inesperados fizeram com que o voo da Varig ficasse lotado, o que complicava a viagem de Márcia Alfama, portadora de bilhete grátis condicional, portanto, dependendo de vaga. Um pernoite em Los Angeles em hotel padrão seria despesa acima de sua caixa no momento. A alternativa, bastante desconfortável, seria permanecer toda a noite no aeroporto.

Esperávamos que o espírito de solidariedade da família Varig funcionasse e que a Márcia, muito viva, o aproveitasse. (de fato, Márcia se saiu muito bem, pernoitando em um hotel mais distante e muito mais em conta)

Eficiente em terra e no ar, a Varig, que já nos havia proporcionado uma excelente viagem de ida, nos deu uma viagem de volta no mesmo padrão. Embora longa, a viagem serviu para descansar o corpo (um tanto moído de carregar peso) e preparar o espírito para a roleta russa da Alfândega. Foram necessários três carrinhos para transportar a bagagem e assim mesmo equilibrando tudo sob a forma de estranhos e oscilantes obeliscos.

Na Alfândega, porque tínhamos muita bagagem, cedemos a vez. Só que beneficiando uma família em regresso e com bagagem muito superior à nossa. Foram premiados com um vermelho, mas, tendo tanta bagagem, a fiscal teve uma crise de preguiça e resolveu dar uma segunda oportunidade à família, pedindo que um outro membro apertasse o botão. Deu vermelho novamente. E lá se foi toda a bagagem para o recinto da Alfândega, a fim de sofrer exame. Depois de dois vermelhos acho que nem Gilda desta vez ganharia vermelho. Ainda assim, como o escalado tinha sido eu, olhei para o alto, pensei positivamente, e enchi os pulmões, mas catucando de leve: verde! A fiscal ainda olhou para nós e nossos pacotes, acho que meio desconsolada, e ainda arriscou uma pergunta: “Não estão trazendo computador?” Eu respondi: “Estou trazendo livros, a bagagem mais antipática que existe, porque pesa muito. “Mas, pensando bem, eu não respondi a pergunta que ela fez, não é verdade? Mas não menti. Longe de mim mentir...”

Como Rula nos oferecera uma “pick-up”, nós dispensamos os carros da família. Mas o pai da Gilda foi mesmo assim nos receber. Bendito Sr. Francisco, pois foi de utilidade imensa para ajudar a levantar aqueles pesos todos e colocar no utilitário.

Agora encarar a realidade carioca. Depois do verde da Alfândega, o moral ficou elevado e nós estávamos prontos para retomar o fio da vidinha agitada de sempre por aqui.

Termino com um assunto menor. Recebemos o “Statement” do Bank of America, do período 26 de agosto/24 de setembro, com um cheque (547) emitido a favor do SCE. A data do cheque é 16.09.93, o que nos deixou intrigados: estaríamos pagando conta de luz de agosto, quando já não estávamos aí? Será que nossa carta dispensando os serviços da SCE chegou ao destino? Ela foi postada aí mesmo. Imagino que Mécia esteja senhora da situação.

Um grande, um enorme, saudosíssimo abraço para Mécia. Uma mensagem de carinho para todos os dela, mesmo para aqueles que, como a Joaninha (gostosura de nome), conheci, gostei, mas pouco fruí em termos de conversa. Quando vierem ao Brasil, terei minha oportunidade. Quanto à Mariana, já estou a fazer halterofilismo, pois prometi a ela levá-la ao colo por todo o tempo que estiver por cá.

1993

Araras, 1º de Janeiro de 1994

Caríssimo Francisco:

Amor! Pax!

Vai para você minha primeira carta de 1994 e espero que Jorge seja portador, para aumentar a dose de ternura.

Como você já leu, estamos em Araras, onde chegamos há dois dias e já colocamos a casa em ordem. Agora, nesta doce calma, aparece tempo para ler, dormir e escrever para o amigo muito querido, com uma cabeça tranquila que nunca se teve lá em baixo.

O “em baixo” é o Rio, pois acredito que você sabe que Araras é serra. Nosso cantinho está aninhado nos contrafortes da Maria Comprida, pico com quase dois mil metros.

Uma surpreendente grande massa fria apareceu no sudeste e havia previsões de que ela levaria até seis dias para passar. Em Araras já chovia, com intermitência, há quase 15 dias quando chegamos. Frente fria no Rio quer dizer menos calor, mas aqui pode ser até frio mesmo, em pleno verão. Portanto, daqui a pouco é possível que eu acenda a lareira para alegrar a tia Fernanda, uma transmontana que consegue sentir frio até “lá em baixo”.

No momento acontece o crepúsculo e Gilda e eu estamos recolhidos na suíte do casal. Ela, acomodada na cama, lê e escreve sobre Jorge de Sena. Eu escrevo esta, recuperando de um almoço com lombinho e vinho Dão (seguido de puxada caminhada de hora e meia), por um banho demorado e sesta mais ainda.

Lá fora o gramado “pavoneia” o seu verde, com pouca luz, enquanto, no céu, as nuvens cinzas não falam de sol (esperanças de Fernanda) para o dia de amanhã, domingo (Aliás, já volta a chover)

Até agora sob “pressão” de Dona Gilda, meu trabalho maior foi “passar em revista pacotes de jornais antigos que formavam uma grande pilha. É curioso ver o efeito de tantas e tão diversas notícias passando em alta velocidade à minha frente. Fatos que fizeram sensação e hoje estão escondidos em algum canto da memória, se é que não foram esquecidos de vez por todos. Coisas que tiveram muita vida e hoje estão mortas mas também há coisas importantes a que não se deu importância, nem outrora, nem agora. E coisas cuja importância, facilmente agora começa a se levar em conta. Por exemplo, eu que nunca aceitei essa ideia de menino “de rua” vejo agora que já se começa a pensar que rua não é lugar de menino, por mais que teimem as leis (recentes) em dizer o contrário. Não se pode permitir a uma criança a diversão de viver na rua. Enquanto isso, só no complexo de Quintino dizem haver 300 vagas e 16 ocupantes.

Na televisão, notícias da passagem de ano e da multidão, no Rio, à beira-mar. Só em Copacabana (ponto tradicional) foram mais da dois milhões de pessoas. Eu já lá estive, com amigos franceses (doidos para ver tudo).e sei o que é. A chuva deu uma parada para facilitar a festa, mas já volta a chover em todo o país, incluindo a região de secas no nordeste. Foi comovente ver um homem, após a primeira chuva em anos, correr a deitar as sementes ao solo.

Gilda envia “coisinhas” para você e nossa amada Maria Luiza. Vale o carinho que ela coloca nas “coisinhas”, por ela e por mim.

Abraços /Saudades

Emmanoel.

Rio de Janeiro, verão de 1994 --- Sexta-feira, 21 de janeiro:

Os jornais publicam os resultados anuais do comércio exterior do Brasil. Como o país está em crise econômica, os resultados devem ser, no mínimo, pífios. Mas não é o caso: o movimento foi melhor do que nunca. Exportou-se como jamais se havia exportado, principalmente produtos industrializados (75% do total), enfrentando furiosa concorrência para venda a um mundo também em crise econômica. A pauta é incrivelmente diversificada. Detenho-me no item “vinho”, que cresceu 96,6%. Ao lado de itens medidos em bilhões de dólares (nunca imaginara que “calçados” estivesse nesses níveis!), os milhões de dólares obtidos com vinho soam muito modestos. E permitem o forte crescimento. Sei que há excelentes vinhos brasileiros: guardo alguns, raros e caros, com carinho. Mas já há produção apresentável ao mercado externo em condições de render milhões de dólares em exportação?

Assim sendo, montado em montanha de 32 bilhões de dólares – de olho no acordo da famosa dívida externa, os bancos credores dizem que é mais – o governo controla a maior reserva cambial que por aqui já se montou, o que lhe permite manter o dólar paralelo mais barato do que o dólar comercial. Como os rendimentos financeiros estão remunerando bem e a Bolsa sobe a jato, os dólares retornam ou ingressam: somos o paraíso do dia dos investidores. Resultado perverso: mais inflação, ou seja, continuamos a ser o inferno dos assalariados. Purgatório para a classe média, que se tornou também investidora à força e ganha alguma coisa por aí. Mas não é estranho vermos as pessoas livrando-se de dólares como de uma batata quente nas mãos? E isto com uma inflação de 40%? É o “milagre” da indexação, essa descoberta brasileira. Que importa o índice da inflação, se, com a triste exceção do dólar, qualquer investimento remunera acima da inflação?

