Recortes Cotidianos

Rio, 2004

Com a família numerosa e os muitos amigos espalhados por vários cantos, Emmanoel criou o hábito de enviar cartas (num tempo anterior ao correio eletrônico) como forma possível e eficaz de manter o contato, já que o telefone nem sempre estava ao alcance de todos (antes dos celulares). 

Cartas que tanto partilhavam notícias e comentários pessoais, do cotidiano doméstico ou de registros das muitas viagens, como recortavam textos alheios, pinçados da imprensa, de livros ou de falas ouvidas aqui e ali. 

A temporada californiana de 9 meses (1992-3) adensou esse hábito e as "cartas-circulares" policopiadas e remetidas a vários destinatários passaram a ser um misto de diário, de crônica, de livro de bordo, onde a mescla de temas acaba por traçar o perfil de quem as escreve e a delinear o panorama de um tempo (muito bem) vivido. Depois, já adotado o e-mail, mantiveram o mesmo padrão.  

Nesta sequência de páginas, dos anos 90 a 2005, muitos de vocês se encontrarão mencionados ou recordarão algumas de suas próprias vivências.  

Gilda Santos

Califórnia 1992 --- Gilda escreve longa carta a uma colega de juventude. Copio trechos:

“Viagem ótima. VARIG. Do Rio a Los Angeles. De Los Angeles a Santa Bárbara (foi preciso sair do Brasil para usarmos avião brasileiro) pegamos uma aeronave Brasília, da Delta AIRLINES, que voa baixo junto à costa , e tem-se uma bela paisagem. A recepção é festiva, com ampla cobertura fotográfica a cargo de casal amigo. Ficamos no previsto cantinho de Santa Barbara, agarradinhos ao “campus”, mas preferimos um outro apto. em vez daquele cujo endereço deixei aí. Uns plátanos dourados e vermelhos, que os amplos janelões desta sala onde escrevo praticamente põem dentro de casa, foram o fator decisivo da mudança...”. “Os dias têm estado maravilhosos. Uma delícia de outono que nada tem a ver com aquela neve e tempestades que a televisão mostra em lugares aqui mesmo da Califórnia, porém mais ao norte.” “Fizemos, logo ao chegar, aproveitando o luxuoso carro de um casal amigo de passagem por aqui, um passeio por lugares mais ao norte de onde estamos: SOLVANG (cidade de colonização dinamarquesa, fato que o comércio explora às últimas, criando um ambiente dinamarquês de cenografia, mas sempre bonito), CARMEL (cidade de artistas e de galerias de arte), LOMPOC (para visitar a impressionante missão de La Puríssima), MONTEREY (só para comer os famosos pratos de peixes do “old fisherman’s wharf”).. Não escapamos à turística 17 Miles Drive (vale a pena!) e estivemos no campo de golfe (a região tem muitos) talvez mais luxuoso do mundo. Vimos a ilhota dormitório de leões marinhos e pássaros diversos. Aliás, a bicholândia aqui é muito curiosa: há esquilos que vivem nas falésias da costa e abordam os turistas para pedir comidinha. Gaivotas e corvos convivem pacificamente em nosso telhado (às vezes há um pássaro do mar procurando comida nos latões de lixo, pois já descobriram o famoso desperdício norte-americano). E há beija-flores pesquisando (flores?) nos plátanos.” “Estar aqui em época de eleição foi muito instrutivo para se penetrar melhor na mente do eleitor local.” (Aliás, aqui no condado – é isto mesmo! – de Santa Bárbara, o leitor tinha de trabalhar com seis fichas, daquelas antigas de computador, marcando nos dois lados de cada. Uma loucura! Eleições para Presidente, vice e mais uma porção de cargos, além de plebiscito sobre certas medidas administrativas ou estabelecimento de novas leis. Assuntos federais, nacionais e locais).

1993

Califórnia, 02/03/1993 --- Como não existem cartas hoje pedindo resposta (a nossa linda loirinha “correia” só nos trouxe impressos, com a VEJA registrando que o dólar está no Brasil a vinte...mil!) posso me dar ao luxo de divagar. Aí no Brasil trabalhava em PC usando o DOS, aqui estou com laptop usando o ambiente Windows. O laptop é IBM e a impressora idem. Ainda assim o vendedor IBM, entendido em computadores, não conseguiu acoplar os dois. Apelamos para a IBM, mas logo vimos que a eficiência norte-americana é para ser vista de longe, lá do Brasil. Aqui de perto foi um desastre. Cansados de não ser atendidos, apelamos para um nosso amigo, português, fazendo “computer science”, que também não resolveu, que isto de estabelecer conexão de um periférico é coisa muito aquém do interesse de quem vive nas altas esferas dos algoritmos. Quem resolveu foi um terceiro (como na canção infantil), também português e realizando estudos em área que nada tem a ver com hardwares e softwares. Ele agiu à oriental: leu o manual (os outros não haviam lido) e descobriu que havia uma conexão errada. Assim, já posso imprimir meus textos, sendo este exatamente o primeiro.

01.07.93 – Mais um cartão “massagista” (de meu ego) enviado pelo querido amigo Francisco, reiterando elogios a meus “relatórios”. Começo a admitir (admirem minha modéstia!) que os ditos são, no mínimo úteis e, assim, pretendo continuar com eles enquanto for possível.

02.07.93 - Estelle (a “tutor”) recebe homenagem do casal E&G no restaurante Skandi, cuja dona é uma sueca com porte de rainha, e que nos foi apresentado pela própria Estelle. Como presente de despedida Gilda lhe dá um bonito anel com ametista lapidada e forma de coração. Feliz como uma criança, Schneider (nome de família) exulta. Não sabe o que dizer, nem como  agradecer. Mostra o anel à garçonete (um exemplar aceitável de bonita e – principalmente – sadia camponesa da Suécia) e à “rainha”. Todos ficam felizes com a alegria de Estelle.

3, 4 e 5 de julho de 93 – O jeito comunicativo, sociável, solidário, etc. de Gilda andou marcando gente por aqui. (como moldura, o marido Emmanoel apoiou a ação da esposa-locomotiva sem atrapalhar). Um dos resultados foi a tríplice festa de despedidas: uma em português, uma em espanhol e uma em inglês. Apresentando uma espetacular feijoada, Mécia foi a promotora da primeira. Compareceram os mais ligados a mim lá na UCLA (o casal Hulet e o casal Quicoli) e mais o casal Franchetti & Susan, por lá de passagem; além dos pais de Susan e irmão. De Santa Bárbara estiveram Graciela, Mercedes, Paulo e seus pais & Inês, a filhinha, Jorge Fazenda Lourenço, David (um francês a estudar na Brooks), Márcia (da UFRJ à UCSB para receber a orientação a nível internacional de Gilda), Gilda e eu. Da casa, Mécia, Mariana e... Hamlet.

As falantes de espanhol, com Mercedes à frente, promoveram sua despedida ao casal E&G nada menos do que no Rancho Santo Isidro (da rede “Relais & Chateaux”). A classe do ambiente nem dá pistas para se saber que é o “Independence Day”. Meu prato foi soberbo. O vinho branco, o melhor que bebi até então. Ficou sendo o melhor até...

Mercedes, Graciela e Sara (a do rosto asteca sem ter sangue asteca) mais uma vez foram simpaticíssimas.

A festa de despedida “em inglês” foi na casa de Mrs. Reba Baker. Em bairro bonito, verdejante e florido (o que não é raro aqui), e em rua que atende pelo interessante nome de “Calle de los amigos” (e nome interessante e em espanhol também não é raro aqui). Rara é a Mrs Baker, apesar de ser uma velhinha americana típica de classe média bem alta. Sua casa é um encanto. O jantar foi sempre muito elegante, mas de formalismo atenuado pelas circunstâncias (mão de obra cara) da vida por aqui, e como deve ser por todos os “States”

06.07.93 – Gilda mexe os pauzinhos e consegue da Varig gratuidade para o transporte dos livros e demais material impresso. (A pobre da Varig não sabia em que estava se metendo...) Seguindo instruções da Varig fizemos um enorme volume com os livros & Cia., mas, percebendo que seria quase impossível manobrar tal caixotão, desdobramos a livralhada. Ainda assim, os filhotes ficaram pesando mais de 60 kgs. E as passagens? Suspense. A Varig informa que estão a caminho, transportadas por mensageiro especial. Chega o dito, aliás, a dita, com uniforme safári, calção e tudo. Uma versão mais escovada e menos jovem e bonita de nossa carteira habitual. Que vimos hoje novamente. Livros arrumados, Gilda passa a noite em claro arrumando a bagagem. Eu apenas cochilo. É toda uma casa, pequena embora, que precisa ser desmontada e empacotada. E Gilda reservou para isso pouco tempo. Mas o estoque de tempo reservável não era mesmo muito grande. De qualquer forma, fico (ainda!) admirado pela fortaleza de Gilda. E disso ela daria provas durante toda essa aventura que foi regressar ao Brasil com tanta bagagem. Mais de 300 quilos, principalmente livros e cópias xerox em excelente papel. Papel pesadíssimo, portanto.

07.07.93 - A volta. Parecia impossível, mas Gilda conseguiu empacotar tudo que desejava levar para o Brasil. Muita coisa ficou e foi doada a quem de direito, mas as coisinhas de estimação ficaram prontas para viajar. Começou então o drama de transportar toda a tralha. Tínhamos combinado compartilhar o utilitário com uma família de regresso a Portugal.

Haveria lugar para tudo? Ao chegarmos à casa de Mécia já estava lá o utilitário, bem menor do que imaginávamos. Bagagem atulhando todos os espaços disponíveis no interior e o restante empilhado, equilibrando-se, no teto do veículo. Chegamos em cima da hora, com o “Last minute rescue” de Gilda sempre funcionando, e era preciso então sair logo. Saímos. Como? Mais tarde a Mécia contou: com o carro adernado e a bagagem oscilando perigosamente em cima. Em dado momento, na estrada rumo a Los Angeles, um motivo de apreensão: um motorista nos acena e todos concluímos que um volume havia caído. Mas não era nada disso e ficamos sem saber a razão do aceno assustador.

No aeroporto, no balcão da Varig, um primeiro problema: os volumes com mais de 60 quilos não poderiam ser despachados. Felizmente a Varig é organizada e forneceu embalagem para o desdobramento, que a heróica Gilda fez ali mesmo no balcão, com uma tranquilidade que ela arranjou não sei onde. Um segundo problema é que nos deixou de fato intranquilos: combinação de inesperados fizeram com que o voo da Varig ficasse lotado, o que complicava a viagem de Márcia Alfama, portadora de bilhete grátis condicional, portanto, dependendo de vaga. Um pernoite em Los Angeles em hotel padrão seria despesa acima de sua caixa no momento. A alternativa, bastante desconfortável, seria permanecer toda a noite no aeroporto.

Esperávamos que o espírito de solidariedade da família Varig funcionasse e que a Márcia, muito viva, o aproveitasse. (de fato, Márcia se saiu muito bem, pernoitando em um hotel mais distante e muito mais em conta)

Eficiente em terra e no ar, a Varig, que já nos havia proporcionado uma excelente viagem de ida, nos deu uma viagem de volta no mesmo padrão. Embora longa, a viagem serviu para descansar o corpo (um tanto moído de carregar peso) e preparar o espírito para a roleta russa da Alfândega. Foram necessários três carrinhos para transportar a bagagem e assim mesmo equilibrando tudo sob a forma de estranhos e oscilantes obeliscos.

Na Alfândega, porque tínhamos muita bagagem, cedemos a vez. Só que beneficiando uma família em regresso e com bagagem muito superior à nossa. Foram premiados com um vermelho, mas, tendo tanta bagagem, a fiscal teve uma crise de preguiça e resolveu dar uma segunda oportunidade à família, pedindo que um outro membro apertasse o botão. Deu vermelho novamente. E lá se foi toda a bagagem para o recinto da Alfândega, a fim de sofrer exame. Depois de dois vermelhos acho que nem Gilda desta vez ganharia vermelho. Ainda assim, como o escalado tinha sido eu, olhei para o alto, pensei positivamente, e enchi os pulmões, mas catucando de leve: verde! A fiscal ainda olhou para nós e nossos pacotes, acho que meio desconsolada, e ainda arriscou uma pergunta: “Não estão trazendo computador?” Eu respondi: “Estou trazendo livros, a bagagem mais antipática que existe, porque pesa muito. “Mas, pensando bem, eu não respondi a pergunta que ela fez, não é verdade? Mas não menti. Longe de mim mentir...”

Como Rula nos oferecera uma “pick-up”, nós dispensamos os carros da família. Mas o pai da Gilda foi mesmo assim nos receber. Bendito Sr. Francisco, pois foi de utilidade imensa para ajudar a levantar aqueles pesos todos e colocar no utilitário.

Agora encarar a realidade carioca. Depois do verde da Alfândega, o moral ficou elevado e nós estávamos prontos para retomar o fio da vidinha agitada de sempre por aqui.

Termino com um assunto menor. Recebemos o “Statement” do Bank of America, do período 26 de agosto/24 de setembro, com um cheque (547) emitido a favor do SCE. A data do cheque é 16.09.93, o que nos deixou intrigados: estaríamos pagando conta de luz de agosto, quando já não estávamos aí? Será que nossa carta dispensando os serviços da SCE chegou ao destino? Ela foi postada aí mesmo. Imagino que Mécia esteja senhora da situação.

Um grande, um enorme, saudosíssimo abraço para Mécia. Uma mensagem de carinho para todos os dela, mesmo para aqueles que, como a Joaninha (gostosura de nome), conheci, gostei, mas pouco fruí em termos de conversa. Quando vierem ao Brasil, terei minha oportunidade. Quanto à Mariana, já estou a fazer halterofilismo, pois prometi a ela levá-la ao colo por todo o tempo que estiver por cá.

1993

Araras, 1º de Janeiro de 1994

Caríssimo Francisco:

Amor! Pax!

Vai para você minha primeira carta de 1994 e espero que Jorge seja portador, para aumentar a dose de ternura.

Como você já leu, estamos em Araras, onde chegamos há dois dias e já colocamos a casa em ordem. Agora, nesta doce calma, aparece tempo para ler, dormir e escrever para o amigo muito querido, com uma cabeça tranquila que nunca se teve lá em baixo.

O “em baixo” é o Rio, pois acredito que você sabe que Araras é serra. Nosso cantinho está aninhado nos contrafortes da Maria Comprida, pico com quase dois mil metros.

Uma surpreendente grande massa fria apareceu no sudeste e havia previsões de que ela levaria até seis dias para passar. Em Araras já chovia, com intermitência, há quase 15 dias quando chegamos. Frente fria no Rio quer dizer menos calor, mas aqui pode ser até frio mesmo, em pleno verão. Portanto, daqui a pouco é possível que eu acenda a lareira para alegrar a tia Fernanda, uma transmontana que consegue sentir frio até “lá em baixo”.

No momento acontece o crepúsculo e Gilda e eu estamos recolhidos na suíte do casal. Ela, acomodada na cama, lê e escreve sobre Jorge de Sena. Eu escrevo esta, recuperando de um almoço com lombinho e vinho Dão (seguido de puxada caminhada de hora e meia), por um banho demorado e sesta mais ainda.

Lá fora o gramado “pavoneia” o seu verde, com pouca luz, enquanto, no céu, as nuvens cinzas não falam de sol (esperanças de Fernanda) para o dia de amanhã, domingo (Aliás, já volta a chover)

Até agora sob “pressão” de Dona Gilda, meu trabalho maior foi “passar em revista pacotes de jornais antigos que formavam uma grande pilha. É curioso ver o efeito de tantas e tão diversas notícias passando em alta velocidade à minha frente. Fatos que fizeram sensação e hoje estão escondidos em algum canto da memória, se é que não foram esquecidos de vez por todos. Coisas que tiveram muita vida e hoje estão mortas mas também há coisas importantes a que não se deu importância, nem outrora, nem agora. E coisas cuja importância, facilmente agora começa a se levar em conta. Por exemplo, eu que nunca aceitei essa ideia de menino “de rua” vejo agora que já se começa a pensar que rua não é lugar de menino, por mais que teimem as leis (recentes) em dizer o contrário. Não se pode permitir a uma criança a diversão de viver na rua. Enquanto isso, só no complexo de Quintino dizem haver 300 vagas e 16 ocupantes.

Na televisão, notícias da passagem de ano e da multidão, no Rio, à beira-mar. Só em Copacabana (ponto tradicional) foram mais da dois milhões de pessoas. Eu já lá estive, com amigos franceses (doidos para ver tudo).e sei o que é. A chuva deu uma parada para facilitar a festa, mas já volta a chover em todo o país, incluindo a região de secas no nordeste. Foi comovente ver um homem, após a primeira chuva em anos, correr a deitar as sementes ao solo.

Gilda envia “coisinhas” para você e nossa amada Maria Luiza. Vale o carinho que ela coloca nas “coisinhas”, por ela e por mim.

Abraços /Saudades

Emmanoel.

Rio de Janeiro, verão de 1994 --- Sexta-feira, 21 de janeiro:

Os jornais publicam os resultados anuais do comércio exterior do Brasil. Como o país está em crise econômica, os resultados devem ser, no mínimo, pífios. Mas não é o caso: o movimento foi melhor do que nunca. Exportou-se como jamais se havia exportado, principalmente produtos industrializados (75% do total), enfrentando furiosa concorrência para venda a um mundo também em crise econômica. A pauta é incrivelmente diversificada. Detenho-me no item “vinho”, que cresceu 96,6%. Ao lado de itens medidos em bilhões de dólares (nunca imaginara que “calçados” estivesse nesses níveis!), os milhões de dólares obtidos com vinho soam muito modestos. E permitem o forte crescimento. Sei que há excelentes vinhos brasileiros: guardo alguns, raros e caros, com carinho. Mas já há produção apresentável ao mercado externo em condições de render milhões de dólares em exportação?

Assim sendo, montado em montanha de 32 bilhões de dólares – de olho no acordo da famosa dívida externa, os bancos credores dizem que é mais – o governo controla a maior reserva cambial que por aqui já se montou, o que lhe permite manter o dólar paralelo mais barato do que o dólar comercial. Como os rendimentos financeiros estão remunerando bem e a Bolsa sobe a jato, os dólares retornam ou ingressam: somos o paraíso do dia dos investidores. Resultado perverso: mais inflação, ou seja, continuamos a ser o inferno dos assalariados. Purgatório para a classe média, que se tornou também investidora à força e ganha alguma coisa por aí. Mas não é estranho vermos as pessoas livrando-se de dólares como de uma batata quente nas mãos? E isto com uma inflação de 40%? É o “milagre” da indexação, essa descoberta brasileira. Que importa o índice da inflação, se, com a triste exceção do dólar, qualquer investimento remunera acima da inflação?

São os paradoxos do Brasil: inflação causando crise, deterioração de salários e a economia, como um todo, crescendo e remunerando bem quem investe nela. Como acabar com a inflação, que pune os mais carentes, se há tantos ganhando com ela? Mas parece sério o esforço do atual governo, neste momento. Terá apoio no Congresso e na sociedade? Como se, por linhas tortas, o Brasil vem apresentando crescentes saldos positivos de comércio e de capital?

Rio, últimos dias do verão de 1994.

Nesta vidinha trabalhosa, usei pedacinhos de tempo para ir montando “relatórios” com vistas ao Francisco, pinçando notícias que poderiam ser de seu interesse. Mas dadas as conhecidas e tristes circunstâncias, que notícias interessariam ao Francisco? As duas últimas laudas foram compostas com notícias amenas ou neutras, sem problemas maiores: a ideia era mesmo divertir um pouco, se possível, nosso querido amigo. Gilda já havia escrito a sobrecarta e eu já me preparava para ir ao correio quando chegou aviso de que seria melhor não remeter: “o estado de Francisco está em um ponto crítico e ele já não lê, nem reconhece as pessoas”. Suspendi a remessa – é claro! - e pouco depois tudo era confirmado, com a notícia do passamento. Dias depois vejo a sobrecarta com a letra de Gilda e escrevo, de impulso, uma linhas para Maria Luiza... não para falar de minha dor e de Gilda, precisando ainda de uma válvula de escape, mas para de algum modo estar presente perto dela falar de nossa disponibilidade e tentar não perder contato com uma pessoa que tanto nos impressionou. Teria a carta chegado até ela? O certo é que estamos sem notícias da Maria Luiza que tão de imediato nos conquistou. Saber onde ela está, como ela está, o que ela quer, etc., tornou-se assunto de nosso maior interesse. Devemos muito a ela. Nossa ida a Stanford para ver o Francisco foi uma jornada cheia de apreensões: o que diríamos, o que faríamos, sobre o que conversaríamos, como estaria ele, tudo isso eram interrogações. Mal lá chegamos toda a nossa angústia sumiu de repente ao primeiro contato com Maria Luiza, vendo a maneira, ao mesmo tempo extremamente hábil e extremamente generosa, como ela administrava a delicada situação. Saímos de Stanford com uma sensação de grande alívio: o caminho de Francisco podia estar no fim e não ter volta, mas seria o percurso suavizado por uma bela, doce presença de mulher... Portanto, Mécia querida, se tiver notícias de Maria Luiza favor nos dizer. Quanto ao mais, a carga de trabalho que temos enfrentado consegue ser bem maior do que a habitual, que já é grande. Mas é o trabalho que desejamos mesmo fazer e nos apoiamos um no outro.

Abraços, votos de felicidades, beijinhos muitos e saudades.

Rio, outono de 1994

Tudo de bom para todos!

Pois é, foi bom rever Portugal na primavera, com dias lindos de sol e um friozinho acima do esperado. Lisboa estava toda prosa com a programação da “Capital Cultural da Europa”, de que acabamos pegando uns fiapos: um concerto naquele desconcertante-por-fora-e-deslumbrante-por-dentro Centro Cultural de Belém; três peças de teatro: “Clamor” (com uma encenação estupenda, imperdível [vem ao Brasil]), “Maldita Cocaína” (uma revivescência hollywoodiana das revistas portuguesas) e “As Guerras do Alecrim e da Mangerona”(montagem muito criativa da Comuna); algumas exposições: o Neomanuelino no Palácio da Ajuda, Oratórios mineiros em São Roque, e peças autênticas de um retabulista português do tempo de Fra Angélico (cujo nome esqueci) na Torre do Tombo, e outras com menos brilho; e um lançamento de livro sui-generis: a edição crítica dos autos do Chiado, feita por D. Cleonice e Ronaldo Menegaz, foi apresentada ao público junto à estátua do Chiado, em frente À Brasileira, com direito a uma improvisação muito criativa de um grupo de atores, seguida de “petiscos e beberetes” oferecidos generosamente pela própria À Brasileira. Inesquecível. (Vai-se publicar o texto que D. Cleo leu na ocasião no próximo nº da revista do Real Gabinete). Revisitamos ainda Queluz, Sintra, Mafra, o Porto (onde vimos uma excelente exposição sobre O Infante na Fundação Eng. Antônio de Almeida), e o Douro, num passeio ferroviário até à Régua. E ficamos a conhecer bem (pois só conhecíamos de passagem) Setúbal e sua região, onde fomos levados por Margarida Braga Neves, que mora lá e conhece todas as “dicas”. Sem que estivesse em nossos planos, fomos conhecer também Salamanca, pois recebemos convite irrecusável do Leitor de Português que lá está, e que, além de ser um encanto de pessoa, escolheu Jorge de Sena para tema de sua tese de Mestrado...Portanto, conhecemos Salamanca “por dentro”, na hora certa, com a pessoa certa... e lá deixamos nosso coração, com vontade grande de voltar, para, quem sabe, encontrar o Lazarillo... 

Bom, como vê, nada mau para três semanas. Compensou grandemente as iras em que ficamos devido às Kafkianas burrocratites criadas pelo MEC para nos conceder o “afastamento do País”. Enfim deu tudo certo. Ficamos bem instalados no Restelo, na casa de Mécia. Na volta recebemos gratos presentes: fomos “promovidos” a titulares em bancas onde éramos “reles suplentes”: ele, num concurso para Professor Auxiliar de Linguística na Univ. Fed. Fluminense (em Niterói), o que o obrigou a atravessar a Baía de Guanabara umas poucas de vezes, pelo raiar do dia; e ela, numa banca de Tese de Doutorado, que proporcionou a suprema delícia de ler 600 páginas para uma argüição (sobre Vergílio Ferreira) no folgado prazo de 48 horas... Contudo, sobrevivemos.

PS – Pois é! Pode até parecer que foi viagem de turismo. Mas a parte de trabalho deixamos reservada para Reitoria da UFRJ, Departamentos, órgãos federais de apoio à pesquisa. Não iríamos incomodar gente amiga com aspectos menos alegres dessa nossa última incursão ao exterior. Nossas participações nos eventos devem ser objeto de publicação. Assim, quando vierem à luz, serão remetidas “a quem interessar possa”. Até lá o que remetemos são cordiais abraços e expressão de nosso carinho e de nossas saudades.

Sem data de abril. - Pinço algumas coisas nos arquivos eletrônicos da Gilda (pois computador é para isso mesmo): “nossa experiência americana foi excepcional mas deu-nos certeza de que, efetivamente, nosso lugar mesmo é o Brasil e nele devemos pôr em prática aquilo em que acreditamos. É o que estamos fazendo desde o regresso, trabalhando como doidos naquelas coisas que você conhece: aulas, pesquisa, orientação de teses, reuniões burocráticas, bancas examinadoras, organização de eventos, organização de publicações, participação em congressos... só isso...

29.04.94 – Procuro ir à Universidade todos os dias da semana útil, menos às sextas. Na parte da manhã “olho” para a casa, “faço” compras de supermercado e compro peixe fresquinho na feira, de um fornecedor antigo, que me chama, já há tempos, de “tio”. O dono da barraca, “seu” Antônio, deixou-a por conta do filho dele e de meu “sobrinho” (Sebastião) para repousar. Mas as saudades bateram e fiquei sabendo que ele está de barraca nova, fazendo insólita concorrência aos herdeiros. É dia em que procuro dedicar a parte da tarde para os serviços mais pesados no computador. Falando nele, estou vendo se consigo disciplina suficiente para ir deixando nele as minhas anotações que deveriam ser diárias, para alimentar correspondência, até mesmo para as pessoas mais perto, pois eu sou uma negação em matéria de dar telefonemas. (Daí esta colcha de retalhos que aqui vai)

30.04.94 – Chegamos do exterior é inevitável encontrar semanas de serviços acumulados: tarefas intransferíveis e, agora, inadiáveis. Mas chega o fim de semana e obrigação de subir à serra (Araras) para fazer os pagamentos do pessoal que nos seve lá. Salutar obrigação, diga-se, pois encontramos o nosso cantinho serrano mais bonito e acolhedor do que nunca. Da família ninguém apareceu (vontade não deve ter faltado, espero) mas o fiel Estrela assinou o ponto, com Leninha e Camilinha , entre outros. Não é o verde o que nos traz à serra, pois moramos no Rio em área bem verde, mas o ar puro, silêncio, tranquilidade, o contato mais íntimo e prolongado com o próximo mais próximo.

02.05.94 – Semana cheia de atividades previstas: originais a digitar, banca de defesa de tese para organizar, trabalhos de alunos para examinar (incluindo um “suculento e robusto” copião de tese), declaração de renda de quatro contribuintes... chega? Pois surge uma convocação... para integrar banca de concurso na UFF, em Niterói, da qual eu era membro suplente. Um dos titulares desistiu. E agora?

06.05.94 – Reflexões depois da tormenta: Em Portugal e Espanha bebia vinho no almoço e jantar, pelo menos. E comia o que me apresentavam, incluindo doces. Voltei certo de que minha taxa de glicose estava lá em cima. Nem queria fazer exame, tal a certeza. Mas Ana Luiza, a amiga e médica, e Gilda, principalmente esta, forçaram a barra. Fiz o exame e Gilda já trouxe o resultado: tudo normal. Moral da coisa é que vinho do alentejo baixa a taxa de glicose. Eis uma descoberta científica...

PS para uma observação do dia 6: Há ocasiões aqui no Rio em que eu, fazendo uso muito moderado dos alimentos que metabolizam glicose (vinhos incluídos), ainda assim apresento uma dosagem de glicose no sangue acima do desejado. Como explicar o ocorrido em relação à minha mencionada permanência em Portugal/Espanha, quando até doces andei comendo à farta? (E quem pode resistir aos doces portugueses e ainda por cima oferecido por anfitriões?) Claro está que a resposta não está nos vinhos do Alentejo, nem nos muitos outros vinhos que por lá degustei. E muito menos nos doces fartamente consumidos. Testemunha ocular do “crime” e de tudo o que aconteceu (pois foi companheira de viagem), a “amiga e médica” atribui a dosagem normal observada na volta ao espírito de férias que eu assumi. Vencida as resistências à viagem (superadas, como sempre, às vésperas), tudo a seguir foi um único e grande relaxamento. Nem mesmo a responsabilidade de fazer comunicações para grandes plateias impediu-me de assumir o tal espírito de férias... que faz retornar ao normal o nível de glicose. Paz na alma!

12.06.94 – Afastar-se do país durante o período letivo causou acumulação de tarefas e até agora temos vivido sem tempo para nada, às vezes sendo obrigados a correrias, coisas que não são de meus hábitos. A maior delas, porém, aconteceu durante os dias da semana que termina e a viagem à Europa nada teve com o caso. A causa foi a venda e compra de imóvel em Teresópolis. Irmã Mercedes tanto se empenhou que eu acabei vendendo o apartamento que tinha por lá e comprando uma casa-apartamento, que era o sonho de Irmã Mercedes. Na verdade, foi mudança bem acentuada de nível: o fino acabamento, com excelentes materiais, enche os olhos. Mas Gilda e eu, que temos aquele lindo e mais espaçoso ninho em Araras, ficamos sem motivação para Teresópolis. Eventualmente... quem sabe? Mas como a nossa casa-ninho de Araras, para honrar o rótulo, fica encarapitada na montanha, torna-se difícil acesso para os sobrinhos sem carro com motor potente. A nova morada, bem na parte urbana de Teresópolis, pode ser atingida até por ônibus. Portanto, tenho um casa de veraneio mais elegante e acessível para colocar à disposição da parentela e amigos mais chegados. E então?

15.06.94 – Estou chegando de Caxambu, do IX Encontro Nacional da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística), onde fui colaborar no Grupo de Trabalho Linguagem e Surdez com o tema O léxico como ponto de encontro. Edione Trindade de Azevedo, a primeira doutora que orientei – hoje amicíssima do casal Emmanoel/Gilda e meu braço direito nas pesquisas – colaborou na organização do texto e na apresentação no grupo de trabalho. Além disso, funcionou como linda e elegante motorista, levando-me para Caxambu no seu belo e possante carro. A viagem foi excelente na rodovia principal e perfeita na rodovia do circuito da águas, com belíssimas paisagens durante todo o percurso. Em Caxambu foi tudo muito produtivo e delicioso; os participantes do grupo demonstravam estar felizes por estarem ali uns com os outros, desenvolvendo aqueles assuntos, importantíssimos para todos os que ali estavam, ouvintes ou surdos. O Encontro vai acontecer por toda esta semana e Edione ainda lá está. Eu tinha a obrigação de voltar mais cedo, já que, após ter ficado quase um mês na Europa, em abril, tenho muitas aulas para repor. Além disso havia o quase dever de votar no segundo turno da eleição para Reitor.

16.06.94 – Gilda continua em grandes agitações na promoção do Encontro Internacional que celebrará os 50 anos de magistério superior de Cleonice Berardinelli. É uma atividade integrando a UFRJ e a PUC-RIO, mas Gilda, como sempre acontece, acaba sendo a locomotiva, ainda mais que foi a idealizadora da festa. Haverá também um livro em homenagem a Cleonice. Ela merece. E muito. Tive a honra de ser um dos eleitos para integrar a edição. Gilda ontem me deu mais tempo para escrever o trabalho e, sendo assim, vou dedicar o dia de hoje para redigir o relatório que devo apresentar à CAPES, relativo à viagem à Europa que ela me proporcionou.

17.06.94 – Marco um seminário para o dia 20, à tarde. Meus alunos, de pós-graduação, encaram-se com um jeito de surpresa e sobressalto. Alego que não havia razão para espantos, pois eu sabia que já estavam com os trabalhos prontos, faltando apenas a “arte final”. A explicação vem logo: a “Copa do Mundo”. A seleção brasileira estreia em fim de tarde (aqui) na Copa e vai ser tarde de loucura geral, o que inclui o trânsito. Como chegar (e, principalmente, sair) da Ilha do Fundão? Passo em revista material existente em uma das pastas “de Trânsito” (Casa-UFRJ-Casa) e descubro algumas cartas não terminadas (explicação natural para não terem seguido) e uma terminadinha... e logo para a nossa queridíssima Mécia. Não foi carta esquecida, foi carta perdida mesmo. Na verdade, escrevo todos os dias, ou quase, cartas mentais que não chegam ao papel. Estas ficam perdidas e esquecidas. Para a Mécia têm sido muitas, assim como continuações de conversas que tivemos lá na Califórnia. Coisas que só dizem respeito a ela e, portanto, que não cabem nestes “diários-relatórios”. Mas acho que será boa estratégia colocar neles alguns “dedos de prosa” exclusivos de Mécia e apagá-los das circulares. De dedinho em dedinho, acabarei tendo com Mécia mãos e braços de conversa. Por intermédio de Jorge Alfredo – e partindo de iniciativa minha – tomo conhecimento dos endereços de dois de meus sobrinhos norte-americanos (já tenho um bom punhado deles aí): Tatiana e Richard. A primeira continua fiel a seu cantinho da costa leste: Boston e arredores. E fico muito contente por ver que Richard realizou o seu plano de estudar o que queria onde queria. Mas, para tanto, foi preciso se deslocar para a costa oeste. Sei que deve estar se dando muito bem na Califórnia. Quando os verei de novo? Os ventos profissionais, que me prenderam tanto tempo aos EEUU em 1992-1993, agora em 1994 sopraram para a Europa e continuam a soprar. Se Gilda for a Portugal falar sobre “um rosto queridíssimo “no evento” O Rosto Feminino da Expansão Portuguesa”, irei eu falar na Itália sobre pesquisa sociolinguística que fiz aqui. Isto tudo ainda e 1994.