São os paradoxos do Brasil: inflação causando crise, deterioração de salários e a economia, como um todo, crescendo e remunerando bem quem investe nela. Como acabar com a inflação, que pune os mais carentes, se há tantos ganhando com ela? Mas parece sério o esforço do atual governo, neste momento. Terá apoio no Congresso e na sociedade? Como se, por linhas tortas, o Brasil vem apresentando crescentes saldos positivos de comércio e de capital?

Rio, últimos dias do verão de 1994.

Nesta vidinha trabalhosa, usei pedacinhos de tempo para ir montando “relatórios” com vistas ao Francisco, pinçando notícias que poderiam ser de seu interesse. Mas dadas as conhecidas e tristes circunstâncias, que notícias interessariam ao Francisco? As duas últimas laudas foram compostas com notícias amenas ou neutras, sem problemas maiores: a ideia era mesmo divertir um pouco, se possível, nosso querido amigo. Gilda já havia escrito a sobrecarta e eu já me preparava para ir ao correio quando chegou aviso de que seria melhor não remeter: “o estado de Francisco está em um ponto crítico e ele já não lê, nem reconhece as pessoas”. Suspendi a remessa – é claro! - e pouco depois tudo era confirmado, com a notícia do passamento. Dias depois vejo a sobrecarta com a letra de Gilda e escrevo, de impulso, uma linhas para Maria Luiza... não para falar de minha dor e de Gilda, precisando ainda de uma válvula de escape, mas para de algum modo estar presente perto dela falar de nossa disponibilidade e tentar não perder contato com uma pessoa que tanto nos impressionou. Teria a carta chegado até ela? O certo é que estamos sem notícias da Maria Luiza que tão de imediato nos conquistou. Saber onde ela está, como ela está, o que ela quer, etc., tornou-se assunto de nosso maior interesse. Devemos muito a ela. Nossa ida a Stanford para ver o Francisco foi uma jornada cheia de apreensões: o que diríamos, o que faríamos, sobre o que conversaríamos, como estaria ele, tudo isso eram interrogações. Mal lá chegamos toda a nossa angústia sumiu de repente ao primeiro contato com Maria Luiza, vendo a maneira, ao mesmo tempo extremamente hábil e extremamente generosa, como ela administrava a delicada situação. Saímos de Stanford com uma sensação de grande alívio: o caminho de Francisco podia estar no fim e não ter volta, mas seria o percurso suavizado por uma bela, doce presença de mulher... Portanto, Mécia querida, se tiver notícias de Maria Luiza favor nos dizer. Quanto ao mais, a carga de trabalho que temos enfrentado consegue ser bem maior do que a habitual, que já é grande. Mas é o trabalho que desejamos mesmo fazer e nos apoiamos um no outro.

Abraços, votos de felicidades, beijinhos muitos e saudades.

Rio, outono de 1994

Tudo de bom para todos!

Pois é, foi bom rever Portugal na primavera, com dias lindos de sol e um friozinho acima do esperado. Lisboa estava toda prosa com a programação da “Capital Cultural da Europa”, de que acabamos pegando uns fiapos: um concerto naquele desconcertante-por-fora-e-deslumbrante-por-dentro Centro Cultural de Belém; três peças de teatro: “Clamor” (com uma encenação estupenda, imperdível [vem ao Brasil]), “Maldita Cocaína” (uma revivescência hollywoodiana das revistas portuguesas) e “As Guerras do Alecrim e da Mangerona”(montagem muito criativa da Comuna); algumas exposições: o Neomanuelino no Palácio da Ajuda, Oratórios mineiros em São Roque, e peças autênticas de um retabulista português do tempo de Fra Angélico (cujo nome esqueci) na Torre do Tombo, e outras com menos brilho; e um lançamento de livro sui-generis: a edição crítica dos autos do Chiado, feita por D. Cleonice e Ronaldo Menegaz, foi apresentada ao público junto à estátua do Chiado, em frente À Brasileira, com direito a uma improvisação muito criativa de um grupo de atores, seguida de “petiscos e beberetes” oferecidos generosamente pela própria À Brasileira. Inesquecível. (Vai-se publicar o texto que D. Cleo leu na ocasião no próximo nº da revista do Real Gabinete). Revisitamos ainda Queluz, Sintra, Mafra, o Porto (onde vimos uma excelente exposição sobre O Infante na Fundação Eng. Antônio de Almeida), e o Douro, num passeio ferroviário até à Régua. E ficamos a conhecer bem (pois só conhecíamos de passagem) Setúbal e sua região, onde fomos levados por Margarida Braga Neves, que mora lá e conhece todas as “dicas”. Sem que estivesse em nossos planos, fomos conhecer também Salamanca, pois recebemos convite irrecusável do Leitor de Português que lá está, e que, além de ser um encanto de pessoa, escolheu Jorge de Sena para tema de sua tese de Mestrado...Portanto, conhecemos Salamanca “por dentro”, na hora certa, com a pessoa certa... e lá deixamos nosso coração, com vontade grande de voltar, para, quem sabe, encontrar o Lazarillo... 

Bom, como vê, nada mau para três semanas. Compensou grandemente as iras em que ficamos devido às Kafkianas burrocratites criadas pelo MEC para nos conceder o “afastamento do País”. Enfim deu tudo certo. Ficamos bem instalados no Restelo, na casa de Mécia. Na volta recebemos gratos presentes: fomos “promovidos” a titulares em bancas onde éramos “reles suplentes”: ele, num concurso para Professor Auxiliar de Linguística na Univ. Fed. Fluminense (em Niterói), o que o obrigou a atravessar a Baía de Guanabara umas poucas de vezes, pelo raiar do dia; e ela, numa banca de Tese de Doutorado, que proporcionou a suprema delícia de ler 600 páginas para uma argüição (sobre Vergílio Ferreira) no folgado prazo de 48 horas... Contudo, sobrevivemos.

PS – Pois é! Pode até parecer que foi viagem de turismo. Mas a parte de trabalho deixamos reservada para Reitoria da UFRJ, Departamentos, órgãos federais de apoio à pesquisa. Não iríamos incomodar gente amiga com aspectos menos alegres dessa nossa última incursão ao exterior. Nossas participações nos eventos devem ser objeto de publicação. Assim, quando vierem à luz, serão remetidas “a quem interessar possa”. Até lá o que remetemos são cordiais abraços e expressão de nosso carinho e de nossas saudades.

Sem data de abril. - Pinço algumas coisas nos arquivos eletrônicos da Gilda (pois computador é para isso mesmo): “nossa experiência americana foi excepcional mas deu-nos certeza de que, efetivamente, nosso lugar mesmo é o Brasil e nele devemos pôr em prática aquilo em que acreditamos. É o que estamos fazendo desde o regresso, trabalhando como doidos naquelas coisas que você conhece: aulas, pesquisa, orientação de teses, reuniões burocráticas, bancas examinadoras, organização de eventos, organização de publicações, participação em congressos... só isso...

29.04.94 – Procuro ir à Universidade todos os dias da semana útil, menos às sextas. Na parte da manhã “olho” para a casa, “faço” compras de supermercado e compro peixe fresquinho na feira, de um fornecedor antigo, que me chama, já há tempos, de “tio”. O dono da barraca, “seu” Antônio, deixou-a por conta do filho dele e de meu “sobrinho” (Sebastião) para repousar. Mas as saudades bateram e fiquei sabendo que ele está de barraca nova, fazendo insólita concorrência aos herdeiros. É dia em que procuro dedicar a parte da tarde para os serviços mais pesados no computador. Falando nele, estou vendo se consigo disciplina suficiente para ir deixando nele as minhas anotações que deveriam ser diárias, para alimentar correspondência, até mesmo para as pessoas mais perto, pois eu sou uma negação em matéria de dar telefonemas. (Daí esta colcha de retalhos que aqui vai)

30.04.94 – Chegamos do exterior é inevitável encontrar semanas de serviços acumulados: tarefas intransferíveis e, agora, inadiáveis. Mas chega o fim de semana e obrigação de subir à serra (Araras) para fazer os pagamentos do pessoal que nos seve lá. Salutar obrigação, diga-se, pois encontramos o nosso cantinho serrano mais bonito e acolhedor do que nunca. Da família ninguém apareceu (vontade não deve ter faltado, espero) mas o fiel Estrela assinou o ponto, com Leninha e Camilinha , entre outros. Não é o verde o que nos traz à serra, pois moramos no Rio em área bem verde, mas o ar puro, silêncio, tranquilidade, o contato mais íntimo e prolongado com o próximo mais próximo.

02.05.94 – Semana cheia de atividades previstas: originais a digitar, banca de defesa de tese para organizar, trabalhos de alunos para examinar (incluindo um “suculento e robusto” copião de tese), declaração de renda de quatro contribuintes... chega? Pois surge uma convocação... para integrar banca de concurso na UFF, em Niterói, da qual eu era membro suplente. Um dos titulares desistiu. E agora?

06.05.94 – Reflexões depois da tormenta: Em Portugal e Espanha bebia vinho no almoço e jantar, pelo menos. E comia o que me apresentavam, incluindo doces. Voltei certo de que minha taxa de glicose estava lá em cima. Nem queria fazer exame, tal a certeza. Mas Ana Luiza, a amiga e médica, e Gilda, principalmente esta, forçaram a barra. Fiz o exame e Gilda já trouxe o resultado: tudo normal. Moral da coisa é que vinho do alentejo baixa a taxa de glicose. Eis uma descoberta científica...

PS para uma observação do dia 6: Há ocasiões aqui no Rio em que eu, fazendo uso muito moderado dos alimentos que metabolizam glicose (vinhos incluídos), ainda assim apresento uma dosagem de glicose no sangue acima do desejado. Como explicar o ocorrido em relação à minha mencionada permanência em Portugal/Espanha, quando até doces andei comendo à farta? (E quem pode resistir aos doces portugueses e ainda por cima oferecido por anfitriões?) Claro está que a resposta não está nos vinhos do Alentejo, nem nos muitos outros vinhos que por lá degustei. E muito menos nos doces fartamente consumidos. Testemunha ocular do “crime” e de tudo o que aconteceu (pois foi companheira de viagem), a “amiga e médica” atribui a dosagem normal observada na volta ao espírito de férias que eu assumi. Vencida as resistências à viagem (superadas, como sempre, às vésperas), tudo a seguir foi um único e grande relaxamento. Nem mesmo a responsabilidade de fazer comunicações para grandes plateias impediu-me de assumir o tal espírito de férias... que faz retornar ao normal o nível de glicose. Paz na alma!

12.06.94 – Afastar-se do país durante o período letivo causou acumulação de tarefas e até agora temos vivido sem tempo para nada, às vezes sendo obrigados a correrias, coisas que não são de meus hábitos. A maior delas, porém, aconteceu durante os dias da semana que termina e a viagem à Europa nada teve com o caso. A causa foi a venda e compra de imóvel em Teresópolis. Irmã Mercedes tanto se empenhou que eu acabei vendendo o apartamento que tinha por lá e comprando uma casa-apartamento, que era o sonho de Irmã Mercedes. Na verdade, foi mudança bem acentuada de nível: o fino acabamento, com excelentes materiais, enche os olhos. Mas Gilda e eu, que temos aquele lindo e mais espaçoso ninho em Araras, ficamos sem motivação para Teresópolis. Eventualmente... quem sabe? Mas como a nossa casa-ninho de Araras, para honrar o rótulo, fica encarapitada na montanha, torna-se difícil acesso para os sobrinhos sem carro com motor potente. A nova morada, bem na parte urbana de Teresópolis, pode ser atingida até por ônibus. Portanto, tenho um casa de veraneio mais elegante e acessível para colocar à disposição da parentela e amigos mais chegados. E então?

15.06.94 – Estou chegando de Caxambu, do IX Encontro Nacional da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística), onde fui colaborar no Grupo de Trabalho Linguagem e Surdez com o tema O léxico como ponto de encontro. Edione Trindade de Azevedo, a primeira doutora que orientei – hoje amicíssima do casal Emmanoel/Gilda e meu braço direito nas pesquisas – colaborou na organização do texto e na apresentação no grupo de trabalho. Além disso, funcionou como linda e elegante motorista, levando-me para Caxambu no seu belo e possante carro. A viagem foi excelente na rodovia principal e perfeita na rodovia do circuito da águas, com belíssimas paisagens durante todo o percurso. Em Caxambu foi tudo muito produtivo e delicioso; os participantes do grupo demonstravam estar felizes por estarem ali uns com os outros, desenvolvendo aqueles assuntos, importantíssimos para todos os que ali estavam, ouvintes ou surdos. O Encontro vai acontecer por toda esta semana e Edione ainda lá está. Eu tinha a obrigação de voltar mais cedo, já que, após ter ficado quase um mês na Europa, em abril, tenho muitas aulas para repor. Além disso havia o quase dever de votar no segundo turno da eleição para Reitor.

16.06.94 – Gilda continua em grandes agitações na promoção do Encontro Internacional que celebrará os 50 anos de magistério superior de Cleonice Berardinelli. É uma atividade integrando a UFRJ e a PUC-RIO, mas Gilda, como sempre acontece, acaba sendo a locomotiva, ainda mais que foi a idealizadora da festa. Haverá também um livro em homenagem a Cleonice. Ela merece. E muito. Tive a honra de ser um dos eleitos para integrar a edição. Gilda ontem me deu mais tempo para escrever o trabalho e, sendo assim, vou dedicar o dia de hoje para redigir o relatório que devo apresentar à CAPES, relativo à viagem à Europa que ela me proporcionou.

17.06.94 – Marco um seminário para o dia 20, à tarde. Meus alunos, de pós-graduação, encaram-se com um jeito de surpresa e sobressalto. Alego que não havia razão para espantos, pois eu sabia que já estavam com os trabalhos prontos, faltando apenas a “arte final”. A explicação vem logo: a “Copa do Mundo”. A seleção brasileira estreia em fim de tarde (aqui) na Copa e vai ser tarde de loucura geral, o que inclui o trânsito. Como chegar (e, principalmente, sair) da Ilha do Fundão? Passo em revista material existente em uma das pastas “de Trânsito” (Casa-UFRJ-Casa) e descubro algumas cartas não terminadas (explicação natural para não terem seguido) e uma terminadinha... e logo para a nossa queridíssima Mécia. Não foi carta esquecida, foi carta perdida mesmo. Na verdade, escrevo todos os dias, ou quase, cartas mentais que não chegam ao papel. Estas ficam perdidas e esquecidas. Para a Mécia têm sido muitas, assim como continuações de conversas que tivemos lá na Califórnia. Coisas que só dizem respeito a ela e, portanto, que não cabem nestes “diários-relatórios”. Mas acho que será boa estratégia colocar neles alguns “dedos de prosa” exclusivos de Mécia e apagá-los das circulares. De dedinho em dedinho, acabarei tendo com Mécia mãos e braços de conversa. Por intermédio de Jorge Alfredo – e partindo de iniciativa minha – tomo conhecimento dos endereços de dois de meus sobrinhos norte-americanos (já tenho um bom punhado deles aí): Tatiana e Richard. A primeira continua fiel a seu cantinho da costa leste: Boston e arredores. E fico muito contente por ver que Richard realizou o seu plano de estudar o que queria onde queria. Mas, para tanto, foi preciso se deslocar para a costa oeste. Sei que deve estar se dando muito bem na Califórnia. Quando os verei de novo? Os ventos profissionais, que me prenderam tanto tempo aos EEUU em 1992-1993, agora em 1994 sopraram para a Europa e continuam a soprar. Se Gilda for a Portugal falar sobre “um rosto queridíssimo “no evento” O Rosto Feminino da Expansão Portuguesa”, irei eu falar na Itália sobre pesquisa sociolinguística que fiz aqui. Isto tudo ainda e 1994.