28.06.94 – A nossa Araras (há tantas localidades com nome de Araras no Brasil) fica no município de Petrópolis, que, como se sabe, tem raízes alemãs, principalmente da Renânia, fincadas a partir de 1845 sob a proteção dos imperadores. O primeiro “descobriu” o lugar, comprando ali terras, e o segundo fundou o povoado. Apesar dos pesares (maus prefeitos, cobiça das imobiliárias, etc.) a cidade continua linda e o plano original permanece. O desenvolvimento, porém, não a deixou marcadamente alemã, como outras cidades no sul do Brasil. Mas alguma coisa permanece. Uma delas é a Bauernfest, similar à Oktoberfest do sul do país, e que tem início hoje, confundindo-se com o clima de festa de Copa do Mundo, que prossegue enquanto a seleção brasileira, mesmo sofrendo críticas (o povo quer um futebol mais bonito), mantém as esperanças do quarto campeonato, que chamam agora de tetra. Em outros tempos, tetra seria a obtenção de quatro títulos consecutivos. Assim, o Brasil seria bicampeão (1958/1962), mas não tetra. Aqui temos uma Bauernfest regada a cerveja e no sul acontece a X Fenavinho, com ambientação italiana. É que o palco é Bento Gonçalves, fortemente italiana desde 1875 (principalmente gente de Trentino e Veneto) e capital brasileira do vinho. Houve época (1907) em que era mais fácil obter vinho do que água e, assim, uma igrejinha (a Capela das Neves) foi concluída com o uso de vinho em lugar de água, já que foi ano de grande seca. A nossa Araras não tem origens alemãs ou italianas, mas, principalmente na cozinha, sofre alguma influência. Aliás é bom esclarecer que Araras está no vale da gastronomia, onde a francesa ainda é a cozinha estrangeira mais influente. Roça chique, nossa Araras nos dá muitas opções de comida fina. Há de quase tudo por aqui, com um comércio requintado voltado para os moradores de fins de semana e feriados. Como nós (o requinte corre por conta da Gilda). A lamentar que em nossa Araras, como em quase todas por este país, não existam mais araras. Temos por aqui bandos de papagaios, periquitos, maritacas, tangarás, e muitos, muitos lindos bichinhos emplumados a voar ou a comer em nossos domínios. Mas araras não.

29.06.94 – Fiel ao meu propósito de usar minutinhos livres para ir deixando coisinhas no computador que se transformarão em “relatório”, aqui estou eu batucando nos teclados, ou melhor, “digitando”; e usando tal verbo eu estou agradando parentezinha que torce o narizinho para expressões como “bater no computador”, já que ela está totalmente convertida à micreira religião. Tenho dez minutos antes do próximo compromisso, mas não posso, antes de mais nada, deixar de falar sobre o tempo meteorológico. O inverno carioca começou com um dia perfeitamente adequado às sereias da areia da praia: muito sol e um calorzinho (pequeno mas amigo). Cair na água já seria pedir demais às valentes; isto foi coisa reservada a profissionais e surfistas. Após dias de inverno, porém, eis que o carioca passa a conviver com temperaturas raríssimas por aqui, de tão baixas. Não falo nas partes mais altas das montanhas da cidade, pois pouca gente vive por lá, mas aqui mesmo na planície, onde em lugar tradicionalmente conhecido como dos mais quentes do Rio a temperatura chegou a dez graus. É claro que nas partes mais altas da cidade, sem ser preciso chegar aos pontos de mil metros ou quase, a temperatura andou rondando o zero. Até seis graus eu documentei. Na nossa Araras (a menos de uma hora e meia do Rio e muito mais de mil metros acima do nível do mar) a geada tem castigado nossos gramados e o frio chegou a tal ponto que a transmontana (!) Fernanda jurou lá não voltar tão cedo. Para tristeza nossa, pois... quem animará nossa lareira como a Fernanda o faz? Temos, porém, fundadas esperanças de que ela não cumpra a ameaça... doce criatura que é. Vejo no jornal uma declaração do diretor de cinema Krzystof Kieslowski, justificando estar abandonando a direção, em um momento em que ele está na crista da onda: “Fazer cinema é muito monótono”. Eu jamais esperaria ouvir alguém chamar a direção cinematográfica de atividade “monótona”. Pela minha experiência fazer cinema é tudo menos isso. Um certo desencanto que eu experimentei com o cinema foi a mediação. Nas condições em que eu trabalhava, entre a concepção e o resultado final havia tanta mediação que a obra era mais resultado desta e de suas circunstâncias do que da concepção original. Com algum exagero afirmei uma vez que do roteiro original que eu preparara com extremos de minúcias (para um curta-metragem de ficção) apenas um fotograma correspondia exatamente ao planejado. Um que apresentava apenas a palavra FIM.

01.07.94 - Quando eu era garoto os pequenos cursos de água de meu bairro já apresentavam os primeiros sinais dos esgotos em que se transformariam. Mas ainda havia naquelas correntes e nelas eu me abastecia de “barrigudinhos” para povoar meus aquários. Hoje aquelas correntes foram canalizadas e correm por baixo da terra, como esgotos de fato. Certamente sem “barrigudinhos”. É um retrato 3x4 do que acontece em tamanho gigante pelo país. E pelo mundo, o que não é consolo. Consolo é ver crescer a consciência conservacionista e consequentes trabalhos para evitar o desaparecimento de espécies. De peixes, inclusive. Agora fico sabendo que peixes (todos da espécie Brycon, creio) de carne rosada estão sendo objeto de preservação, incluindo trabalho de reprodução em cativeiro: matrinchã (da Amazônia), pirapitanga (região centro-oeste), piracanjuba (região sudeste). Em menino, carioca em andanças mineiras, ouvi elogios à carne da piracanjuba daqueles de deixar a boca cheia de água: a carne, dizia o conhecedor, parece que já vem temperada com tomate. Como os restaurantes estão interessados em peixe nativo para competir com o caro salmão, é possível que a coisa possa ir rapidamente. (Quem já experimentou um desses peixes? Quando eu voltar a Minas – que saudades! - será que alguém vai me convidar para degustar um deles?)

24.07.94 – Deu n’O Globo de hoje: em pesquisa feita em sete capitais, para saber quem faz menos do que pode pode pelo Brasil, os professores foram identificados como a categoria mais esforçada. 46% acham que eles fazem o que podem e 35% que eles fazem mais do que podem. Só 19%, pois, acham que eles poderiam fazer mais pelo país, e isto os coloca em último lugar de uma lista negativa encabeçada pelos líderes empresariais (81%) e presidentes da república e funcionários públicos (68%).

25.7.94 – Enfim, a seleção (de futebol, será preciso dizer?) estreou, disputou, chegou às finais e venceu o campeonato mundial, sem convencer de fato os milhões de técnicos de futebol que existem no Brasil, saudosos de um futebol-arte, ganhador ou perdedor, e agora desapontados com o futebol feio, com preocupações defensivas, impedindo o jogo do adversário de realizar conclusões aproveitáveis (quantas defesas Tafarel fez?), realizando o que dizem ser o ideal de Zagalo: a vitória deve ser sempre de 1x0 e se o empate interessar deve ser de 0x0. Enfim, um futebol capaz de deixar os milhões de técnicos brasileiros envergonhados na frente dos estrangeiros, que sempre esperam dos brasileiros um futebol artístico, de espetáculo, enquanto vão tratando de ganhar os títulos. O tal futebol artístico deu três títulos ao Brasil, mas a fonte secou em 1970. Daí esse futebol de resultados de Parreira/Zagalo: rígido esquema de defesa e criatividade, ou seja lá o que for possível, permitida apenas para os dois atacantes fixos. Na verdade, os laterais brasileiros são atacantes, e coitado do time adversário cujo técnico não acreditar nisso. E faltou um talento superior no meio de campo. O engraçado de tudo é que especialistas estrangeiros encantam-se com este futebol 1994 do Brasil, mesmo em partidas, como a final, onde a seleção brasileiral, para grande humilhação da torcida pátria, domina e não marca. Dizem eles que o time brasileiro sempre cria oportunidades para marcar, portanto o esquema de ataque é correto; as falhas ficam por conta das finalizações erradas. De qualquer forma, um título mundial é sempre um título mundial, ainda mais quando é um tetra, deixando o futebol brasileiro em total posição de destaque, o que afaga o orgulho pátrio, não consolado por títulos mundiais em outras modalidades esportivas, como o recentemente conquistados pelas jogadoras de basquete, coisa impensável até o momento em que venceram as norte-americanas. Basquete, ainda mais feminino, não é esporte nacional no país do futebol; nem nos grandes centros urbanos é praticado em massa, ficando confinado a uma das regiões interioranas do estado de São Paulo. Só que essa região é uma das mais ricas do país (a chamada Califórnia brasileira), com recursos para pagar muitíssimo bem à estrelíssimas Hortência e Paula, duas das maiores jogadoras de todos os tempos, que assim não precisaram sair do país para ganhar os mais altos salários já pagos a mulheres nesse esporte. Mas os jogadores de futebol chegaram e foram recebidos como heróis, desfilando pelas ruas e ganhando condecorações. No dia seguinte, porém, por essas mesmas pessoas os heróis eram considerados vilões por terem tido as volumosas (e como!) bagagens liberadas na alfândega, sem os pagamentos exigidos pela lei. Culpa menos deles de que dos dirigentes da delegação, que usaram os jogadores para fazer chantagem, e de alguém em Brasília que deu a ordem para a liberação ilegal. O Procurador da República (autoridade que aciona a Justiça para que a lei seja cumprida) foi convocado, mas ele, com razão, não vê como processar alguém com base em uma ordem por telefone que quem recebeu nega, assumindo a culpa que todos sabem ser de outrem. O veteraníssimo Zagalo fica tonto, não está entendendo nada. Sempre foi assim, afirma. Mesmo quando perdíamos ninguém revistava nossa bagagem, história, sem compreender que, apesar dos pesares, alguma coisa mudou e está mudando neste país. O que no passado recente era considerada a coisa mais natural possível hoje dá toda esta onda de indignação, a começar pela do responsável maior pela Receita Federal, que se demitiu ruidosamente. Isto quer dizer que em Brasília alguém também não entendeu. Pensou que estaria agradando o povão, liberando bagagens absurdas dos que mandam no futebol e seus convidados ( e alguma coisa dos jogadores), mas o povão repeliu a ilegalidade com uma veemência que eles não esperariam mesmo. E que me lavou a alma.

26.07.94 – Fiquei aliviado com a reação popular no caso da liberação ilegal da bagagem da delegação de futebol. Há tempos se dizia que as pessoas toleravam roubalheiras porque esperavam um dia roubar também. Isto, a julgar por este caso das bagagens e pelo mais que tem acontecido, parece ter acabado. As roubalheiras vão continuar (não é coisa de brasileiro, é do ser humano) e muitas não serão punidas (isto já é mais coisa nossa), mas com a desaprovação do povo. Rouba mas faz ou slogans semelhantes não elegem ninguém atualmente, ao menos em nível nacional. Que o diga o Orestes Quércia, patinando lá atrás nas pesquisas. E é, de longe, o candidato com mais dinheiro próprio para a campanha. Será que decola, agora que o Lula começa a perder terreno para o Fernando Henrique, beneficiado pelo plano econômico que parou os preços (lá no alto) e pelo dólar oscilando de 0,88 a 0,91 de real? A classe média exulta: com um dólar abaixo do par as viagens ao exterior ficam mais em conta e caem aqui os preços dos artigos importados. Para o povão, que não viaja ao exterior nem compra importados caros, fica o descompasso entre o custo da cesta básica e o seu salário. O consolo é que seu salário não está sendo mais corroído pela inflação e sua esperança é a queda (até agora pequena e lenta) dos gêneros de primeira necessidade. A última safra agrícola foi a maior da história brasileira, mas o frio intenso (e neste ano não apenas no sul) prejudicou muito certas culturas desta estação (como os hortigranjeiros), o que é um grande estímulo para especulações. Mas o governo está inovando no apoio aos pequenos agricultores, que só obterão vantagens, e grandes, se formarem associações. Não é difícil ver o largo alcance da medida. Portanto, há perspectivas de novas marcas para a produção agrícola. Mas o preço da cesta básica descerá ao nível do salário mínimo? Subirá este para o patamar daquela? E até mesmo coisas que não são ilegais, mas condenáveis, começam a ser exigidas dos políticos pela opinião pública, com a imprensa a funcionar como gigantesca e eficiente caixa de ressonância. Veja-se o caso dos candidatos a vice-presidente que foram forçados a renunciar pela divulgação de manobras suas perfeitamente legais, mas que a opinião pública não aprova.

06.08.94 – No JB de hoje, no caderno próprio, entrevista com o escritor italiano Antônio Tabucchi, que escreveu um livro em português – Afirma Pereira – que dizem estar sendo muito vendido em Portugal. Por que motivo um italiano escreveria um livro em português? Não seria, certamente, pelo fato de estar casado com uma portuguesa. Tabucchi explica: Conheci um jornalista português nos anos 60 que publicou um artigo contra Salazar e foi obrigado a se exilar em Paris. Colaborava em jornais, vivia em pensões modestas, mas era um herói que levantou a voz. Conheci Portugal em 1965, um país triste, solitário esquecido na clausura de sua ditadura. Ninguém falava dele nem dos escritores que lutavam anonimamente pela democracia e de vez em quando passavam 15 dias na cadeia. Quando comecei a escrever não tinha a menor ideia do que ia sair. Nunca tinha me atrevido a escrever em português. Não estava na Itália nem em Portugal, estava num lugar neutro que era Paris durante a Guerra do Golfo, com as ruas vazias e as pessoas com medo de sofrer um atentado. Comecei a escrever num café e quando cheguei ao hotel à noite descobri que tinha revivido as memórias de Lisboa, e em português. Tentei traduzir para o italiano, mas virava outro livro. Então não matei o que tinha nascido naquela língua. Mas procurei a explicação. De volta à Itália, dois meses depois, me deparei com um livro de psicanálise linguística onde estava a chave numa frase: É possível esquecer numa língua e recordar noutra. Quer dizer, esqueci em italiano o que minha memória estocou em português. Então a língua é mesmo um espaço da alma, dos fragmentos da alma.

Na mesma entrevista, a respeito da reação negativa de Saramago a respeito de uma referência a Fernando Pessoa: Eu não queria falar sobre Saramago na entrevista, queria falar de mim, mas ele não se conforma porque um dia eu entrei na sua língua, com se a língua pertencesse a alguém. O que incomodou Saramago é que eu entrei na língua portuguesa, e ele é invejoso. Agora, se ele tem esse problema, eu o convido a escrever um romance em italiano. Finalmente, sobre ver os filmes baseados em obras suas: Aprendi a lição com Moravia: vou, mas com olhos de estranho. Um livro publicado já não pertence ao autor.

No mesmo caderno do JB um comentário sobre Seis passeios pelo bosque da ficção, de Umberto Eco, onde o autor, ao escrever sobre o Os Noivos, de Manzoni, sublinha as técnicas do cinema, como a câmera lenta e o zoom: Não me venham dizer que um escritor do século 19 desconhecia técnicas cinematográficas: ao contrário, os diretores de cinema é que usam técnicas da literatura de ficção.

06/07.08.94 – Fim de semana de Grande Prêmio Brasil. Há tempos eu estaria vivendo intensamente o momento. Desde a adolescência eu tinha um grande interesse em corridas de cavalo, que, por estarem em distribuição complementar, não competiam com a paixão maior: o cinema. (Naquela época ainda não estavam institucionalizadas as corridas noturnas). Meu irmão Domingos e eu usávamos com juvenil critério nossas limitadas bolsas e assim podíamos frequentar regularmente as corridas, sem danos financeiros maiores. Não apostávamos em todos os páreos; alguns eram reservados para torcida pura e simples por um animal de nossa simpatia, ou para o exclusivo prazer de ver uma animada disputa. Até porque naquela época concordávamos inteiramente com um inglês que elegeu como uma das três coisas mais bonitas deste mundo... um cavalo a pleno correr. Alguns animais, porém, ficaram em nossas lembranças não por grandes qualidades de corredores, mas pelo prazer que nos deram de ganhar quando neles confiávamos. Por exemplo: a lembrança de Araponga, em uma tarde de estreia minha como “grande vencedor”, ou da “gramática” e fidelíssima Vega. Anos em que a criação nacional engatinhava, em que o melhor cavalo podia ser um animal roncador (Goyo), e, sendo assim, uma criação sem condições de enfrentar os animais argentinos, que invariavelmente ganhavam as principais provas, mesmo com a vantagem de peso concedida aos animais aqui da terra. Mas a coisa foi mudando e os nacionais passaram a correr peso a peso com os estrangeiros... e a ganhar deles. Chegara a era Helíaco & Cia.