28.06.94 – A nossa Araras (há tantas localidades com nome de Araras no Brasil) fica no município de Petrópolis, que, como se sabe, tem raízes alemãs, principalmente da Renânia, fincadas a partir de 1845 sob a proteção dos imperadores. O primeiro “descobriu” o lugar, comprando ali terras, e o segundo fundou o povoado. Apesar dos pesares (maus prefeitos, cobiça das imobiliárias, etc.) a cidade continua linda e o plano original permanece. O desenvolvimento, porém, não a deixou marcadamente alemã, como outras cidades no sul do Brasil. Mas alguma coisa permanece. Uma delas é a Bauernfest, similar à Oktoberfest do sul do país, e que tem início hoje, confundindo-se com o clima de festa de Copa do Mundo, que prossegue enquanto a seleção brasileira, mesmo sofrendo críticas (o povo quer um futebol mais bonito), mantém as esperanças do quarto campeonato, que chamam agora de tetra. Em outros tempos, tetra seria a obtenção de quatro títulos consecutivos. Assim, o Brasil seria bicampeão (1958/1962), mas não tetra. Aqui temos uma Bauernfest regada a cerveja e no sul acontece a X Fenavinho, com ambientação italiana. É que o palco é Bento Gonçalves, fortemente italiana desde 1875 (principalmente gente de Trentino e Veneto) e capital brasileira do vinho. Houve época (1907) em que era mais fácil obter vinho do que água e, assim, uma igrejinha (a Capela das Neves) foi concluída com o uso de vinho em lugar de água, já que foi ano de grande seca. A nossa Araras não tem origens alemãs ou italianas, mas, principalmente na cozinha, sofre alguma influência. Aliás é bom esclarecer que Araras está no vale da gastronomia, onde a francesa ainda é a cozinha estrangeira mais influente. Roça chique, nossa Araras nos dá muitas opções de comida fina. Há de quase tudo por aqui, com um comércio requintado voltado para os moradores de fins de semana e feriados. Como nós (o requinte corre por conta da Gilda). A lamentar que em nossa Araras, como em quase todas por este país, não existam mais araras. Temos por aqui bandos de papagaios, periquitos, maritacas, tangarás, e muitos, muitos lindos bichinhos emplumados a voar ou a comer em nossos domínios. Mas araras não.

29.06.94 – Fiel ao meu propósito de usar minutinhos livres para ir deixando coisinhas no computador que se transformarão em “relatório”, aqui estou eu batucando nos teclados, ou melhor, “digitando”; e usando tal verbo eu estou agradando parentezinha que torce o narizinho para expressões como “bater no computador”, já que ela está totalmente convertida à micreira religião. Tenho dez minutos antes do próximo compromisso, mas não posso, antes de mais nada, deixar de falar sobre o tempo meteorológico. O inverno carioca começou com um dia perfeitamente adequado às sereias da areia da praia: muito sol e um calorzinho (pequeno mas amigo). Cair na água já seria pedir demais às valentes; isto foi coisa reservada a profissionais e surfistas. Após dias de inverno, porém, eis que o carioca passa a conviver com temperaturas raríssimas por aqui, de tão baixas. Não falo nas partes mais altas das montanhas da cidade, pois pouca gente vive por lá, mas aqui mesmo na planície, onde em lugar tradicionalmente conhecido como dos mais quentes do Rio a temperatura chegou a dez graus. É claro que nas partes mais altas da cidade, sem ser preciso chegar aos pontos de mil metros ou quase, a temperatura andou rondando o zero. Até seis graus eu documentei. Na nossa Araras (a menos de uma hora e meia do Rio e muito mais de mil metros acima do nível do mar) a geada tem castigado nossos gramados e o frio chegou a tal ponto que a transmontana (!) Fernanda jurou lá não voltar tão cedo. Para tristeza nossa, pois... quem animará nossa lareira como a Fernanda o faz? Temos, porém, fundadas esperanças de que ela não cumpra a ameaça... doce criatura que é. Vejo no jornal uma declaração do diretor de cinema Krzystof Kieslowski, justificando estar abandonando a direção, em um momento em que ele está na crista da onda: “Fazer cinema é muito monótono”. Eu jamais esperaria ouvir alguém chamar a direção cinematográfica de atividade “monótona”. Pela minha experiência fazer cinema é tudo menos isso. Um certo desencanto que eu experimentei com o cinema foi a mediação. Nas condições em que eu trabalhava, entre a concepção e o resultado final havia tanta mediação que a obra era mais resultado desta e de suas circunstâncias do que da concepção original. Com algum exagero afirmei uma vez que do roteiro original que eu preparara com extremos de minúcias (para um curta-metragem de ficção) apenas um fotograma correspondia exatamente ao planejado. Um que apresentava apenas a palavra FIM.

01.07.94 - Quando eu era garoto os pequenos cursos de água de meu bairro já apresentavam os primeiros sinais dos esgotos em que se transformariam. Mas ainda havia naquelas correntes e nelas eu me abastecia de “barrigudinhos” para povoar meus aquários. Hoje aquelas correntes foram canalizadas e correm por baixo da terra, como esgotos de fato. Certamente sem “barrigudinhos”. É um retrato 3x4 do que acontece em tamanho gigante pelo país. E pelo mundo, o que não é consolo. Consolo é ver crescer a consciência conservacionista e consequentes trabalhos para evitar o desaparecimento de espécies. De peixes, inclusive. Agora fico sabendo que peixes (todos da espécie Brycon, creio) de carne rosada estão sendo objeto de preservação, incluindo trabalho de reprodução em cativeiro: matrinchã (da Amazônia), pirapitanga (região centro-oeste), piracanjuba (região sudeste). Em menino, carioca em andanças mineiras, ouvi elogios à carne da piracanjuba daqueles de deixar a boca cheia de água: a carne, dizia o conhecedor, parece que já vem temperada com tomate. Como os restaurantes estão interessados em peixe nativo para competir com o caro salmão, é possível que a coisa possa ir rapidamente. (Quem já experimentou um desses peixes? Quando eu voltar a Minas – que saudades! - será que alguém vai me convidar para degustar um deles?)

24.07.94 – Deu n’O Globo de hoje: em pesquisa feita em sete capitais, para saber quem faz menos do que pode pode pelo Brasil, os professores foram identificados como a categoria mais esforçada. 46% acham que eles fazem o que podem e 35% que eles fazem mais do que podem. Só 19%, pois, acham que eles poderiam fazer mais pelo país, e isto os coloca em último lugar de uma lista negativa encabeçada pelos líderes empresariais (81%) e presidentes da república e funcionários públicos (68%).

25.7.94 – Enfim, a seleção (de futebol, será preciso dizer?) estreou, disputou, chegou às finais e venceu o campeonato mundial, sem convencer de fato os milhões de técnicos de futebol que existem no Brasil, saudosos de um futebol-arte, ganhador ou perdedor, e agora desapontados com o futebol feio, com preocupações defensivas, impedindo o jogo do adversário de realizar conclusões aproveitáveis (quantas defesas Tafarel fez?), realizando o que dizem ser o ideal de Zagalo: a vitória deve ser sempre de 1x0 e se o empate interessar deve ser de 0x0. Enfim, um futebol capaz de deixar os milhões de técnicos brasileiros envergonhados na frente dos estrangeiros, que sempre esperam dos brasileiros um futebol artístico, de espetáculo, enquanto vão tratando de ganhar os títulos. O tal futebol artístico deu três títulos ao Brasil, mas a fonte secou em 1970. Daí esse futebol de resultados de Parreira/Zagalo: rígido esquema de defesa e criatividade, ou seja lá o que for possível, permitida apenas para os dois atacantes fixos. Na verdade, os laterais brasileiros são atacantes, e coitado do time adversário cujo técnico não acreditar nisso. E faltou um talento superior no meio de campo. O engraçado de tudo é que especialistas estrangeiros encantam-se com este futebol 1994 do Brasil, mesmo em partidas, como a final, onde a seleção brasileiral, para grande humilhação da torcida pátria, domina e não marca. Dizem eles que o time brasileiro sempre cria oportunidades para marcar, portanto o esquema de ataque é correto; as falhas ficam por conta das finalizações erradas. De qualquer forma, um título mundial é sempre um título mundial, ainda mais quando é um tetra, deixando o futebol brasileiro em total posição de destaque, o que afaga o orgulho pátrio, não consolado por títulos mundiais em outras modalidades esportivas, como o recentemente conquistados pelas jogadoras de basquete, coisa impensável até o momento em que venceram as norte-americanas. Basquete, ainda mais feminino, não é esporte nacional no país do futebol; nem nos grandes centros urbanos é praticado em massa, ficando confinado a uma das regiões interioranas do estado de São Paulo. Só que essa região é uma das mais ricas do país (a chamada Califórnia brasileira), com recursos para pagar muitíssimo bem à estrelíssimas Hortência e Paula, duas das maiores jogadoras de todos os tempos, que assim não precisaram sair do país para ganhar os mais altos salários já pagos a mulheres nesse esporte. Mas os jogadores de futebol chegaram e foram recebidos como heróis, desfilando pelas ruas e ganhando condecorações. No dia seguinte, porém, por essas mesmas pessoas os heróis eram considerados vilões por terem tido as volumosas (e como!) bagagens liberadas na alfândega, sem os pagamentos exigidos pela lei. Culpa menos deles de que dos dirigentes da delegação, que usaram os jogadores para fazer chantagem, e de alguém em Brasília que deu a ordem para a liberação ilegal. O Procurador da República (autoridade que aciona a Justiça para que a lei seja cumprida) foi convocado, mas ele, com razão, não vê como processar alguém com base em uma ordem por telefone que quem recebeu nega, assumindo a culpa que todos sabem ser de outrem. O veteraníssimo Zagalo fica tonto, não está entendendo nada. Sempre foi assim, afirma. Mesmo quando perdíamos ninguém revistava nossa bagagem, história, sem compreender que, apesar dos pesares, alguma coisa mudou e está mudando neste país. O que no passado recente era considerada a coisa mais natural possível hoje dá toda esta onda de indignação, a começar pela do responsável maior pela Receita Federal, que se demitiu ruidosamente. Isto quer dizer que em Brasília alguém também não entendeu. Pensou que estaria agradando o povão, liberando bagagens absurdas dos que mandam no futebol e seus convidados ( e alguma coisa dos jogadores), mas o povão repeliu a ilegalidade com uma veemência que eles não esperariam mesmo. E que me lavou a alma.