Foi então que Domingos e eu estabelecemos uma relação entre o cinema brasileiro e as corridas de cavalo. Nós vínhamos seguindo o lema que viera do cinema mudo – Todo filme brasileiro deve ser visto – com algum sacrifício de nossa parte, já que alguns filmes eram bem ruinzinhos. Então decidimos: já que os cavalos nacionais estão correndo peso a peso com os estrangeiros, só vamos ver os filmes brasileiros recomendados ou que prometerem alguma coisa. Entre estes estavam as chanchadas, repudiadas pela crítica, mas nas quais nós víamos com juízo até maduro demais para adolescentes, algo que se nos afigurava muito importante: era Brasil na tela e um tipo de filme que criava um público que se via na tela. A chanchada acabou com aquela bobagem de dizer que a língua portuguesa não se prestava ao cinema, pois soava artificial na tela, causando desagrado ao público. O português soava artificial porque era falado assim. Perguntávamos nós se alguém do povão da plateia sentia mal estar com o português vivo de Oscarito e Grande Otelo. (Agora, muitos anos depois, veio a nossa vingança, ao ver a chanchada ser levada a sério tanto no país como no exterior. E o termo chanchada é um dos raros que o português levou para o léxico do cinema).

O tempo passou, chegamos até a encarar profissionalmente a atividade cinematográfica, e os cavalos foram ficando mais e mais esquecidos. Chego a ter saudades de meus primeiros tempos e Porto Alegre, nos idos de 1948/1949, quando eu morava no bairro da Independência, e os fundos da casa onde eu morava (um senhor palacete!) tinha uma comunicação privativa com o hipódromo dos Moinhos de Vento. Em resumo: o hipódromo era uma extensão de meu quintal. Bons tempos em uma pacata Porto Alegre, onde, ao chegar o fim da semana, eu já tinha visto todos os filmes visíveis, todas as peças teatrais idem, e todos os concertos sem exceção. O que fazer no fim de semana? Ali ao lado, o hipódromo era uma atração irresistível.

Tanto a vida mudou para mim e principalmente para Domingos que não tem o menor sentido imaginá-lo indo hoje a um hipódromo. Quanto a mim, voltei a morar pertinho de hipódromo. Apenas uma praça me separa do hipódromo da Gávea, que é visto das minhas janelas em toda a sua extensão. Poderia acompanhar as corridas sem ir lá. Mas é claro que não acompanho as corridas daqui, nem lá vou. Andei comparecendo algumas vezes, quando amigos donos de cavalos insistiam para eu me incorporar à torcida. Já não insistem mais. Ficou o saldo de ter ido à pista para ser fotografado ao lado de animal vencedor, na companhia do nosso priminho francês Frank. Deslumbradíssimo! Em Paris nunca fora a um hipódromo e logo na estreia aqui participa de uma vitória. Mesmo com pais de classe média alta, em Paris também nunca fora a um museu, nunca andara de kart, nunca... Foi de espantar a série primeira vez que ele cumpriu aqui no Rio e vizinhanças.

Mas continuando: o resultado é que não testemunhei de perto o grande salto da criação nacional. Os cavalos brasileiros passaram a dominar as corridas daqui e a ganhar também lá fora. Eu ainda acompanhava as corridas quando Escorial e Narvik decidiram um prêmio dos grandes em Buenos Aires. Mas aquilo parecia ser uma aberração. Atualmente vai cavalo brasileiro correr lá na condição de favorito, como último grande prêmio de caráter sul-americano. E ganha sem dificuldades.

Resolvi ver no fim de semana do Grande Prêmio a corrida do quilômetro e o próprio GP. Levei um susto com os tempos. Como melhoraram! A marca da milha está em 93 segundos cravados. O quilômetro já foi corrido por nada menos do que seis animais em 55s6/10. Não me pareceu ser isto consequência da melhoria do gramado e sim da criação.

02.09.94 – Um dos famosos dias 2 do casal Gilda & Emmanoel, vivido este ainda sob os efeitos do II Encontro de Centros de Estudos Portugueses do Brasil, com a nossa Gilda à frente. O Encontro aconteceu de 29 de agosto a 01 de setembro, mas é evidente que para Gilda foi trabalho de meses. Ela trabalhou ainda com mais intensidade do que o habitual (que já não é brincadeira!), ainda mais que no dito Encontro estaria sendo prestada uma homenagem a Cleonice pelos seus 50 anos de magistério superior. Mas estou certo de que por ter sido uma realização conjunta UFRJ-PUC solicitou mais de Gilda, já que as meninas da PUC não têm o pique da minha querida, seja para planejamento ou execução. Valeu a pena, pois Cleonice viveu com evidente alegria o momento e houve um congraçamento muito bonito e útil para Gilda levar para a frente seus planos de organização: foi decidida a criação de uma Coordenação Nacional dos Centros de Estudos Portugueses do Brasil, entidade da qual Gilda será a primeira presidente. E vamos nós!. Para mim houve subprodutos nada desprezíveis, como oportunidades de iniciar ou renovar contatos. Cito – e tentado a chamá-lo não de subproduto, mas de superproduto – e não apenas por ter sido o mais prolongado, os deliciosos momentos de convivência com Helder Macedo e Susette, que nos deram oportunidade de fruir muitas de suas certamente inúmeras qualidades. Em encontros anteriores eu havia ficado encantado com eles. Desta vez, e para sempre, eu simplesmente os adorei. Gilda, que os conhecia melhor, já havia sido conquistada por eles há mais tempo. Gostoso na história é que eles nos enchem de felicidade com suas presenças e ainda insistem em agradecer nossos movimentos para tê-los perto de nós. E, já que agradecem de forma tão refinada e bonita, como não aceitar? É uma delícia total quando Gilda e eu caímos de paixão por ambos os membros de um casal. Os economistas diriam que é uma otimização de afeto. Infelizmente os casos não são numerosos, mas o número vai crescendo, como atestam os queridíssimos casais Paulo & Susan, e Fernando & Mar. Falou-se tanto que os anos 80 foram a década perdida do Brasil. Agora sai a estatística de 1991 do IBGE, mostrando que os indicadores sociais melhoraram na década, mesmo não chegando a um patamar satisfatório, ainda mais se houver comparação com os melhores avanços feitos lá fora. Na cadente questão demográfica, por exemplo, a taxa média dos nascimentos caiu para coisa de metade dos anos 50 e 60, com as projeções indicando que a população brasileira esteja crescendo a menos de 1,4%. Os índices do Sul e Sudeste já batem com os do chamado Primeiro Mundo. E aí começamos a cair novamente nos famosos contrastes brasileiros. Diz a estatística, por exemplo, que no Sul 82,5% dos domicílios tinham um cômodo para cada morador (não haveria aí mais uma das famosas ilusões estatísticas?) e que no Sul/Sudeste mais de 95% da população entre 10 e 25 anos era alfabetizada em 1991. Ou seja, a suposta década perdida deixou a década seguinte um analfabetismo apenas residual, e a questão sendo deslocada para a área da qualidade da alfabetização. No Sul/Sudeste, pois nas outras regiões o caminho será mais longo. O Ceará, sacudindo a triste tradição do governo dos coronéis, teve a sorte de receber oito anos de bons governos e apresentou espetaculares, dignos de repercussão e prêmios internacionais. Ainda assim, seus índices atuais envergonhariam um Estado do Sul/Sudeste. Dá para imaginar os índices antigos... O ex-governador Tasso Jereissati deve voltar ao governo do Ceará e assim já se pode prever que o Estado terá mais quatro anos de bom governo, agora com o apoio de um membro do partido na presidência da República, pois Fernando Henrique Cardoso deve ser o próximo presidente, com eleição quase certa no primeiro turno. Se houver um segundo, o que é improvável, arrasaria o Lula, respeitado, mas campeão de rejeição pelo eleitorado. Lula e o PT erraram feio atacando o real. Não compreenderam a importância para o povão de ter nas mãos moeda que não se derrete e, portanto, com forte poder de troca. A ideia de uma moeda de transição, a URV, criação tão perversa quanto genial, foi assimilada pelo povão porque era garantida a paridade com o dólar. Assim, os salários eram pagos, na verdade, em dólar. Agora, na era pós-URV, recebem os trabalhadores salários em real, moeda que, no jogo do mercado, acabou valendo mais do que o dólar. Portanto, não era a moeda que devia ser combatida pelo PT. Quanto a FHC, vai enfrentar os colossais problemas que conhecemos, mas a) montado em reservas cambiais de 50 bilhões de dólares; b) dizendo ao FMI que não precisa de empréstimos; c) tendo que lutar (como Itamar faz agora) não para valorizar a moeda nacional, mas para evitar a queda do dólar (já a 0,83 do real, apesar das intervenções do Banco Central); e d) tendo que tomar medidas para limitar o ingresso de dólares no país: quatro coisas impensáveis no Brasil de algum tempo atrás. Mas a inflação está entranhada em nossa cultura e perdeu apenas uma primeira batalha. A guerra continua e vamos ver como FHC a conduzirá. De qualquer forma, há muito tempo o Brasil não tem um presidente com perfil tão elevado. Pela minha experiência, recuando até Getúlio, vejo todos bem abaixo, Getúlio entre eles. Ninguém espera milagres, já que o próprio FHC não se apresentou como milagreiro. Mas há muitas esperanças. Torçamos para que não surjam novas desilusões.

17.09.94 – Estou chegando de Salvador, onde participei do I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Linguística, que estará comemorando 25 anos de existência. Como membro da antiga diretoria da ABRALIN gostei de ver o desenvolvimento do que se ajudou a semear. Minha comunicação, transformada em conferência pela ausência de previstos comunicadores, foi Linguística e Teoria do Cinema

29.09.94 – Chega ao fim um mês onde o tempo andou escasso, pois quase duas semanas foram dedicadas a congressos: um em Salvador e outro aqui por perto,em Niterói, o da Associação de Estudos da Linguagem do Rio de Janeiro, onde montei uma apresentação de alunos meus de pós-graduação na UFRJ. Foi um sucesso, pois eles superaram minhas previsões. Os textos eu conhecia e aprovara: eram muitos bons. A surpresa esteve presente na apresentação que todos fizeram de seus trabalhos. Vai seu um fim de ano animado, em termos de congressos. Gilda não foi a Salvador, nem a Niterói. Em compensação, vai a Belo Horizonte., Assis, Lisboa, Paris e Nápoles. Eu, mais modesto, tenho pela frente apenas Assis e Nápoles. Mas não me incomodarei de acompanhar Gilda em Lisboa e Paris...

05.10.94 – Hoje é o Dia Mundial do Professor. Mas, como temos a 15 o dia nacional do professor, só eu estou sabendo disso. A verdade é que teremos duas datas comemorativas e nenhuma comemoração. E os aniversários do mês? E termos de aniversários familiares outubro apresenta o do Sandro (dia 9) e o do Carlos, o Pai, no dia 25. Tenho um cartão especial para o Sandro e espero mandar algo também para o Carlos, pois estarei em congresso no dia 25.

18.10.94 – Dia do Médico! Excelente motivo para um telefonema à queridíssima... de todos nós Ana Luiza, médica da família. Explicação para os três pontinhos: queridíssima o quê? Ia escrever amiga mas me pareceu muito pouco. Como foi muito pouco o que lhe disse ao telefone. Enfim, falando ou escrevendo ficarei sempre dizendo menos dessa criaturinha que amamos sempre mais.

19.10.94 – Gilda chega correndo de Belo Horizonte, e no mesmo impulso, se manda para o campus do Fundão, pois estava quase na hora de dar aulas. Tia Fernanda sabe da coisa na hora e chama a sobrinha de louca. Que professor faria isso? Gilda seria o exemplar perfeito da professora Caxias, termo que, na vida militar, significa extrema dedicação ao serviço. O seria corre por conta de não ser pelo sentimento do dever que Gilda age assim, mas pelo amor que coloca no que faz. Creio que no Congresso de Belo Horizonte o tema seria Sá Carneiro e Gilda, mesmo falando sobre ele, falou fortemente, como de hábito, sobre Jorge de Sena. Consta que fez um enorme sucesso. Vamos ver se surgem adesões mineiras à causa. Em casa o proselitismo de Gilda vai de vento em popa. Em termos de fruição dos textos senianos a adesão de tia Fernanda é total. Em termos de mergulho nos textos, o marido Emmanoel vai, timidamente, avançando, comendo o suculento pirão pela beirada cinematográfica. A partir do momento em que, por circunstâncias, juntei Linguística e Cinema (um convite para orientar uma pesquisa na área lexical do tecnoleto cinematográfico), voltei às leituras e reflexões sobre a teoria do cinema, com um interesse redobrado (e mais municiado) após minha permanência em Santa Bárbara, junto à Universidade da Califórnia. Fiz uma apresentação no último congresso da Abralic, na USP, sobre a questão do status literário do roteiro cinematográfico, um assunto tão original na área que fui surpreendido com a presença de gente que veio especialmente para me ouvir, e quando é gente da Unicamp trata-se de uma honra. O resultado é que recebi um convite na hora para me apresentar em Assis, mas eu sugeri, por maior ligação ao tema do encontro, que eu devolvesse uma apresentação já feita, rotulada como preliminar, dos escritos de Jorge de Sena sobre cinema. O que também foi aceito na hora. Portanto, já serão pelo menos duas vozes a falar sobre Sena em Assis. Minha querida Fernanda devolve-me o livro “Falas”, de Cleonice Berardinelli, transpirando satisfação e deixando o rosto manifestar alegria, o que é raríssimo em Fernanda, que prefere exibir um caprichado rosto triste, até mesmo quando é óbvia a satisfação que lhe deve andar lá por dentro. Que fada do texto é essa Cleonice, que consegue despertar tanto entusiasmo em leitora do tipo degustadora, com material que são discursos de circunstâncias solenes em que tantos produziriam discurso pomposo e indigesto? Devolvo carinhosamente à estante o exemplar que Cleonice me deu, com dedicatória em que sou mimado uma vez mais com o título de beau-fils, explicável pela sua relação com Gilda, de quem é madrinha, uma outra mãe, portanto, de quem ficou marcada pela felicidade de ter tido quatro (as outras são Olga,Angélica e Fernanda).

19.10.94 26.10.94 -Parece que haverá mesmo algum tipo de intervenção (ou que nome tenha) do governo federal no Rio de Janeiro. Perguntam-me, em rica e tranquila cidade do interior, sem misérias aparentes, sem fatos policiais, se a situação de violência no Rio é assim mesmo como aparece na televisão. Respondo que, mesmo morando no Rio, o conhecimento que tenho da violência na cidade é o mesmo que esses interioranos têm: é o que me chega por meio da televisão e dos jornais. No bairro onde moro os morros são cobertos pela mata atlântica, não há favela à vista, nem o testemunho diário de violências fatais: o último caso aconteceu há anos, consequência de briga entre um frequentador de um bar e o segurança da casa. Mas sei que no Rio, como em toda a cidade grande, existem áreas e horários de insegurança máxima. O morador veterano conhece tudo muito bem, mas o novato e o forasteiro correm perigo. Durante quase vinte anos regressei tarde da noite da Universidade Gama Filho, na Zona Norte, bairro da Piedade, viajando em trens suburbanos, tidos como perigosos. Durante todo esse tempo só testemunhei um ato criminoso: o roubo de um relógio de pulso, tendo um aluno como ofendido (aprendi que o termo técnico é esse). E depois pegava um ônibus ligando a estação central a uma favela gigantesca (Rocinha). Pois nunca vi fato algum criminoso no ônibus, o 176, suspeitíssimo segundo muitos. O ponto do ônibus está na área da Central, reconhecidamente pesada, ainda mais à noite. Pois nada vi por lá, além dos personagens do submundo que ali vagam. Sorte? Durante quase vinte anos? O mais provável é que eu tenha transitado por uma faixa segura de tempo e espaço. Ou que a violência não esteja nem tão frequente, nem tão discriminada. Mas está, com toda a certeza, fortemente localizada. Mas até aí a situação do Rio é a de qualquer cidade grande do país ou do exterior. Qual, então, o motivo para a enorme repercussão do que acontece no Rio? Dizem muitos que se trata de uma campanha orquestrada pelas Organizações Globo contra o governador Leonel Brizola. Primeira em audiência, a TV Globo é sem dúvida uma tremenda caixa de ressonância, atingindo todo país e exterior. E não poupou esforços para sabotar Brizola. Notícias policiais sem maior importância (que não sairiam, em outros canais, além do noticiário local), se com origem no Rio eram colocadas no noticiário nacional, ou seja, eram expostas para todo país. A política deu certo, pois Brizola foi humilhado nas eleições, barbaramente derrotado, com apenas 3% de eleitores. Dizem outros que um fator auxiliar se deve a uma tentativa de São Paulo de se apresentar não apenas como o centro comercial e industrial do país, mas também como um centro turístico. Com essa ideia os paulistanos fizeram coisas de que dou apenas dois exemplos: tiraram do Rio a corrida de fórmula 1, propondo aos vorazes promotores internacionais mais do que eles exigiam do Rio, no momento em que o Rio tentava negociar as leoninas cláusulas do contrato proposto. Na conferência que a ONU consagrou com o nome de RIO-92, os meios de comunicação de São Paulo chamavam a conferência de Eco-92. Pois o Rio estava em evidência aí por muitos de seus aspectos positivos: não foi pequeno elogio ter a cidade sido escolhido pela ONU para encontro e tal importância ecológica. A cidade era louvada no mundo todo pelo seu valor ecológico, um tremendo chamariz para o turismo de hoje. Era a cidade que tinha dentro de si, não um parque, ou mesmo um bosque, mas toda uma imensa floresta, com direito a cachoeiras, tudo sob um mítico sol. O tal rótulo Eco-92 procurava esconder um pouco do sol do Rio com peneira paulistana. (PS – Em encontro recente entre candidatos “tucanos”, o candidato paulista Mário Covas, pela força do hábito, voltou a chamar o encontro de Eco-92, sendo gentilmente corrigido, “ante uma plateia visivelmente constrangida”, pelo candidato carioca Marcelo Alencar, que disse desconhecer tal encontro: o que ocorrera no Rio fora o encontro RIO-92). Por outro lado, os meios de comunicação paulistanos capricham em dar destaque a notícia sobre a violência no Rio. Um assalto a delegacia no Rio vai para a primeira página de jornal, enquanto fato criminoso exatamente igual, ocorrido em São Paulo, é escondido em notícia pequena de página interna. O resultado é que houve mesmo uma queda inicial no turismo no Rio (mas o maior beneficiado foi o Nordeste, pois, perguntaria um carioca gozador: que turismo iriam os estrangeiros fazer em São Paulo?). O caso é que o apelo do Rio é muito forte e o índice de queda do turismo foi sendo revertido, pois o processo se modificou: o número de turistas no Rio ficou às vezes até maior do que antes, só que de procedências diferentes, substituindo os norte-americanos, hoje minoria, não sei se mais por causa da anunciada violência ou da queda do dólar, principalmente entre nós, tornando mais caro o turismo deles .De qualquer forma, em momento algum o Rio deixou de ser a grande porta de entrada do turista no Brasil. Imagine-se o que não seria se aqui recebesse cuidados especiais.

Para estrangeiros (provavelmente muitos) o Rio de Janeiro quase se confunde com Brasil. Confesso que é uma impressão ligeira, tirada do contato no exterior com poucas pessoas e sem precauções metodológicas, mas com um bom número de evidências. Por exemplo: Há um massacre de 111 pessoas no Carandiru, São Paulo, enquanto estávamos morando nos EEUU. Talvez por influência da media local, nossos amigos californianos vinculam o fato ao Rio. São Paulo? O que é isso? Apenas um ou outro tinha ideia de que era uma grande cidade brasileira. (Já seria demais pedir que soubessem que era a maior do Brasil e uma das maiores do mundo). E eles eram todos de classe média alta. Mas o Rio todos conheciam. Talvez por isso a vinculação da chacina ao Rio pela media local. Para muitos outros e isto inclui também brasileiros, o Rio não será o Brasil, mas é a face do Brasil. Outros tantos poderiam dizer que o Rio é o coração do Brasil. Isto ou aquilo, é o Rio sem dúvida uma cidade muito especial para milhões e milhões de brasileiros: “a cidade maravilhosa”, de “natureza exuberante”, um cartão postal a ser exibido com orgulho. Pode estar aí parte da explicação para esse grande interesse pelo que acontece no Rio: a colocação da violência carioca em grande destaque pode bem ser a combinação da atração pela violência com um ato de interesse mais nobre, gesto de amor à cidade. Cidade, afinal, também de “gente hospitaleira”. Gente que acolheu os primeiros favelados donos desse nome, gente da Bahia. (O nome favela é alusão a um topônimo de Canudos, mas não vou alongar-me contando toda a história da primeira favela implantada no Rio). Mas é justamente desse jeito acolhedor e “deixa pra lá” do carioca que surge o que torna o problema do Rio diferente. Para dizer o que todos nós sabemos, mas com o estilo próprio e o peso da autoridade, dou a palavra a um especialista: Por motivos geográficos, históricos e sociológicos, aqui existe uma interação direta e permanente entre categorias sociais contrastantes em termos de renda, moradia e oportunidades e geral. Este convívio, que durante muitas décadas foi relativamente pacífico, com padrões de reciprocidade minimamente funcionais, tornou-se cada vez mais agressivo. Quais as causas dessa degeneração? Ao lado da crise econômica, houve uma política populista e desastrosa em termos de ocupação do espaço urbano. Essa mesma demagogia populista agravou as deficiências tradicionais da polícia e não só não evitou como chegou a estimular o confronto entre categorias sociais. As ruas foram demagogicamente entregues a camelôs, mendigos, menores desassistidos, com um código próprio que lhes garante, dizem, o direito de ficar pelas ruas. As coisas chegaram a um ponto que nem a sensibilidade embotada por tantos anos de desgovernos consegue suportar. Eis a explicação para esse movimento de parcela influente da sociedade do Rio que vai ao encontro do pedido generalizado de presença federal mais forte na cidade, finalmente obrigada a tomar consciência da situação a que foi levada pelo populismo desastrado de Brizola & Cia. Pois o grande problema é o da capital. A uma hora daqui, nas montanhas de Araras, desfrutamos do que pode oferecer uma casa com paredes de vidro (para se integrar mais à paisagem) e onde se dorme de janelas abertas.

31 10.94 – Dia de virar a página do calendário para ver quais serão os aniversariantes do próximo mês. Para quase todos os aniversariantes precisarei antecipar os parabéns, pois Gilda e eu estamos novamente de partida para a Europa. Gilda e eu vamos participar de congressos e emendar com parte de nossas férias, mas voltaremos com bastante antecedência em relação ao início do ano letivo de 1995. Assim uma vez mais reiteramos convites para uma subida à nossa casa da serra, casa que está sempre esperando parentes e amigos, com ou sem nossa presença. Quem preferir usufruí-la com maior privacidade pode aproveitar nosso longo afastamento de lá; quem preferir usá-la em nossa companhia terá de esperar nossa volta. A casa acolherá com prazer deste ou daquele modo. É bom lembrar que existe também uma casa em Teresópolis, já apresentada a todos e colocada também às ordens, mas o controle é da Irmã Mercedes (quem controla a ocupação em Araras é Tia Fernanda). Na Europa procuraremos manter contato com parentes e amigos daqui, nem que seja por meio de postais. Desde já, portanto, Santo e Feliz Natal e boas entradas de 1995, ano que muito promete!

21.01.95 – (Lisboa-Rio) Com o peso da bagagem formado principalmente por livros, Gilda esperava comover a Varig e conseguir liberação do inevitável excesso. Mas não foi preciso implorar, pois a liberação foi automática, garantindo-nos o dobro do peso normal. Para transportar as quatro malas e dois volumes de mão até o aeroporto contamos com um motorista de luxo, nada menos que um juiz de alta corte, um desembargador. Como o ilustre casal José Paulo e Maria de Lourdes insistiu tanto em nos dar tal ajuda, acabando por vencer nossas resistências em aceitar? A explicação deve estar em Elsa Gonçalves, irmã de Maria de Lourdes, e no carinho que envolveu nosso relacionamento com ela, acabando por atingir também o casal. Foram ambos de uma gentileza a toda prova. Cortesias sobre cortesias e atenção sempre crescente tinham mesmo que culminar lá em cima. Só podemos agradecer, pois não temos como retribuir. O gesto de despedida foi o desembargador sair à procura do Diário de Notícias, onde Gilda aparece entrevistada em página inteira e com direito a enorme foto. E. por sorte, muito bem fotografada. A foto escolhida entre as muitas que o fotógrafo bateu de Gilda na palestra que ela fez na Comissão para a Defesa dos Direitos e Igualdade da Mulher, se é que não errei em alguma coisa aí. Haverá uma escala no Porto, mas depois o avião irá diretamente ao Rio. O tempo está bonito e pode-se apreciar bem a cidade e arredores. Ficar dentro do avião, com as pessoas a limparem, não é coisa que agrade, mas sempre se tira algum lucro em observar as pessoas e seus movimentos rápidos, pois tudo é feito às pressas. Finalmente, de volta ao Rio! Anunciam que a viagem será um pouco mais demorada do que se previra: dez horas. Tempo de sobra para um balanço sobre os resultados desses dois meses entre Portugal e Itália. Participamos dos congressos previstos; Gilda fez conferências imprevistas; estabelecemos reatamos e fortalecemos contatos profissionais e afetivos. Ela planeja voltar já neste primeiro semestre, pois Jorge de Sena será assunto no Porto. E eu já trago um convite formal nas mãos para voltar a Braga, também no primeiro semestre. É muito provável, portanto, que ambos estejamos logo a fazer nova viagem a Portugal. Ainda neste primeiro semestre de 1995. Chegada ao Rio à noite, na fronteira do sábado com o domingo. O enorme luzerio lá em baixo dá as dimensões monstruosas da cidade grande. Quando o avião desce mais para o pouso, percebe-se que chove. É hora de ver se toda bagagem chegou bem. Há uma rachadura em uma das malas cheias de livros, mas todas chegaram. Na alfândega mantenho a minha invencibilidade: deu verde novamente. Até que poderia dar vermelho, pois estávamos bem dentro da lei. O problema seria a perda de tempo e o trabalho de refazer malas tão eficientemente feitas por Gilda.

31.01.95 – Não sendo eu muito chegado a telefone, bastam alguns fracassos nas tentativas de comunicação para eu tentar contato com parte da família via EBCT, ou mesmo indo em pessoa a Inhaúma e fazendo da casa de D. Maria a central de comunicações, ou seja, deixando lá correspondência para os Oliveiras e afins. A vantagem é que se pode apresentar uma recordação de viagem que, embora pequenina, é possível, o que não aconteceria por telefone. De qualquer forma, se a oportunidade se oferecer, tenho para os sobrinhos lembranças bem mais substanciais. Mas o valor principal delas estará sempre no testemunho da importância que têm eles, principalmente para mim, que nunca esqueço. Ainda não me dei conta de uma coisa: como estaria o Rio? Como anda a violência urbana, principalmente a guerra entre os traficantes, após a presença ostensiva das forças armadas nos morros? Como onde moro, uma ilha de tranquilidade, só se sabe dessas coisas por ouvir falar, é preciso ficar atento aos noticiários de televisão e ler com mais atenção as páginas interna dos discretos jornais que entram em nossa casa. Além do que fomos logo para o clima ameno de Araras, seja para fugir do contraste com o inverno europeu ainda em nossa lembrança, seja pela curiosidade de Gilda em ver como a sua serrana casinha de bonecas teria resistido a tanto tempo de ausência do olhar da dona. E não é a pacata Araras (de casas de paredes de vidro, portas e janelas escancaradas, murinhos apenas decorativos) que daria o tom da violência carioca. É hora então de se voltar para a pilha de jornais mais recentes, aguardando uma improvável leitura. Aleatoriamente, começo com “O Globo” de 21/01/95. Na seção do Zózimo é impossível não abandonar tudo o mais para ficar no clichê em preto-e- branco que reproduz, concordo com o redator, “a plástica irretocável” de Natália Cigarro, jovem beldade de nossos palcos que eu desconhecia. Um corpo de incrível perfeição, no gênero beleza-saúde. Uma bela recepcionista que o Rio manda me acolher. Obrigado! Mais obrigado ainda fico pela presença, em glorioso colorido, em página externa do caderno feminino da mesma edição do jornal, de alguém muito conhecido, a modelo Geórgia Wortmann, uma das mais famosas, senão a mais, do momento. Essa implausível carioca (muito alta, muito loura, sobrenome mais adequado à gente do sul) não apenas posa, mas diz coisas sobre o seu Rio, dando as informações que eu buscava: “O Rio está ficando ainda melhor, a gente percebe isso na cara das pessoas que vivem aqui e também na satisfação dos turistas, que são nossos melhores divulgadores” . E mais: “Gosto mesmo de andar bem vestida. Costumo usar joias e não me importo com a violência, que, aliás, tem diminuído bastante nos últimos meses”. Apesar da importância do talhe, Geórgia faz o tipo da beleza- doçura, e nisso ela se mostra bem carioca. Mas será uma observadora qualificada da violência carioca? O seu Rio não será, como o meu Rio é, uma das ilhas de tranquilidade na confusão mais geral? Na edição do dia seguinte (22.01.95) “O Globo” publica no lugar de sempre (primeira página) um desenho de autoria de Chico, sem qualquer legenda. Aproveitando o fantasioso (ou alucinado?) projeto de Niemeyer para as casas do Congresso, Chico, sem ter necessidade de grandes modificações, apresenta uma delas como um vaso sanitário. Qualquer leitor sabe do que se trata, qual o motivo desse silencioso e fortíssimo soco na cara de um Congresso digno de castigos muito mais fortes. Já vai tarde esse Congresso. O próximo será inevitavelmente melhor, por pior que venha a ser. Ler jornal por atacado também cansa. Mudo de alvo e tento colocar em ordem uma das pastas que vieram com a bagagem. Ainda há cartas para responder e algumas que escrevi e não cheguei a mandar, incluindo postais de Roma que eu, “vizinho do Papa”, queria mandar para gente daqui, usando selos do Vaticano, mais raros entre a minha gente do que os do correio italiano. Faltou tempo em Roma, até para uma visita ao “vizinho”, de tanto o que ver e fazer, sob o cronograma “otimizador” de Gilda. Saindo um pouco da rotina de só olhar televisão para acompanhar noticiários, sincronizados com hora de refeições, vejo o ballet completo “A Bela Adormecida”, tendo nos dois papéis principais Nina Semizorova e Alexei Fadeieshev. Vejo nesta versão do Bolshoi (ainda fico sem jeito de escrever Bolxói) a presença, entre os convidados à festa final, da Borralheira e do Príncipe. Já os teria visto em outras versões? A coreografia, anunciam, é a mesma da Petipa, apenas reconstituída por Gregorovitch. Será? Mas logo raciocino que se pode ter essa coreografia como sendo, com as inevitáveis alterações de percurso, aquela de Petipa. Simplesmente porque os russos jamais deixaram de dançar esse ballet, que, assim, passou de uma geração a outra, sem necessidade de trabalhos de arqueologia para a sua reconstituição.

01.02.95 – As três primeiras semanas, ou seja, praticamente todo o mês de fevereiro, serão dedicadas ao concurso para admissão de professores assistentes. Estou na banca (o que explica meu retorno da Europa antes do desejado) e assustado com a perspectiva de julgar vinte candidatos, embora sempre se espere alguma desistência. São seis as vagas, um recorde que tem sua explicação: vamos dar aulas na área médica. O concurso vai terminar às vésperas do carnaval. Então logo subiremos para as amenidades de Araras e será a hora de eu colocar em dia minha correspondência. Até lá!

02.03.95 – Passamos (o trio de sempre, que inclui Fernanda) o carnaval na serra e tivemos uma convidada muito especial: Cleonice Berardinelli. Foi, portanto, um carnaval muito especial. Gostando de falar e fazendo isso de maneira gostosa, Cleonice foi o centro de nosso carnaval, mantendo-nos sob a aura de sua milagrosa juventude. Eu dou muito valor a pessoas que avançam nos anos sem perder todo o encanto das idades anteriores. Cleonice faz isto em nível de excelência, daí esse frescor de mocidade que ela nos passa nos seus já setenta e tantos anos. Tirar os olhos e ouvidos dela? Às vezes eu olhava a televisão para ver alguma coisa do desfile das escolas de samba, este ano apresentado com melhor continuidade. Eu é que, com outras atrações por perto, não tinha ânimo para ficar horas na frente do aparelho. Lá pelas tantas apareceram também Teresa Cristina (mais Adriana) e Ana Luiza, mas as três ficaram pouco tempo. Nós só voltamos hoje após Gilda planejar estrategicamente, com todos os cuidados para evitar congestionamentos. Mas foi impossível evitar o da ponte sobre o Sarapuí, em obras prometidas para 45 dias. Como voltaremos antes a Araras... Após fazer tantos serviços com prazo “para ontem”, finalmente ataco uma pilha de impressos que separei após um de nossos regressos do exterior em 1994, mais exatamente o de abril, vindos da Europa. Há um caderno de O Globo, de 18 de abril, comemorativo do centenário de Ipanema. É centenário oficial de verdade, pois uma das virtudes do excelente caderno é ser fortemente documentário: está tudo provado ali. Até as relações de Ipanema com o cinema pátrio estão mencionadas, sem preocupação com a exaustividade, esclarecendo-se que o interesse dos realizadores voltara-se mais para fisionomia humana do bairro do que para suas ruas e praias. Aliás afirma-se que faltam não apenas para o bairro, mas para todo o Rio, filmes que registrem “exemplarmente” sua beleza. Curioso que em caderno tão rico de informações não se mencione o significado da palavra tupi. Talvez porque “panema”, agregado ao neutro “i”, tenha um significado depreciativo.