26.07.94 – Fiquei aliviado com a reação popular no caso da liberação ilegal da bagagem da delegação de futebol. Há tempos se dizia que as pessoas toleravam roubalheiras porque esperavam um dia roubar também. Isto, a julgar por este caso das bagagens e pelo mais que tem acontecido, parece ter acabado. As roubalheiras vão continuar (não é coisa de brasileiro, é do ser humano) e muitas não serão punidas (isto já é mais coisa nossa), mas com a desaprovação do povo. Rouba mas faz ou slogans semelhantes não elegem ninguém atualmente, ao menos em nível nacional. Que o diga o Orestes Quércia, patinando lá atrás nas pesquisas. E é, de longe, o candidato com mais dinheiro próprio para a campanha. Será que decola, agora que o Lula começa a perder terreno para o Fernando Henrique, beneficiado pelo plano econômico que parou os preços (lá no alto) e pelo dólar oscilando de 0,88 a 0,91 de real? A classe média exulta: com um dólar abaixo do par as viagens ao exterior ficam mais em conta e caem aqui os preços dos artigos importados. Para o povão, que não viaja ao exterior nem compra importados caros, fica o descompasso entre o custo da cesta básica e o seu salário. O consolo é que seu salário não está sendo mais corroído pela inflação e sua esperança é a queda (até agora pequena e lenta) dos gêneros de primeira necessidade. A última safra agrícola foi a maior da história brasileira, mas o frio intenso (e neste ano não apenas no sul) prejudicou muito certas culturas desta estação (como os hortigranjeiros), o que é um grande estímulo para especulações. Mas o governo está inovando no apoio aos pequenos agricultores, que só obterão vantagens, e grandes, se formarem associações. Não é difícil ver o largo alcance da medida. Portanto, há perspectivas de novas marcas para a produção agrícola. Mas o preço da cesta básica descerá ao nível do salário mínimo? Subirá este para o patamar daquela? E até mesmo coisas que não são ilegais, mas condenáveis, começam a ser exigidas dos políticos pela opinião pública, com a imprensa a funcionar como gigantesca e eficiente caixa de ressonância. Veja-se o caso dos candidatos a vice-presidente que foram forçados a renunciar pela divulgação de manobras suas perfeitamente legais, mas que a opinião pública não aprova.

06.08.94 – No JB de hoje, no caderno próprio, entrevista com o escritor italiano Antônio Tabucchi, que escreveu um livro em português – Afirma Pereira – que dizem estar sendo muito vendido em Portugal. Por que motivo um italiano escreveria um livro em português? Não seria, certamente, pelo fato de estar casado com uma portuguesa. Tabucchi explica: Conheci um jornalista português nos anos 60 que publicou um artigo contra Salazar e foi obrigado a se exilar em Paris. Colaborava em jornais, vivia em pensões modestas, mas era um herói que levantou a voz. Conheci Portugal em 1965, um país triste, solitário esquecido na clausura de sua ditadura. Ninguém falava dele nem dos escritores que lutavam anonimamente pela democracia e de vez em quando passavam 15 dias na cadeia. Quando comecei a escrever não tinha a menor ideia do que ia sair. Nunca tinha me atrevido a escrever em português. Não estava na Itália nem em Portugal, estava num lugar neutro que era Paris durante a Guerra do Golfo, com as ruas vazias e as pessoas com medo de sofrer um atentado. Comecei a escrever num café e quando cheguei ao hotel à noite descobri que tinha revivido as memórias de Lisboa, e em português. Tentei traduzir para o italiano, mas virava outro livro. Então não matei o que tinha nascido naquela língua. Mas procurei a explicação. De volta à Itália, dois meses depois, me deparei com um livro de psicanálise linguística onde estava a chave numa frase: É possível esquecer numa língua e recordar noutra. Quer dizer, esqueci em italiano o que minha memória estocou em português. Então a língua é mesmo um espaço da alma, dos fragmentos da alma.

Na mesma entrevista, a respeito da reação negativa de Saramago a respeito de uma referência a Fernando Pessoa: Eu não queria falar sobre Saramago na entrevista, queria falar de mim, mas ele não se conforma porque um dia eu entrei na sua língua, com se a língua pertencesse a alguém. O que incomodou Saramago é que eu entrei na língua portuguesa, e ele é invejoso. Agora, se ele tem esse problema, eu o convido a escrever um romance em italiano. Finalmente, sobre ver os filmes baseados em obras suas: Aprendi a lição com Moravia: vou, mas com olhos de estranho. Um livro publicado já não pertence ao autor.

No mesmo caderno do JB um comentário sobre Seis passeios pelo bosque da ficção, de Umberto Eco, onde o autor, ao escrever sobre o Os Noivos, de Manzoni, sublinha as técnicas do cinema, como a câmera lenta e o zoom: Não me venham dizer que um escritor do século 19 desconhecia técnicas cinematográficas: ao contrário, os diretores de cinema é que usam técnicas da literatura de ficção.

06/07.08.94 – Fim de semana de Grande Prêmio Brasil. Há tempos eu estaria vivendo intensamente o momento. Desde a adolescência eu tinha um grande interesse em corridas de cavalo, que, por estarem em distribuição complementar, não competiam com a paixão maior: o cinema. (Naquela época ainda não estavam institucionalizadas as corridas noturnas). Meu irmão Domingos e eu usávamos com juvenil critério nossas limitadas bolsas e assim podíamos frequentar regularmente as corridas, sem danos financeiros maiores. Não apostávamos em todos os páreos; alguns eram reservados para torcida pura e simples por um animal de nossa simpatia, ou para o exclusivo prazer de ver uma animada disputa. Até porque naquela época concordávamos inteiramente com um inglês que elegeu como uma das três coisas mais bonitas deste mundo... um cavalo a pleno correr. Alguns animais, porém, ficaram em nossas lembranças não por grandes qualidades de corredores, mas pelo prazer que nos deram de ganhar quando neles confiávamos. Por exemplo: a lembrança de Araponga, em uma tarde de estreia minha como “grande vencedor”, ou da “gramática” e fidelíssima Vega. Anos em que a criação nacional engatinhava, em que o melhor cavalo podia ser um animal roncador (Goyo), e, sendo assim, uma criação sem condições de enfrentar os animais argentinos, que invariavelmente ganhavam as principais provas, mesmo com a vantagem de peso concedida aos animais aqui da terra. Mas a coisa foi mudando e os nacionais passaram a correr peso a peso com os estrangeiros... e a ganhar deles. Chegara a era Helíaco & Cia.

Foi então que Domingos e eu estabelecemos uma relação entre o cinema brasileiro e as corridas de cavalo. Nós vínhamos seguindo o lema que viera do cinema mudo – Todo filme brasileiro deve ser visto – com algum sacrifício de nossa parte, já que alguns filmes eram bem ruinzinhos. Então decidimos: já que os cavalos nacionais estão correndo peso a peso com os estrangeiros, só vamos ver os filmes brasileiros recomendados ou que prometerem alguma coisa. Entre estes estavam as chanchadas, repudiadas pela crítica, mas nas quais nós víamos com juízo até maduro demais para adolescentes, algo que se nos afigurava muito importante: era Brasil na tela e um tipo de filme que criava um público que se via na tela. A chanchada acabou com aquela bobagem de dizer que a língua portuguesa não se prestava ao cinema, pois soava artificial na tela, causando desagrado ao público. O português soava artificial porque era falado assim. Perguntávamos nós se alguém do povão da plateia sentia mal estar com o português vivo de Oscarito e Grande Otelo. (Agora, muitos anos depois, veio a nossa vingança, ao ver a chanchada ser levada a sério tanto no país como no exterior. E o termo chanchada é um dos raros que o português levou para o léxico do cinema).