31.03.95 - Chegam Mariana e Pedro, da Califórnia com escala em Miami, para passar uns dias conosco. Gilda e eu vamos buscá-los no aeroporto e lá chegamos perfeitamente sincronizados: ninguém precisou esperar por ninguém. A vinda deles é uma grande alegria e, mesmo confirmada, uma quase surpresa, pois sabemos como Mariana está presa às suas atividades. Ficarão hospedados em nosso apartamento antigo, agora sob às ordens da tia Fernanda, que o mantém como ela gosta, ou seja, muito arrumadinho e acolhedor. O desjejum diário dos dois será com Fernanda, mas esperamos que eles façam as refeições aqui em casa, quando não optarem por restaurantes. Hoje conheceram o tempero de Dona Diná aplicado a um pargo de bom tamanho que “pesquei” na feira da praça. Parece que gostaram.

Nota posterior: Muitas vezes tentei me aproximar do computador para dizer alguma coisa à Mécia sobre a visita de Mariana e Pedro. Não para dizer o óbvio... que ficamos extremamente gratificados com a presença deles. Felicíssimos pela felicidade deles, orgulhosos por ter a oportunidade de colocar a serviço do casal a nossa (leia-se “da Gilda”) experiência acumulada de turismo receptivo “amador”, etc. etc. A ideia era tecer considerações de outra natureza, que fizessem Mécia perceber melhor que sua presença foi forte em todas as ocorrências da passagem da dupla pelo Rio. Mas durante e depois o mês foi tão cheio de atividades, incluindo viagens, que a ideia não foi adiante. O consolo é que Mariana e Pedro certamente estarão a contar de viva voz a experiência carioca do ponto de vista que interessa realmente: o dos mais recentes “descobridores” do Rio.

01.04.95 – Aqui no Rio Sônia estará chegando aos 45 no dia 12, aniversário a ser celebrado em companhia da mamãe Maria do Carmo a se recuperar de uma queda que lhe custou fratura na bacia. Finalmente, no dia 25 será a vez de Tânia aniversariar (41 anos) não sei (e nem ela sabe) se aqui no Rio mesmo, ou na Califórnia, em companhia dos filhos Tatiana e Richard, que lá vivem. O tempo continua escasso e os contatos difíceis. Além disso não estarei no Rio durante o miolo do mês. Vamos ver se ao menos estas linhas chegam aos aniversariantes e entes mais chegados com os parabéns de Gilda, Fernanda e os meus. Sinto muita falta de contato com os meus, eu, que já fui, nos bons tempos de vida de cinemeiro, o pombo-correio da família, circulando entre um e outro núcleo, dentro e fora do Rio. Quem sabe aqueles bons tempos voltarão?

08.04.95 – No ano passado, antes da primeira viagem à Europa, mandei uma mensagem especial para os amigos e familiares, alusiva à Páscoa que eu comemoraria por lá. Neste ano também estarei fora do Rio na Páscoa e gostaria de repetir o gesto, mesmo a viagem sendo para mais perto e a ausência mais curta. A falta de tempo e tanta coisa por fazer antes desta viagem me levam a simplificar o processo. Assim, vão nestas notinhas meus votos de Feliz Páscoa suficientemente numerosos, e sempre sinceros, para todos os destinatários destes textos.

17.04.95 – De volta de viagem em tudo e por tudo diferente das que Gilda e eu estamos a fazer nestes últimos anos, mas pela qual devemos pagar o preço de sempre: atacar o trabalho atrasado e as solicitações que surgem (sempre) durante nossa ausência. Mas a viagem em causa será objeto de um comentário tranquilo, quando tranquilidade houver. Estas notas que vou colocando no computador são um esforço heroico para eu manter algum contato com as pessoas que representam muito para mim e das quais a vida me afasta, ainda bem que apenas materialmente, já que em espírito estou sempre com elas. Entre batucar estas notas e remetê- las vai, porém, uma senhora distância e o resultado pode ser meio confuso: mensagens de Natal são remetidas na Páscoa, cartões redigidos na Itália são remetidos de Portugal (e mesmo do Brasil) e coisas assim. Espero que valha minha boa intenção e que os destinatários compreendam o meu problema de tempo. Gostaria de escrever cartas manuscritas e bem personalizadas para cada um. Acontece que minha caligrafia, se a escrita é rápida, perde o restinho de qualidade que tem. Mas nem adiantaria tentar personalizações integrais, pois, graças sejam dadas!, tenho um número tão grande de pessoas muito queridas que isto não seria possível, mesmo que eu não tivesse tantas obrigações profissionais, pedindo, elas também, muitas horas de redação, ao lado de outros encargos. O jeito então é multiplicar a correspondência social, com a ajuda do computador e das copiadoras. Trato de aproveitar estes dias de mês diminuído pelos dois feriadões, enquanto aqui em casa já se ensaiam os primeiros movimentos para a arrumação de malas para nova viagem à Europa, já no fim deste mês. Viagem pequena, talvez seguida de outra um pouco maior no meio do ano (para a Califórnia), mas a grande só ocorrerá mesmo (e novamente para a Europa) lá para o fim do ano.

Nota posterior: Cartas recentes anunciam visitas demoradas no meio do ano. Gente de Portugal e Itália. Assim, não acontecerá neste meio de ano a desejada visita a Mécia na Califórnia. Gilda e eu estamos com muitas saudades de ambas (Mécia e Califórnia) e saudades somadas (duplo sujeito e duplo objeto) pesam demais e precisam ser aliviadas.

22 04.95 – O JB de hoje tem Darcy Ribeiro e seu livro O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil , projeto de 40 anos e que ele agora, fugindo de UTI aonde foi parar devido a câncer, resolveu terminar. Não faltam razões para se aplaudir ou vaiar Darcy Ribeiro. Agora mesmo atropela no Congresso, onde tem assento, um projeto caro ao mundo acadêmico: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Ele desprezou um projeto longamente discutido e apresentou um outro dele próprio. Está dando a maior confusão e provocando iras. (Vai contra o que chama de “corporativismo politiqueiro que faz com que estudantes e funcionários elejam o reitor”. Conclui: “Isto mata a universidade”, que “é necessariamente uma casa hierarquizada em função do saber científico”.E lembra que a Universidade de Brasília “quase caiu nas mão de um policial”). Mas o seu gesto de fugir da UTI para terminar um livro-projeto-de-toda-uma-vida merece aplausos irrestritos e gerais. Sem tempo para ler além das minhas áreas profissionais coisas que não sejam cartas, revistas, jornais e trabalhos por e sobre Jorge de Sena (olha a Gilda aí!), só fico sabendo do conteúdo do livro do Darcy pelo que aparece no “Ideias”, do JB em causa. Darcy vê dois livros fundamentais abrindo o caminho para uma reflexão sobre o Brasil: Casa Grande e Senzala (“a esquerda brasileira tinha como religião falar mal do Gilberto Freyre”) e Os Sertões. O primeiro “era o livro mais profundo sobre o país”, mas “apenas sobre um pedaço do país. Já o segundo de maneira ampla, via “dois brasis”, mas o Brasil é muito mais complicado do que isto. À sua moda, onde o acadêmico e o sectário passional disputam espaço, Darcy resenha sua obra: “O que procuro mostrar no meu livro é que a grande façanha dos povos latinos foi fazer a América Latina, e eles não têm consciência disso. Os franceses não foram fecundos. Os descendentes dos soldados romanos que ocuparam a Ibéria há dois mil anos resistiram a várias invasões (…) É essa gente, 1500 anos depois de Roma, que vai ao mar e vem criar na América, com energia enorme, um rebento de romanidade. Não anglo-saxões, brancarrões do norte. Isto aqui tende a florescer um dia como uma nova Roma, lavada em sangue negro, melhorada – mulato é melhor que brancarrão -, mais essa coisa que o índio tem, essa cordialidade, esse gosto de viver. A nova Roma vai ser aqui, e a América Latina tende a se unificar como uma comunidade, uma nação. Na mesma edição e caderno do JB Herbert de Souza, o Betinho, diz que a leitura de A comédia da vida privada, de Veríssimo, “é absolutamente necessária para todos” E conclui: “hoje, quem não lê Veríssimo está desatualizado”.Temos aí o caso do humorista que, por se apresentar como tal, pode falar seriamente sobre coisas sérias. E, é claro!, agradando e desagradando. No caderno principal, na mesma página onde ele escreve seu “quadrado”, um leitor o acusa de estar caindo no ridículo, no afã de agradar a “ex-esquerda”. Certamente não nesse dia, com a deliciosa crônica Antes da Revolução, onde fala das desvantagens da “revolução sexual”, lembrando como eram as coisas “antes”: … namorar era como uma lenta conquista de territórios hostis. Avançávamos no desconhecido como desbravadores do Novo Mundo. Centímetro por centímetro, mentira a mentira. (…) Na verdade, não mentíamos para elas, mentíamos por elas. Dávamos a elas todos os álibis. O que quer que acontecesse, era por nossa insistência, não porque elas também queriam. (…) Hoje, pelo que me contam, não há mais este cerimonial. (…) Mas só quem viveu antes da revolução sabe as delícias da repressão. Esta geração jamais conhecerá a doce aflição de tentar desengatar um soutien com dedos trêmulos (…) para ter que engatá-lo de novo às pressas porque a mãe dela vinha vindo. Acho que foi isso que nos tornou mais fortes. Somos da geração preparada para a vida pelo fecho do soutien.

Os bandidos disputam nos morros os pontos de venda de tóxicos, usando armamentos de última geração (O grosso dinheiro da cocaína permite isso.). Enquanto isso aumenta o esforço para recuperar a imagem da cidade em uma série de detalhes: a atriz Sônia Braga empunha uma vassoura e comanda o grupo dos “loucos varridos”, montanhistas replantam nas encostas feridas por antigas explorações de pedreiras, etc. etc. E aparece no jornal o rostinho bonito de Jennifer Connelly (Of love and shadows, EUA, 1993) aqui chegando para lançar o filme com declarações de amor à cidade mais entusiástica do que as rotineiras de sempre (“Estou apaixonada! Quero morar aqui!”) E foi logo aproveitar o sol na praia do Leme, em “topless”, imaginando que fosse rotina aqui. Acontece, mas rotina não é. Aqui só é comum a exibição integral de trazeirinhos. Aliás, a atriz já foi dirigida por um brasileiro, o Bruno Barreto (Heart of Justice, EUA, 1993). E segue o Rio como uma súmula do país, atraindo e repelindo com o melhor e o pior de quase tudo. Aliás, o país segue com um astral alto. O desastre do México mostrou que aqui se andou certo ao dispensar o FMI e seus conselheiros: o efeito México foi absorvido porque havia grandes reservas cambiais aqui e puderam resistir ao desgaste de grande fuga de capitais. Que já começam a voltar. A Argentina era mais vulnerável, mas foi ajudada nas exportações pela queda do dólar e pelo superavit na balança comercial com seu parceiro mais solícito: o Brasil. Graças ao Mercosul, produtos, incluindo carros, que o Brasil taxou até a 70% entram aqui, mercado francamente comprador, com imposto zero.

25.04.95 – Hoje houve a defesa de tese de quem talvez tenha sido o meu último doutor, já que, a partir do momento em que me vi a quatro anos da aposentadoria por idade, não mais aceitei orientar pesquisas para doutoramento, ou seja, capazes de me levar a compromissos de longo tempo após a aposentadoria. (Agora, a dois anos e meio da dita, só aceito orientar pós-graduandos em níveis mais baixos, com pesquisas previstas para dois anos ou menos. Mas admito exceção para alunos especiais, como a Cristina, por exemplo.). O herói do dia chama-se Alfredo Maceira Rodriguez e o título da tese é Interferência do Léxico Galego no Português Falado pelos Imigrantes Galegos no Rio de Janeiro. O título deixa logo clara a posição do meu orientado na questão política de língua: ele não é reintegracionista, e eu respeitei sua posição. Foi para mim uma vitória pessoal que a tese tenha sido realizada, já que seu caminho foi complicado por um tempestuoso exame de qualificação, realizado quando eu estava na Universidade da Califórnia, sem condições de dar assistência a meu orientando. Seu projeto de tese foi atropelado por um dos examinadores, em dia de destempero. Mas os outros membros da Banca tiveram outra atuação e o Alfredo passou na qualificação. Ficou, porém, com o ânimo em frangalhos e me escreveu praticamente desistindo da tese. Eu respondi de maneira dura, curta e objetiva, dizendo o que ele deveria fazer. Ele fez e agora acabou ganhando o maior grau: excelente. Assim, consegui manter a minha invencibilidade: todos os meus orientados tiveram o grau máximo, o que é, mesmo neste clima de tolerância às vezes tão exagerada, uma grande façanha, principalmente quando eu penso que duas das teses de doutorado estiveram quase indo a pique. As de mestrado sempre navegaram em mares serenos.

27.04.95 – Gilda viaja para Portugal e, talvez, Espanha. O motivo central é uma homenagem a Jorge de Sena que será realizada no Porto, na condição de Coordenadora-Geral da Coordenação Nacional dos Centros de Estudos Portugueses do Brasil. De pires na mão, também é claro. Mas haverá encontros de outros tipos, é claríssimo!, e eu quase chego a invejar o que ela terá com a Sarah. Será que ela continua a mesma? Espero que sim, pois, se Gilda disser que ela melhorou, aí é que o “quase” desaparece e eu fico com inveja mesmo.

28.04.95 – Mal Gilda viaja e eu já planejei encher a casa de mulheres, não todas aqui de uma vez, mas tê-las aqui aos poucos. Assim, nos próximos três dias espero a visita de duas que contam a vida por meses (Jéssica e Desirée) e, para não dizerem que só quero as mais novas, uma que já conta a vida por aninhos (Caroline e seus seis). Três mulheres, repararam? É uma indicação de que a safra recente de sobrinhos-netos tem sido marcadamente feminina, valendo lembrar que falam maravilhas da filha de uma bela sobrinha-neta de outra safra, Samanta, cuja filha, minha segunda sobrinha-bisneta, de nome Amanda, deve fazer valer o étimo, e também por parte deste desde já corujíssimo tio-bisavô. Dizem que ela é belíssima, reproduzido o louro tipo de beleza da mamãe. Em uma família de tantas cores de pele, olhos e cabelos, temos no trio mencionado representação do centro e dos extremos, com um lugar comum: beleza. Que prossigam! O terceiro milênio vai continuar bonito.

29.04.95 – Sabemos que as más notícias correm depressa e desta vez não houve exceção: sou informado, alguns minutos após, do passamento de minha irmã Maria do Carmo, a mais velha da família, pois já se aproximava dos oitenta. Não era morte anunciada, já que não havia doença mortal em curso. Mas havia o perigo constante de desenlace, dada a imobilidade que ela precisou assumir em consequência de tombos que levaram fraturas. Houve necessidade de hospitalização e intervenção cirúrgica que quase quebraram os filhos que ainda podem se dar ao luxo de falir. Sabia-se que imobilização naquela idade é perigo enorme, mas apenas um perigo. Veja-se, por exemplo, que a mãe de criação da Gilda ficou anos imobilizada e morreu de velhice mesmo, perto dos cem anos. Saber de tudo cedo permite que se possa ajudar desde o primeiro momento, mas em tais horas uma prole numerosa mostra a sua utilidade: uns tem iniciativa e tempo, outros dinheiro; outros um pouco de tudo, outros nada; mas tudo acaba se resolvendo. Assim, minha colaboração, além do conforto da presença física, esteve em providenciar hospedagem em nossos domínios para a parentada que veio de outros lugares. Com Fernanda dando a eficiente assistência de sempre, não foi problema algum.

04.05.95 – Gilda, já em trabalhos de Congresso no Porto, telefona de surpresa. A alegria de ouvi-la é múltipla: pela qualidade da voz (com muitas características concorrendo para fazê- la rica e gostosa de se ouvir), por ser a voz de quem é e, talvez principalmente, pelo conteúdo semântico. Ela fala de saudades. E que digo eu? Vou fazendo tudo aqui em função de minha amada e com o pensamento sempre voltado para ela. No momento o meu norte magnético está no Porto.

07.05.95 – Gilda telefona, já em Lisboa, agora hospedada em casa de Elsa, o que me dá uma satisfação a mais. Como hoje é “Dia das Mães” em Portugal, ela pensou que fosse aqui também e o telefonema seria principalmente para mensagens às suas mães, que, felizarda, mais de uma ela sempre teve. Ela confirma o regresso no dia 14, ou seja, tenho mais uma semana para dedicar mais tempo ao computador. (Não dá para notar que fiquei mais assíduo? Mas fiquei). Em ela chegando haverá, muito certamente, outras atrações. Alguém deve estar perguntando quem é essa Elsa, cuja casa nos é aberta para hospedagem em Lisboa tão generosamente e pessoa que nós tratamos com carinho tão íntimo. Elsa Gonçalves é a mais notável filóloga de Portugal nos dias de hoje, de uma simplicidade e humildade que a leva ao extremo oposto do cabotinismo. Mas sua obra fala por ela e, assim, é impossível que ela não seja objeto de convites e de honrarias. É como convidada oficial dos organismos que Gilda coordena que ela virá ao Brasil daqui a pouco, mas é como amiga muito querida que Gilda e eu a receberemos.

08.05.95 – Apanho na portaria carta encorpada do Carlinhos. Cada vez menos Carlinhos e mais Carlos Dias Filho, é sobrinho, aliás sobrinho-afilhado, com que posso conversar com mais profundidade. Ir além do “Como vai você? E os mais próximos? Tudo bem?”. O problema é que as conversas de viva voz são bissextas (ele vive em São Paulo) e a correspondência pede tempo e cabeça fresca. E um canal livre. No caso escrevi da Europa, sem condições de obter resposta e, assim, de saber se a carta chegara ao destino. De volta ao Brasil, voltei a escrever e tentei contato telefônico. Inutilmente. E voltei a escrever, usando o meu recurso de multiplicar as notas que vou deixando no computador. A carta que acaba de chegar deixa claro que o canal de mão dupla está livre e, assim, vou logo preparando resposta.

18.05.95 – O Parque das Mangabeiras (só 13 aninhos de vida oficial) está sendo reformado aos poucos. São 2,3 milhões de metros (com altitude que chega a 1.400) de áreas de lazer e santuário natural, abrigo de um grande número de espécies de aves nativas, algumas até ameaçadas de extinção, como a juruva. Pergunta para os sobrinhos mineiros: Vocês aí já viram uma juruva? Eu não, assim conto com vocês para me apresentar à dita, quando de minha próxima ida a Belo Horizonte.

18.05.95 – Carta para o casal Miucha/Luiz Fagundes Duarte A ideia, além de dar sinal de vida, é agradecer um bonito livrinho que fornece o essencial sobre vinhos e queijos portugueses, com uma dedicatória em letrinhas de um traço gostoso, a lembrar documento antigo. Que eles tenham se lembrado de mim e de meus gostos foi coisa que me deixou muito envaidecido. Mas cheio de vergonha ao ser tratado por “doutor em vinhos”. Ai de mim! Mas vamos à carta, que transcrevo aqui por temer extravio, já que há dúvida quanto ao endereço:

Caríssimos amigos: O sol brilha intensamente lá num céu azul sem nuvens. Mas a massa de ar polar garante uma temperatura fresca, que só vai chegar a quase-fria à noite. É o Rio que eu mais aprecio: o que vai de abril a setembro. Sei, porém, que estou em minoria, pois nativos e turistas preferem o sol agressivo (mas ótimo para a praia) de novembro a março com temperaturas que chegam em alguns pontos aos quarenta graus. Aqui no meu canto do Rio, o mar, a lagoa e a mata impedem tais exageros, mas ainda assim, não aguento o calor. A solução é fugir para a serra, pertinho, mas bem acima do nível do mar. Dentro desta atmosfera favorável, deixo para amanhã as tarefas profissionais solicitadas “para ontem”, acaricio mais uma vez o livrinho de vinhos & queijos portugueses, ainda na mesa de trabalho...e compreendo que é hora de escrever agradecendo o presente gentil, que tanto me sensibilizou, embora me deixasse muito assustado por chamar um simples aprendiz de “doutor em vinhos”. (Com ajuda de vocês eu prometo ao menos terminar o curso básico). Não me esqueço de nada daquela noite no restaurante na margem do Tejo, noite de um forte impacto visual: luzes, sombras, cores, tudo bem vivo ainda hoje. Não digo que parece um sonho, porque as melhores coisas de minha vida não acontecem em sonhos. Como aquela inesquecível reunião. Ela nos deu tanta alegria que só com a vinda de vocês ao Rio poderemos tentar um gesto de agradecimento. Antes de fechar esta carta surge uma dúvida sobre o endereço. Gilda e eu tiramos a sorte e cada um ficou de usar um dos dois que se apresentaram. Tomara que os dois endereços funcionem e que não haja perdedores no sorteio. Gilda escreve para a Universidade e o assunto principal é agradecer os livros que recebeu agora de vocês. Reiterando meus desejos (nossos desejos) de vê-los por aqui, termino com a promessa de estar com a Gilda na próxima viagem (dezembro?) a Portugal.

O telefonema (Márcia ou Marta?) convidando para a missa de mês da irmã Maria do Carmo aconteceu apenas algumas horas antes da realização da cerimônia. Não havia sequer jeito de eu me comunicar com Gilda, nem com pessoas com as quais tinha compromissos agendados. Mas continuo a bater com insistência e força na tecla de que devemos nos reunir com menores espaçamentos. Motivações não faltam. Até agora tenho usado os aniversários natalícios como pretexto para contatos, mas, de olho no bom exemplo da Irmã Mercedes, estou começando a ampliar a lista. Quero marcar o calendário, minha “memória”, com aniversários de vários tipos: de batismo, de crisma, de primeira comunhão, de casamento, de formaturas e também falecimentos, não esquecendo os fatos privilegiados na vida dos que se foram. Assim, no meu calendário, o mês de junho que se aproxima exibiria mais do que a meia dúzia de aniversários da família: Jorge (dia 3), Francisco (12), Elisabet (14), Conceição (15), Fernanda (17) e Gabriel (19). Estarei em contato com todos, espero, exceção da belorizontina Ção, para qual desde já mando um abraço todo especial e saudoso. Acho importante lembrar as datas memoráveis dos que se foram nem que fosse por um único motivo: fazer os que se foram continuar o trabalho de unir os que ainda estão aqui. Veja-se o caso de um casal. Enquanto ambos vivem , ou ao menos um membro, sua casa costuma funcionar como polo aglutinador da prole & Cia. Desaparecidos os dois, o ponto de encontro enfraquece ou mesmo desaparece, e a tendência é haver uma dispersão. Este é o resultado que os filhos de João e Maria do Carmo devem evitar desde logo, antes que o tempo, com a ajuda do tamanho e exigências desta cidade grande, sedimente separações. Uma série de encontros a se repetirem anualmente seria instrumento óbvio de aproximação. Tais encontros poderiam ser objeto de uma programação feita com antecedência. Costumo dizer que quando se planeja alguma coisa ela pode se realizar ou não, mas, quando não se planeja, dificilmente ela vira realidade. Portanto... vamos planejar encontros, sejam quais forem as motivações.

28.05.95 – Muitos brasileiros estão convencidos de que os norte-americanos são corretíssimos em seus negócios. Ficam encantados, por exemplo, com o tratamento que lá recebem, como consumidores, de vendedores e fabricantes. Em nossas passagens rápidas nunca superiores a dois meses, tínhamos tudo para confirmar essa impressão. Mas bastou ficar por lá mais tempo (1992-1993) para que a continuidade no trato de negócios mostrasse que existem exceções. Deixo as miúdas para citar a mais clamorosa de todas: a briga que tivemos de travar com a IBM (pois é, IBM!) para comprar (!) um computador e, depois, para obter ajuda técnica eficiente (que acabamos não conseguindo) para compatibilizar uma impressora IBM com um computador IBM. (Tudo é verdade, comprado baratíssimo dada a nossa situação de “faculty” na Universidade) O problema acabou sendo resolvido não por gente da IBM, mas por um “curioso” de criatividade latina e paciência e tenacidade de japonês: um amigo português estudante em Santa Bárbara. Mas para resolver um outro problema (receber caução de um locador) a paciência e tenacidade dele não foram suficientes. Nem o conhecimento das coisas locais de amigas norte-americanas que lá deixamos e para as quais apelamos. Com a vinda ao Rio de Pedro e Mariana voltamos a insistir nas tentativas, agora com a atuação do Pedro, outro português. Este, mostrando uma determinação fora do comum, conseguiu, enfim, o reembolso. Como Gilda e eu deixamos operacional a nossa conta no Bank of America, estamos escrevendo ao Banco solicitando o recebimento do depósito do cheque em nossa conta-corrente, sem nosso endosso, o que, tratando-se de depósito, não seria necessário aqui no Brasil. Enfim há burocracias lá e outras burocracias cá. Haverá algum país onde todas elas se juntam?

28.05.95 – Gilda na Casa de Leitura, belo casarão em Laranjeiras que é um prolongamento da Biblioteca Nacional, encerrando, com o brilho que lhe é próprio, um ciclo de leituras de poesias de Florbela Espanca. Em uma tarde de domingo (17 horas), em uma cidade tão cheia de atrações e que se multiplicam nos fins de semana, é digna de nota a presença de vinte pessoas para ouvir falar e falar (quer-se aqui uma participação ativa de todos) de textos literários. Ótima essa ideia de uma casa bonita e quieta, sede do programa PROLER, mas com funções diversificadas, complementares às da Biblioteca Nacional. Antes da atuação de Gilda, na salinha quase vazia, estava eu a degustar o ambiente tranquilo, quando vi em lento voo uma... Pavoeira? Não adianta ir ao dicionário; o referente deve ser procurado à luz de experiências infantis minhas e de meu irmão Domingos, parceiro constante de fantasias. Quando não sabíamos o nome de alguma coisa perguntávamos aos adultos. Quando eles não sabiam... inventávamos um nome. Assim, como não sabiam o nome daquele bicho voador, para nós passou a ser pavoeira: um minúsculo mosquitinho(?) com uma penugens bem maiores que seu corpo, conjunto que nós remetemos ao pavão. De voo muito lento, era facilmente compelido a pousar em nossas mãos, e, assim, ser objeto de demorado exame. Como o que acontece na infância fica gravado com força na mente, tenho certeza de que o Domingos saberá ainda hoje o que é pavoeira.

09.06.95 – Conta o sambinha: “A primeira Escola de Samba surgiu no Estácio de Sá”. E o seu primeiro mestre-sala, o pioneiro, portanto, foi Bicho Novo, que acaba de falecer, com mais de 80 anos. Vivia na alegria e na pobreza, “descolando” uns trocados como engraxate, mas conheceu o reconhecimento. Era não só conhecido, mas querido e respeitado e, glória das glórias, foi enredo de desfile de uma Escola de Samba (das pequenas). Era uma lenda viva, ele que conviveu com gente que só a morte tornou lendária. Mas estou certo de que no futuro pessoas assim terão um reconhecimento ainda maior.

12.06.95 – Vi com “insopitado orgulho” uma reportagem na televisão a respeito da importância que uma sociedade de amigos do Jardim Botânico teve para a recuperação do mesmo. É que Gilda e eu somos membros pontualíssimos dessa sociedade, o que nos dá alguns direitos, como o de entrar nas dependências do Jardim fora do horário normal de visitação. Assim, para comemorar o Dia dos Namorados, retomando uma prática que a viagem aos EEUU e a longa permanência lá não permitiram virar hábito, fomos dar uma caminhada pelo nosso “quintal” já na hora do crepúsculo, que acontece mais cedo no outono, com o Jardim já fechado para o público. Sem este os animais mais tímidos comparecem. Valeu por ver uma ave de grande porte, talvez aquática, pela primeira vez. Mas valeu principalmente por encontrarmos lindamente iluminado – e, melhor ainda, reformado – o casarão construído em 1576 às margens da Lagoa Capopenypau (lagoa das raízes chatas). Em 1660 o casarão passou a ter o nome de Engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, após ter sido comprado por Rodrigo de Freitas de Melo e Castro (de quem a lagoa acabou tomando o atual nome) e repassado por ele para o Estado. Nosso “quintal” está mais bonito do que nunca!

04.07.95 – O hábito de madrugar às terças-feiras para ir ao campus da Ilha do Fundão me convida a dormir um pouco mais cedo nas segundas. Assim, perco um excelente programa, na TV Globo, de dança e música erudita, avançando muito pela madrugada, horário “perfeito” atingir o público que precisa de iniciação nesses tipos de arte, que geralmente andam juntos. Como já estamos em julho, com as aulas concluídas, organizo os horários mais ou menos à minha vontade. Assim, nada tendo programado para a “madrugada” de hoje, terça, fiquei vendo o programa de ontem, que, na verdade começou já no dia de hoje e terminou lá pelas três da madrugada. Foi apresentado na íntegra o balé “Romeu e Julieta”, na versão do... do quê? Para escrever de acordo com a ortografia ainda em vigor seria... Bolxói. Mas quem escreve assim? A força do inglês se mostra também na apresentação no discurso em português de nomes estrangeiros. (Isto vale um comentário profissional, mais longo) Assim,... Bolshoi. O papel de Julieta é dançado por Natália Bessmertnova. Irek Muhamedov é Romeu. Alexei Fadeiechev é Páris. Já vi dançar ao vivo a Bessmertnova e, várias vezes, Fadeiechev. É possível que tenha visto outros dos excelentes bailarinos, incluindo Irek, pois já acompanhei algumas temporadas do grande conjunto russo. Embora a coreografia tenha grandes momentos, continuo com a sensação de que a música de Prokofief merecia ainda mais. Quanto aos bailarinos e bailarinas nada a exigir mais: são simplesmente o máximo.

Um outro programa foi “Carmina Burana”, de Karl Orff, versão da Filarmônica de Berlim, sob a direção de Seiji Osawa. Uma produção bem internacional, com um coro adulto composto por orientais e solistas de diferentes países. O bonito e excelente soprano, Kathleen Battle, tem todo o jeito de “American colored”. Meu contato com a obra aconteceu há muitos anos em Porto Alegre, em versão também dançada, com coreografia de Joos. Foi um impacto! Agora, desfeita a surpresa, ainda ouço com prazer. Nesta versão, sujeita a comparações com tantas versões que já conheço, posso dizer que gostei bastante das partes VI (Blansífor et Helena) e VII (Fortuna imperatrix mundi). (PL/CC)

Uma citação do escritor búlgaro Elias Canetti (1905 – 1994) aparece na “Folha”. “Aprender é a arte de ignorar”. É mais difícil penetrar no sentido dessa frase do que no de outra que colhi há muito tempo de Otto Maria Carpeaux: “Cultura é aquilo que fica com a gente quando a gente se esquece de tudo o que aprendeu”. Mas no meu entender ambas apontam para o mesmo alvo (PL/CC)

08.07.95 – Com boa repercussão na imprensa e grande comparecimento de público (colunáveis, caixas altas, artistas & Cia. incluídos), hoje houve vernissage de José Paulo Moreira da Fonseca. Foi uma retrospectiva, mas ganhou o título de Geometria Lírica. Assim, só as obras com tais características figuram no bonito catálogo da exposição, mas a retrospectiva vinha desde os primeiros passos, timidamente escorados nas obras de grandes mestres. O local da exposição foi perfeito, a Vila Maurina, que foi residência dos Pereira Carneiro. (Foi perfeita a assessoria do vizinho Horácio para o estacionamento). Todas as obras, não muitas, que estavam à venda foram compradas na noite da inauguração. Um sucesso em toda a linha! José Paulo é o pintor de quem temos em casa o maior número de obras e a primeira foi adquirida com intermediação do Padre Lemos. Assim nos lembramos do amigo comum Padre Lemos e isto ficou registrado na dedicatória que José Paulo nos ofereceu no catálogo. José Paulo queria saber quando Padre Lemos voltaria. Agora, com a nova carta, podemos dizer a ele que o regresso de Padre Lemos se dará ainda neste ano. Deus seja louvado!

20.07.95 – Um telefonema de Susana (née Beranger de Souza) alusivo ao “dia do amigo”, fico completamente surpreso e, é claro!, muito alegre pelo contato, mesmo apenas telefônico, com a amiga muito querida, que, entre muitas alegrias que me deu, proporcionou a de casar-se com pessoa também muito querida. Estamos há tempos planejando recebê-los em nosso ninho na serra para, com a tranquilidade que lá se tem, dar- lhes um pouco do muito carinho que merecem. Mas... se nem em período dito de férias estamos conseguindo ir lá... de tanto trabalho aqui no Rio... o que fazer? Pego o meu calendário para registrar a data e, pela primeira vez, vejo o que estava ali até com destaque: dia 20 de julho, Dia da Amizade. Volto então a meu tema de 27 de maio para insistir na aprovação a tantos dias disso e dias daquilo que estabelecem ou tentam estabelecer. Para os objetivos dos promotores (vendas de artigos para presentes) nem sempre a coisa funciona plenamente, mas pode valer muito bem para estimular contatos. Como aconteceu com minha amiga Susana. Valeu e muito!