O tempo passou, chegamos até a encarar profissionalmente a atividade cinematográfica, e os cavalos foram ficando mais e mais esquecidos. Chego a ter saudades de meus primeiros tempos e Porto Alegre, nos idos de 1948/1949, quando eu morava no bairro da Independência, e os fundos da casa onde eu morava (um senhor palacete!) tinha uma comunicação privativa com o hipódromo dos Moinhos de Vento. Em resumo: o hipódromo era uma extensão de meu quintal. Bons tempos em uma pacata Porto Alegre, onde, ao chegar o fim da semana, eu já tinha visto todos os filmes visíveis, todas as peças teatrais idem, e todos os concertos sem exceção. O que fazer no fim de semana? Ali ao lado, o hipódromo era uma atração irresistível.

Tanto a vida mudou para mim e principalmente para Domingos que não tem o menor sentido imaginá-lo indo hoje a um hipódromo. Quanto a mim, voltei a morar pertinho de hipódromo. Apenas uma praça me separa do hipódromo da Gávea, que é visto das minhas janelas em toda a sua extensão. Poderia acompanhar as corridas sem ir lá. Mas é claro que não acompanho as corridas daqui, nem lá vou. Andei comparecendo algumas vezes, quando amigos donos de cavalos insistiam para eu me incorporar à torcida. Já não insistem mais. Ficou o saldo de ter ido à pista para ser fotografado ao lado de animal vencedor, na companhia do nosso priminho francês Frank. Deslumbradíssimo! Em Paris nunca fora a um hipódromo e logo na estreia aqui participa de uma vitória. Mesmo com pais de classe média alta, em Paris também nunca fora a um museu, nunca andara de kart, nunca... Foi de espantar a série primeira vez que ele cumpriu aqui no Rio e vizinhanças.

Mas continuando: o resultado é que não testemunhei de perto o grande salto da criação nacional. Os cavalos brasileiros passaram a dominar as corridas daqui e a ganhar também lá fora. Eu ainda acompanhava as corridas quando Escorial e Narvik decidiram um prêmio dos grandes em Buenos Aires. Mas aquilo parecia ser uma aberração. Atualmente vai cavalo brasileiro correr lá na condição de favorito, como último grande prêmio de caráter sul-americano. E ganha sem dificuldades.

Resolvi ver no fim de semana do Grande Prêmio a corrida do quilômetro e o próprio GP. Levei um susto com os tempos. Como melhoraram! A marca da milha está em 93 segundos cravados. O quilômetro já foi corrido por nada menos do que seis animais em 55s6/10. Não me pareceu ser isto consequência da melhoria do gramado e sim da criação.

02.09.94 – Um dos famosos dias 2 do casal Gilda & Emmanoel, vivido este ainda sob os efeitos do II Encontro de Centros de Estudos Portugueses do Brasil, com a nossa Gilda à frente. O Encontro aconteceu de 29 de agosto a 01 de setembro, mas é evidente que para Gilda foi trabalho de meses. Ela trabalhou ainda com mais intensidade do que o habitual (que já não é brincadeira!), ainda mais que no dito Encontro estaria sendo prestada uma homenagem a Cleonice pelos seus 50 anos de magistério superior. Mas estou certo de que por ter sido uma realização conjunta UFRJ-PUC solicitou mais de Gilda, já que as meninas da PUC não têm o pique da minha querida, seja para planejamento ou execução. Valeu a pena, pois Cleonice viveu com evidente alegria o momento e houve um congraçamento muito bonito e útil para Gilda levar para a frente seus planos de organização: foi decidida a criação de uma Coordenação Nacional dos Centros de Estudos Portugueses do Brasil, entidade da qual Gilda será a primeira presidente. E vamos nós!. Para mim houve subprodutos nada desprezíveis, como oportunidades de iniciar ou renovar contatos. Cito – e tentado a chamá-lo não de subproduto, mas de superproduto – e não apenas por ter sido o mais prolongado, os deliciosos momentos de convivência com Helder Macedo e Susette, que nos deram oportunidade de fruir muitas de suas certamente inúmeras qualidades. Em encontros anteriores eu havia ficado encantado com eles. Desta vez, e para sempre, eu simplesmente os adorei. Gilda, que os conhecia melhor, já havia sido conquistada por eles há mais tempo. Gostoso na história é que eles nos enchem de felicidade com suas presenças e ainda insistem em agradecer nossos movimentos para tê-los perto de nós. E, já que agradecem de forma tão refinada e bonita, como não aceitar? É uma delícia total quando Gilda e eu caímos de paixão por ambos os membros de um casal. Os economistas diriam que é uma otimização de afeto. Infelizmente os casos não são numerosos, mas o número vai crescendo, como atestam os queridíssimos casais Paulo & Susan, e Fernando & Mar. Falou-se tanto que os anos 80 foram a década perdida do Brasil. Agora sai a estatística de 1991 do IBGE, mostrando que os indicadores sociais melhoraram na década, mesmo não chegando a um patamar satisfatório, ainda mais se houver comparação com os melhores avanços feitos lá fora. Na cadente questão demográfica, por exemplo, a taxa média dos nascimentos caiu para coisa de metade dos anos 50 e 60, com as projeções indicando que a população brasileira esteja crescendo a menos de 1,4%. Os índices do Sul e Sudeste já batem com os do chamado Primeiro Mundo. E aí começamos a cair novamente nos famosos contrastes brasileiros. Diz a estatística, por exemplo, que no Sul 82,5% dos domicílios tinham um cômodo para cada morador (não haveria aí mais uma das famosas ilusões estatísticas?) e que no Sul/Sudeste mais de 95% da população entre 10 e 25 anos era alfabetizada em 1991. Ou seja, a suposta década perdida deixou a década seguinte um analfabetismo apenas residual, e a questão sendo deslocada para a área da qualidade da alfabetização. No Sul/Sudeste, pois nas outras regiões o caminho será mais longo. O Ceará, sacudindo a triste tradição do governo dos coronéis, teve a sorte de receber oito anos de bons governos e apresentou espetaculares, dignos de repercussão e prêmios internacionais. Ainda assim, seus índices atuais envergonhariam um Estado do Sul/Sudeste. Dá para imaginar os índices antigos... O ex-governador Tasso Jereissati deve voltar ao governo do Ceará e assim já se pode prever que o Estado terá mais quatro anos de bom governo, agora com o apoio de um membro do partido na presidência da República, pois Fernando Henrique Cardoso deve ser o próximo presidente, com eleição quase certa no primeiro turno. Se houver um segundo, o que é improvável, arrasaria o Lula, respeitado, mas campeão de rejeição pelo eleitorado. Lula e o PT erraram feio atacando o real. Não compreenderam a importância para o povão de ter nas mãos moeda que não se derrete e, portanto, com forte poder de troca. A ideia de uma moeda de transição, a URV, criação tão perversa quanto genial, foi assimilada pelo povão porque era garantida a paridade com o dólar. Assim, os salários eram pagos, na verdade, em dólar. Agora, na era pós-URV, recebem os trabalhadores salários em real, moeda que, no jogo do mercado, acabou valendo mais do que o dólar. Portanto, não era a moeda que devia ser combatida pelo PT. Quanto a FHC, vai enfrentar os colossais problemas que conhecemos, mas a) montado em reservas cambiais de 50 bilhões de dólares; b) dizendo ao FMI que não precisa de empréstimos; c) tendo que lutar (como Itamar faz agora) não para valorizar a moeda nacional, mas para evitar a queda do dólar (já a 0,83 do real, apesar das intervenções do Banco Central); e d) tendo que tomar medidas para limitar o ingresso de dólares no país: quatro coisas impensáveis no Brasil de algum tempo atrás. Mas a inflação está entranhada em nossa cultura e perdeu apenas uma primeira batalha. A guerra continua e vamos ver como FHC a conduzirá. De qualquer forma, há muito tempo o Brasil não tem um presidente com perfil tão elevado. Pela minha experiência, recuando até Getúlio, vejo todos bem abaixo, Getúlio entre eles. Ninguém espera milagres, já que o próprio FHC não se apresentou como milagreiro. Mas há muitas esperanças. Torçamos para que não surjam novas desilusões.

17.09.94 – Estou chegando de Salvador, onde participei do I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Linguística, que estará comemorando 25 anos de existência. Como membro da antiga diretoria da ABRALIN gostei de ver o desenvolvimento do que se ajudou a semear. Minha comunicação, transformada em conferência pela ausência de previstos comunicadores, foi Linguística e Teoria do Cinema

29.09.94 – Chega ao fim um mês onde o tempo andou escasso, pois quase duas semanas foram dedicadas a congressos: um em Salvador e outro aqui por perto,em Niterói, o da Associação de Estudos da Linguagem do Rio de Janeiro, onde montei uma apresentação de alunos meus de pós-graduação na UFRJ. Foi um sucesso, pois eles superaram minhas previsões. Os textos eu conhecia e aprovara: eram muitos bons. A surpresa esteve presente na apresentação que todos fizeram de seus trabalhos. Vai seu um fim de ano animado, em termos de congressos. Gilda não foi a Salvador, nem a Niterói. Em compensação, vai a Belo Horizonte., Assis, Lisboa, Paris e Nápoles. Eu, mais modesto, tenho pela frente apenas Assis e Nápoles. Mas não me incomodarei de acompanhar Gilda em Lisboa e Paris...

05.10.94 – Hoje é o Dia Mundial do Professor. Mas, como temos a 15 o dia nacional do professor, só eu estou sabendo disso. A verdade é que teremos duas datas comemorativas e nenhuma comemoração. E os aniversários do mês? E termos de aniversários familiares outubro apresenta o do Sandro (dia 9) e o do Carlos, o Pai, no dia 25. Tenho um cartão especial para o Sandro e espero mandar algo também para o Carlos, pois estarei em congresso no dia 25.

18.10.94 – Dia do Médico! Excelente motivo para um telefonema à queridíssima... de todos nós Ana Luiza, médica da família. Explicação para os três pontinhos: queridíssima o quê? Ia escrever amiga mas me pareceu muito pouco. Como foi muito pouco o que lhe disse ao telefone. Enfim, falando ou escrevendo ficarei sempre dizendo menos dessa criaturinha que amamos sempre mais.

19.10.94 – Gilda chega correndo de Belo Horizonte, e no mesmo impulso, se manda para o campus do Fundão, pois estava quase na hora de dar aulas. Tia Fernanda sabe da coisa na hora e chama a sobrinha de louca. Que professor faria isso? Gilda seria o exemplar perfeito da professora Caxias, termo que, na vida militar, significa extrema dedicação ao serviço. O seria corre por conta de não ser pelo sentimento do dever que Gilda age assim, mas pelo amor que coloca no que faz. Creio que no Congresso de Belo Horizonte o tema seria Sá Carneiro e Gilda, mesmo falando sobre ele, falou fortemente, como de hábito, sobre Jorge de Sena. Consta que fez um enorme sucesso. Vamos ver se surgem adesões mineiras à causa. Em casa o proselitismo de Gilda vai de vento em popa. Em termos de fruição dos textos senianos a adesão de tia Fernanda é total. Em termos de mergulho nos textos, o marido Emmanoel vai, timidamente, avançando, comendo o suculento pirão pela beirada cinematográfica. A partir do momento em que, por circunstâncias, juntei Linguística e Cinema (um convite para orientar uma pesquisa na área lexical do tecnoleto cinematográfico), voltei às leituras e reflexões sobre a teoria do cinema, com um interesse redobrado (e mais municiado) após minha permanência em Santa Bárbara, junto à Universidade da Califórnia. Fiz uma apresentação no último congresso da Abralic, na USP, sobre a questão do status literário do roteiro cinematográfico, um assunto tão original na área que fui surpreendido com a presença de gente que veio especialmente para me ouvir, e quando é gente da Unicamp trata-se de uma honra. O resultado é que recebi um convite na hora para me apresentar em Assis, mas eu sugeri, por maior ligação ao tema do encontro, que eu devolvesse uma apresentação já feita, rotulada como preliminar, dos escritos de Jorge de Sena sobre cinema. O que também foi aceito na hora. Portanto, já serão pelo menos duas vozes a falar sobre Sena em Assis. Minha querida Fernanda devolve-me o livro “Falas”, de Cleonice Berardinelli, transpirando satisfação e deixando o rosto manifestar alegria, o que é raríssimo em Fernanda, que prefere exibir um caprichado rosto triste, até mesmo quando é óbvia a satisfação que lhe deve andar lá por dentro. Que fada do texto é essa Cleonice, que consegue despertar tanto entusiasmo em leitora do tipo degustadora, com material que são discursos de circunstâncias solenes em que tantos produziriam discurso pomposo e indigesto? Devolvo carinhosamente à estante o exemplar que Cleonice me deu, com dedicatória em que sou mimado uma vez mais com o título de beau-fils, explicável pela sua relação com Gilda, de quem é madrinha, uma outra mãe, portanto, de quem ficou marcada pela felicidade de ter tido quatro (as outras são Olga,Angélica e Fernanda).

19.10.94 26.10.94 -Parece que haverá mesmo algum tipo de intervenção (ou que nome tenha) do governo federal no Rio de Janeiro. Perguntam-me, em rica e tranquila cidade do interior, sem misérias aparentes, sem fatos policiais, se a situação de violência no Rio é assim mesmo como aparece na televisão. Respondo que, mesmo morando no Rio, o conhecimento que tenho da violência na cidade é o mesmo que esses interioranos têm: é o que me chega por meio da televisão e dos jornais. No bairro onde moro os morros são cobertos pela mata atlântica, não há favela à vista, nem o testemunho diário de violências fatais: o último caso aconteceu há anos, consequência de briga entre um frequentador de um bar e o segurança da casa. Mas sei que no Rio, como em toda a cidade grande, existem áreas e horários de insegurança máxima. O morador veterano conhece tudo muito bem, mas o novato e o forasteiro correm perigo. Durante quase vinte anos regressei tarde da noite da Universidade Gama Filho, na Zona Norte, bairro da Piedade, viajando em trens suburbanos, tidos como perigosos. Durante todo esse tempo só testemunhei um ato criminoso: o roubo de um relógio de pulso, tendo um aluno como ofendido (aprendi que o termo técnico é esse). E depois pegava um ônibus ligando a estação central a uma favela gigantesca (Rocinha). Pois nunca vi fato algum criminoso no ônibus, o 176, suspeitíssimo segundo muitos. O ponto do ônibus está na área da Central, reconhecidamente pesada, ainda mais à noite. Pois nada vi por lá, além dos personagens do submundo que ali vagam. Sorte? Durante quase vinte anos? O mais provável é que eu tenha transitado por uma faixa segura de tempo e espaço. Ou que a violência não esteja nem tão frequente, nem tão discriminada. Mas está, com toda a certeza, fortemente localizada. Mas até aí a situação do Rio é a de qualquer cidade grande do país ou do exterior. Qual, então, o motivo para a enorme repercussão do que acontece no Rio? Dizem muitos que se trata de uma campanha orquestrada pelas Organizações Globo contra o governador Leonel Brizola. Primeira em audiência, a TV Globo é sem dúvida uma tremenda caixa de ressonância, atingindo todo país e exterior. E não poupou esforços para sabotar Brizola. Notícias policiais sem maior importância (que não sairiam, em outros canais, além do noticiário local), se com origem no Rio eram colocadas no noticiário nacional, ou seja, eram expostas para todo país. A política deu certo, pois Brizola foi humilhado nas eleições, barbaramente derrotado, com apenas 3% de eleitores. Dizem outros que um fator auxiliar se deve a uma tentativa de São Paulo de se apresentar não apenas como o centro comercial e industrial do país, mas também como um centro turístico. Com essa ideia os paulistanos fizeram coisas de que dou apenas dois exemplos: tiraram do Rio a corrida de fórmula 1, propondo aos vorazes promotores internacionais mais do que eles exigiam do Rio, no momento em que o Rio tentava negociar as leoninas cláusulas do contrato proposto. Na conferência que a ONU consagrou com o nome de RIO-92, os meios de comunicação de São Paulo chamavam a conferência de Eco-92. Pois o Rio estava em evidência aí por muitos de seus aspectos positivos: não foi pequeno elogio ter a cidade sido escolhido pela ONU para encontro e tal importância ecológica. A cidade era louvada no mundo todo pelo seu valor ecológico, um tremendo chamariz para o turismo de hoje. Era a cidade que tinha dentro de si, não um parque, ou mesmo um bosque, mas toda uma imensa floresta, com direito a cachoeiras, tudo sob um mítico sol. O tal rótulo Eco-92 procurava esconder um pouco do sol do Rio com peneira paulistana. (PS – Em encontro recente entre candidatos “tucanos”, o candidato paulista Mário Covas, pela força do hábito, voltou a chamar o encontro de Eco-92, sendo gentilmente corrigido, “ante uma plateia visivelmente constrangida”, pelo candidato carioca Marcelo Alencar, que disse desconhecer tal encontro: o que ocorrera no Rio fora o encontro RIO-92). Por outro lado, os meios de comunicação paulistanos capricham em dar destaque a notícia sobre a violência no Rio. Um assalto a delegacia no Rio vai para a primeira página de jornal, enquanto fato criminoso exatamente igual, ocorrido em São Paulo, é escondido em notícia pequena de página interna. O resultado é que houve mesmo uma queda inicial no turismo no Rio (mas o maior beneficiado foi o Nordeste, pois, perguntaria um carioca gozador: que turismo iriam os estrangeiros fazer em São Paulo?). O caso é que o apelo do Rio é muito forte e o índice de queda do turismo foi sendo revertido, pois o processo se modificou: o número de turistas no Rio ficou às vezes até maior do que antes, só que de procedências diferentes, substituindo os norte-americanos, hoje minoria, não sei se mais por causa da anunciada violência ou da queda do dólar, principalmente entre nós, tornando mais caro o turismo deles .De qualquer forma, em momento algum o Rio deixou de ser a grande porta de entrada do turista no Brasil. Imagine-se o que não seria se aqui recebesse cuidados especiais.

Para estrangeiros (provavelmente muitos) o Rio de Janeiro quase se confunde com Brasil. Confesso que é uma impressão ligeira, tirada do contato no exterior com poucas pessoas e sem precauções metodológicas, mas com um bom número de evidências. Por exemplo: Há um massacre de 111 pessoas no Carandiru, São Paulo, enquanto estávamos morando nos EEUU. Talvez por influência da media local, nossos amigos californianos vinculam o fato ao Rio. São Paulo? O que é isso? Apenas um ou outro tinha ideia de que era uma grande cidade brasileira. (Já seria demais pedir que soubessem que era a maior do Brasil e uma das maiores do mundo). E eles eram todos de classe média alta. Mas o Rio todos conheciam. Talvez por isso a vinculação da chacina ao Rio pela media local. Para muitos outros e isto inclui também brasileiros, o Rio não será o Brasil, mas é a face do Brasil. Outros tantos poderiam dizer que o Rio é o coração do Brasil. Isto ou aquilo, é o Rio sem dúvida uma cidade muito especial para milhões e milhões de brasileiros: “a cidade maravilhosa”, de “natureza exuberante”, um cartão postal a ser exibido com orgulho. Pode estar aí parte da explicação para esse grande interesse pelo que acontece no Rio: a colocação da violência carioca em grande destaque pode bem ser a combinação da atração pela violência com um ato de interesse mais nobre, gesto de amor à cidade. Cidade, afinal, também de “gente hospitaleira”. Gente que acolheu os primeiros favelados donos desse nome, gente da Bahia. (O nome favela é alusão a um topônimo de Canudos, mas não vou alongar-me contando toda a história da primeira favela implantada no Rio). Mas é justamente desse jeito acolhedor e “deixa pra lá” do carioca que surge o que torna o problema do Rio diferente. Para dizer o que todos nós sabemos, mas com o estilo próprio e o peso da autoridade, dou a palavra a um especialista: Por motivos geográficos, históricos e sociológicos, aqui existe uma interação direta e permanente entre categorias sociais contrastantes em termos de renda, moradia e oportunidades e geral. Este convívio, que durante muitas décadas foi relativamente pacífico, com padrões de reciprocidade minimamente funcionais, tornou-se cada vez mais agressivo. Quais as causas dessa degeneração? Ao lado da crise econômica, houve uma política populista e desastrosa em termos de ocupação do espaço urbano. Essa mesma demagogia populista agravou as deficiências tradicionais da polícia e não só não evitou como chegou a estimular o confronto entre categorias sociais. As ruas foram demagogicamente entregues a camelôs, mendigos, menores desassistidos, com um código próprio que lhes garante, dizem, o direito de ficar pelas ruas. As coisas chegaram a um ponto que nem a sensibilidade embotada por tantos anos de desgovernos consegue suportar. Eis a explicação para esse movimento de parcela influente da sociedade do Rio que vai ao encontro do pedido generalizado de presença federal mais forte na cidade, finalmente obrigada a tomar consciência da situação a que foi levada pelo populismo desastrado de Brizola & Cia. Pois o grande problema é o da capital. A uma hora daqui, nas montanhas de Araras, desfrutamos do que pode oferecer uma casa com paredes de vidro (para se integrar mais à paisagem) e onde se dorme de janelas abertas.

31 10.94 – Dia de virar a página do calendário para ver quais serão os aniversariantes do próximo mês. Para quase todos os aniversariantes precisarei antecipar os parabéns, pois Gilda e eu estamos novamente de partida para a Europa. Gilda e eu vamos participar de congressos e emendar com parte de nossas férias, mas voltaremos com bastante antecedência em relação ao início do ano letivo de 1995. Assim uma vez mais reiteramos convites para uma subida à nossa casa da serra, casa que está sempre esperando parentes e amigos, com ou sem nossa presença. Quem preferir usufruí-la com maior privacidade pode aproveitar nosso longo afastamento de lá; quem preferir usá-la em nossa companhia terá de esperar nossa volta. A casa acolherá com prazer deste ou daquele modo. É bom lembrar que existe também uma casa em Teresópolis, já apresentada a todos e colocada também às ordens, mas o controle é da Irmã Mercedes (quem controla a ocupação em Araras é Tia Fernanda). Na Europa procuraremos manter contato com parentes e amigos daqui, nem que seja por meio de postais. Desde já, portanto, Santo e Feliz Natal e boas entradas de 1995, ano que muito promete!

Viagem 1992

Sobre computadores

Cartão do amigo Francisco [Caetano Lopes Junior]

Homenagem à Estelle

As três festas de despedidas

Regresso ao Brasil: os livros e a casa no voo da Varig

O voo e a alfândega no Rio

Carta a Francisco Caetano Lopes Jr.

Brasil - Economia, Inflação, vinhos

Carta à Mécia – procurando Maria Luiza

Lisboa a “Capital Cultural da Europa” e Queluz, Sintra, Mafra, Porto e o Douro. Salamanca

Nosso lugar é no Brasil

Toda 6ª feira é dia de “folga”

Fim de semana em Araras

Compromissos da semana

Vinho do Alentejo faz bem

O “espírito de férias” também

A nova casa de Teresópolis

IX Encontro Nacional da ANPOLL Caxambu

Celebração dos 50 anos de magistério superior de C. Berardinelli

Época de Copa do Mundo. Carta à

Mécia e os sobrinhos

Tatiana e Richard

Araras – município de Petrópolis Bauernfes t. Roça chique onde a comida francesa prevalece mas faltam araras

Início do inverno carioca - 10 graus! Em Araras muito, muito frio

Barrigudinhos Matrinchã Pirapitanga Piracanjuba

Pesquisa sobre quem faz mais pelo Brasil

Barrigudinhos Matrinchã Pirapitanga Piracanjuba

A reação do povo sobre a bagagem da delegação, a queda do dólar. A última safra agrícola e a renúncia de candidatos à vice-presidência

No JB entrevista com escritor italiano Antônio Tabucchi

Grande Prêmio Brasil. Hipódrom os, cavalos e a maior paixão: o cinema

II Encontro de Centros de Estudos Portugues es do Brasil. O governo nos anos 80. FHC.

I Congresso Internacio nal da ABRALIN

Setembro, mês de Congressos

Dia Mundial do Professor. Aniversári os do mês

Dia do médico, parabéns Ana Luiza!

Congresso em BH. Linguística e cinema. O livro de Cleonice

A violência no Rio. RIO- 92/Eco-92. Brizola.

Rio para os estrangeiros. Desigualdade, a 1ª favela, violência

Aniversariantes de novembro Congresso na Europa.

1992