Escrevendo uma vez por semana na página “quadrado” do suplemento “Domingo” do JB, Veríssimo pode ser mais imaginativo Tenho sobre a minha mesinha, no momento, uma página onde ele imagina o futuro, no Rio de Janeiro, se por cá tivessem ficado, pessoas famosas que andaram por aqui: Charles Darwin, Sarah Bernhardt, Saul Steinberg, Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss e Orson Welles. Não fariam nada mais na vida, mas acredita o Veríssimo que viveriam em melhor forma na cidade que era a cidade maravilhosa em muitos sentidos. Mesmo escrevendo no seu “quadrado” (caixa ou box, como outros preferem) Veríssimo tem seus dias especiais. De minha parte, guardei com carinho o quadrado (que escrevi acima entre aspas porque é um retângulo) de 14/07/95, onde, sob o título de “Resistência”, ele escreve sobre... política? Nada disso! Escreve sobre … calças, talvez para desapontamento da “ex-esquerda”. A importância para mim vem do fato de eu ter criado a “minha” moda, principalmente em relação a calças. Isto a partir do momento em que desoladamente vi no meu armário calças e calças de bocas estreitíssimas ou larguíssimas, todas mais recentes do que as de boca de tamanho normal, que lá ficaram esquecidas no efêmero reinado das “radicais” em abertura de boca. Estas agora parecendo o que sempre foram: ridículas. Passei então (contra aguerrida oposição doméstica) a me agarrar a um padrão que chamo de clássico, até mesmo para calças rancheiras (jeans, para os íntimos). Pois o tal quadrado do Veríssimo fala da sua adesão e fidelidade a um tipo de calças dessa família. Ele fala da sensação que menciono acima: ver que suas calças, tidas como antigas, em dado momento voltam como o último grito da moda. Para, certamente, na próxima semana estarem fora de moda outra vez. No final há um consolo para quem esperava mais uma fustigada no campo da política: “Mas há uma lição nisso tudo para os que se sentem deixados para trás por modas triunfantes. Segurem as calças. Não desesperem. Acima de tudo, não sucumbam à vertigem da adesão, por mais que ela tente. Cedo ou tarde, mudam os manequins”. Isto é consolador porque vale para qualquer opinião política que o leitor tenha. Todos terão seus “quinze minutos”de moda. (Os famosos minutos “Andyanos). O doloroso é que, ao contrário do que acontece no mundo das roupas, algumas dessas modas políticas exageram nos “quinze minutos”... Param seus relógios mas não imitam os ditos que, quando parados, estarão certos a cada dia por apenas uma fração mínima de tempo.

21.07.95 – Ao ver a fotografia do Presidente FH no jornal, paramentado para a cerimônia do doutoramento honoris causa em Coimbra, um carioca simples do povo diria que “o presidente estava com uma capinha cheia de parangolés e com um bigorrilho incrementado na cabeça”. Jornalistas matreiros devem ter sentido a coisa assim, mas bordejaram a questão. Um, em nota curtíssima, afirmou não ser verdade que Joãozinho Trinta tenha assinado contrato para reformular os desfiles, trajes e alegorias da Universidade de Coimbra. Outro, não só assinou (Artur Xexéo) como incluiu-se na nota “Clóvis Bornay deve ter morrido de inveja ao ver nos jornais de ontem a foto do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Portugal, fantasiado de algo assim como Esplendor, ascenção e queda do rei Sol na corte das amazonas douradas” Pois é... estão vendo como os brasileiros levam tudo na gozação? Isto me lembra uma conversa entre o cineasta Cavalcanti e um grupo de amigos meus, grandes gozadores. Diziam estes a Cavalcanti que os ingleses não precisavam de um período especial de carnaval porque lá havia carnaval o ano todo: mudanças de guarda, desfiles de rainha, etc. O ingênuo Cavalcanti não “morou no espírito da coisa” e pacientemente professoral, explicou aos “meninos” que aquilo não era carnaval e sim tradição .(PL)

24.07.95 – Mesmo, como informa, “tão mergulhado em leituras mil”, Padre Lemos lá em Roma bondosamente não esquece da dupla Gilda/Emmanoel e nos manda interessantes recortes de jornal, com comentários de próprio punho. O artigo “Le parole tuttofare”, sobre o tal discurso norte-americano “politicamente correto”, vai para o meu arquivo. Um outro, sobre Noam Chomsky, já pelo título (“quando la veritá è antiamericana”) deixa claro que não vai ser sobre linguística. Tem o mérito de criticar o Chomsky polemista político sobre bases inteligentes. Um outro, sobre educação na Itália, leva o amigo Lemos a concluir, vendo tudo tão igual, que “tutto il mondo è paese”.

27.07.95 - Recebo visita bem matinal de Irmã Mercedes, com a papelada dela e do mano Padre Domingos, exigidas para a obtenção de passaporte. Minha função: datilografar os formulários. Só assim começo a ficar seguro de que finalmente consegui(mos) um período de férias para nosso irmão. Lá para outubro. Agarradíssimo à Paróquia de Santa Rita (Turiaçu) ele se deixa sugar por tudo e todos e não tem tempo para mais nada. Há meses estou tentando fazer, sem êxito, com que ele venha comer aqui, como fazia antes, o peixe sextaferino da Dona Diná (Até parece com um certo sacerdote, ora em Roma, difícil de ser atraído pelas nossas fracas iscas). De qualquer forma, toda essa dedicação do mano padre deve ter dado bom resultado, pois os superiores ficaram satisfeitos com o seu trabalho. No que diz respeito ao trabalho com as crianças eu posso testemunhar que ele foi um sucesso. A missa das crianças, por exemplo, rotineira como tantas outras, mais endereçadas a adultos do que a crianças (resultado: pouca presença), transformou-se em missa com igreja (que não é pequena) lotada de criançada alegre e participante, tudo conduzido com a cooperação de catequistas e professoras. O caso é que os paroquianos estão agora preocupados com o futuro de tudo isso, já que os superiores querem que Padre Domingos repita o sucesso em outra paróquia, vizinha, necessitando de um choque de entusiasmo. Enfim, como a paróquia é vizinha, pode ser que os paroquianos – e as crianças em especial – não fiquem órfãos de todo. Irmã Mercedes e eu achamos que era hora de aproveitar essa mudança de pouso para forçar férias para Padre Domingos, o que foi conseguido com a cumplicidade dos superiores de ambos e alguma chantagem (Irmã Mercedes só viajaria, se Padre Domingos viajasse). O dinheiro sairia de um irmão que, para espanto de Irmã Mercedes, selecionou a mais cara opção de “excursão piedosa”, ou seja, a que passaria pelo maior número de lugares, de Portugal, Espanha, França, Itália e Terra Santa.Assim, em outubro, eles estarão em Roma, fazendo aquilo que todos fazem, e terão uma tarde livre. Desde já, portanto, vai o meu pedido dessa tarde ao Padre Lemos, para recebê-los (levá-los a algum lugar, se for o caso) e mandar o que quiser, pois eles estarão regressando e, certamente, sem bagagens dignas desse nome.

29.07.95 – Um humorista de primeira é instalado em um “quadrado” (as linhas bem marcadas) em um jornal e, como é humorista, pode falar sobre coisas sérias sem rodeios, fazer críticas contundentes, etc., até mesmo sem qualquer humorismo. Isto não é novidade e agora acontece com o Veríssimo, no JB. Mas ele está exagerando na dose. Dias após dias o seu quadrado é usado para fazer críticas ao atual presidente, o FHC, talvez justificáveis, mas... qual a graça? Ou Veríssimo não acredita no “ridendo castigat mores”? Alguns leitores do JB já começam a transformar em cartas seu desagrado. Há quem imagine estar Veríssimo apenas interessado em agradar à “ex-esquerda”. Outros apenas manifestam seu estranhamento, sem chegar a diagnósticos. Esse rótulo “ex-esquerda” me leva ao elogiado livro do cineasta Arnaldo Jabor, “Brasil na Cabeça”, onde ele diz que “a esquerda brasileira existe como nostalgia da esquerda”. Pois é... mas existe. Mesmo desmoralizada com a derrocada do socialismo do leste europeu. É preciso, digo eu, ser indulgente com um dono de “quadrado” diário. Fazer graça, criar aquela tirada genial, dia após dia, não dá. Há limites para a imaginação, para a criatividade. Carlos Drummond de Andrade sentia bem o problema e o enfrentava de variadas maneiras, até mesmo pegando uma palavra qualquer e dissertando sobre sua etimologia. Vindo de Drummond isto era bem-vindo, mas não sei se os leitores gostariam de ver o Veríssimo entrando nessa praia. (Aliás, após eu ter escrito isto ele já entrou. Mas sempre há coisas engraçadas na praia da etimologia... e ele aproveitou). Falar mal dos poderosos do dia, criticar as desigualdades sociais, etc., são coisas que não pedem erudição e podem agradar até mesmo dispensando o bom humor. O que me leva – via comentário de Wilson Martins ao livro de Jabor (JB, 17.07.95) – a um trecho de carta de Graciliano Ramos a Portinari: sem a miséria a obra de escritores e artistas não poderia subsistir. “Tem muito intelectual e artista vivendo da miséria – aqui e lá fora. Miséria também é mercado”.

Para Gilda, que tanto reclama de homilias mal feitas e vive pedindo que os padres sejam realmente preparados para essa tarefa, guardei a página que Veríssimo ocupa no JB (Revista Domingo) de 12.03.95. Nessa página ele se sente na obrigação de ser engraçado, sem perder a oportunidade – como no caso – de atirar suas farpas no Presidente e seu grupo. Mando a dita na íntegra para o Padre Lemos, mais para diverti-lo, pois ele não precisa dessa lição. Costumo dizer à Gilda que ela não pode deixar de admitir que nem todos os pregadores são Padre Lemos, ou seja, com capacidade de falar bem (ou seja, em discurso adequado; não preciosista) e para ela. Na verdade, trata-se de uma anedota que o Veríssimo espichou para “render” uma página inteira. O essencial está na última fala do anjo e tudo o que vem antes poderia caber em um parágrafo. Resumindo, seria o caso de um padre (de longa militância e vida regrada) que chega ao céu junto com um motorista (“certamente um pecador”) e se vê preterido pelo talvez praguejador cidadão. Manifesta o padre o seu estanhamento: “Ele serviu mais do que eu?” O anjo-auxiliar-de-portaria explica: “Muito mais. Cada vez que o motorista fazia uma curva, os passageiros rezavam a Deus e prometiam que se saíssem daquela se regenerariam. Na sua opinião, quem trabalhou mais por nós?” Costumo dizer à Gilda que ela deve montar um curso de forma de homilia e tentar “vendê-lo” aos seminários. Esta anedota seria uma epígrafe perfeita para o curso...

29.08.95Trecho remontado de carta escrita para o querido amigo “Don Fernando de Salamanca” no dia 8, mas só hoje remetida (que vida!): É evidente que ficamos honradíssimos por V. ter-se lembrado de nós ao escrever “O Elogio da Comunicação Indireta” e nos ter dedicado o trabalho, ainda mais porque se trata de um solido texto. Claro que gostaríamos de comentar agora, mas estamos sem a calma necessária para fazer isto da melhor maneira a nosso alcance. Esta carta está seguindo somente hoje porque ficou esperando a colaboração de Gilda, que está, como coordenadora geral dos Centros de Estudos Portugueses no Brasil, freneticamente disparando correspondência para todos os lados em função dos próximos eventos. A correria aqui é incrível. Problemas maiores são os compromissos que surgem de repente. Fazer parte de comissões (de Pós-Graduação, de Revalidação de diplomas,etc.) e ser suplente de bancas (de teses, de concursos, etc.) é ter uma bomba armada que pode explodir a qualquer momento. Vamos aceitando ser suplentes, apenas a título de colaboração com colegas (afinal... é só ter o nome lá e dar uma olhadela sem maiores compromissos na tese) e terminamos com uma grossa tese para ler e julgar em alguns dias, com a agravante de não exatamente a nossa especialidade. Já se vê que este é o meu caso no preciso momento. Um titular declarou “forfait” e cá estou praticamente com um fim de semana para enfrentar “Prosódia e Sintaxe: Delimitação e Contraste de Estruturas” de Myrian Azevedo Freitas. E Gilda? Gilda (além das mil e uma atividades habituais ligadas à cultura lusa) resolveu aceitar mais aulas na Universidade. Não melhora o currículo, nem ganha um centavo a mais. (Mas a cultura lusa...) Hoje está “enfrentando” quatro(!!!) turmas: doutorado, mestrado, graduação, extensão... Assim fica mesmo muito difícil manter a correspondência (que não é nada pequena) em dia. Mas, justiça seja feita, ela acaba respondendo. Provavelmente... tudo de uma vez.

30.08.95 – Para todos os aniversariantes de setembro, os nossos parabéns e votos de felicidades que os destinatários sabem ser sinceros de verdade. Vou separar umas lembrancinhas alusivas às datas, para levá-las quando eu for a Belo Horizonte. Acredito que em outubro será possível se eu planejar com antecedência, como estou fazendo. Não vejo a hora de ver Santana dos Montes, para saber se estarei revendo Santana do Morro do Chapéu. Deu para entender? O Sílvio sabe da história e explica. Agora digo apenas que Santana dos Montes está em uma região onde visitei, na pré-adolescência, uma cidadezinha chamada Santana do Morro do Chapéu, que me surpreendeu com uma vitalidade musical (ouvi duas bandas de bom tamanho, uniformizadas a capricho) que eu não esperaria em lugar tão pequeno e afastado. Quero ir lá de novo!

01.09.95 - Trecho do relato (ligeiramente adaptado) de um cidadão carioca, objeto da violência da cidade grande:... fui fechado por um Tempra novo... Como não foi possível parar o tempo, meu carro colidiu com ele. Instantes depois chegaram os funcionários do município. Perguntando se estávamos bem, dispuseram-se a trocar o pneu do meu caro, que, depois, verificamos ser inútil, pois, além da lataria, a suspensão também estava comprometida. Com cones de borracha e lanternas logo agilizaram o trânsito, enquanto o guincho que haviam chamado chegava para rebocar o meu carro até o posto da CET (o serviço municipal). Providenciaram o registro da ocorrência, nos ofereceram água, café, acesso ao telefone e ainda ligaram uma pequena TV para distrair minha filha. Por fim, nos deram uma carona até o início do Leblon, onde pararam um táxi que nos levaria para casa. O que chama atenção nessa narrativa é a assistência que o cidadão e sua família receberam de funcionários municipais, sem qualquer sinal de estarem “fazendo média” para “descolar” uma gorjeta. Assistência que ele, adotando esse novo modo de elogiar, diz ser de “primeiro mundo”, mas que a minha experiência de “primeiro mundo” (que já não é pequena) diz não ser bem assim. Aqui entre nós só um acidente muito grave despertaria tal solidariedade, que eu, aliás, já experimentei. Com papai e mamãe feridos (já nem falo em mortos) a menininha teria recebido assistência maior o que um café e acesso à TV. Mas tudo isso por uma batida sem importância maior? O caso é que – e aí é que está o que de fato espanta – esse procedimento descrito é rotina no serviço municipal em causa (Mas ver nota abaixo). São essas ilhas de excelência um dos fenômenos que impedem que eu perca a fé em um Brasil melhor no futuro: um Brasil recuperando boas coisas do passado, deixando lá para sempre muitas das ruins. (Veja-se que não imagino uma utopia: não digo, por exemplo: “as boas coisas do passado”). Essas ilhas de excelência garantem o avanço (surpreendente para quem não as conhece) do país, em companhia de tanto atraso. Minha esperança é que essas ilhas de excelência cresçam.

Nota melancólica: um dos nossos problemas, porém, é a instabilidade da qualidade das coisas, sejam quais forem. O que descrevo acima como rotina (grifando para mostrar admiração) pode estar deixando de ser neste exato momento. Aqui a meu lado, Gilda, organizando um novo encontro internacional, paga as consequências de ver a deterioração dos serviços de um hotel que, há apenas um ano atrás, era impecável. Ou quase. Os elogios de 1994 viraram queixas em 1995.

Felizmente, existem exceções. Aí está o conjunto de dança “Corpo”, comemorando vinte anos de atividades sempre em nível de excelência. Fomos revê-los com um grupo de amigos estrangeiros e todos ficaram deslumbrados. Para quem nunca viu o grupo dançar chega a ser um choque ver surgir no interior do Brasil tanto talento para coreografia, iluminação, música e técnica de dança, tudo resultando em espetáculos originais e de muito alto nível. De minha parte eu gostaria que tantos conjuntos estrangeiros que nos visitam tivessem apenas a metade do que eles apresentam. Prestigiados dentro e fora do país (ouvi que têm dois anos de agenda comprometida), o “Corpo” é um exemplo que está aí à vista dos (felizmente numerosos e animados) conjuntos particulares de dança. Pois os conjuntos oficiais, que têm a obrigação de manter um alto nível, pertencem a um outro esquema... Nota: O programa acima mencionado (e que causou tanto impacto nos nossos amigos estrangeiros) era composto por “Prelúdios” (Chopin) e “21” (Uakti). No primeiro Rodrigo Pederneiras exibe fluência e elegância dignas de um Balanchine. Já o segundo é tão diferente, tão inovador que não remete a qualquer parâmetro. Foi justamente o que mais impressionou Felizmente consegui um vídeo e na primeira oportunidade vou multiplicar o público do Corpo. O programa do dia seguinte me parecia menos impactante: “Variações Enigma” (Edward Elgar) e “Nazareth” (José Miguel Wisnik, sobre suas obras de Nazareth) Tinha, assim, a mesma estrutura do programa anterior: uma coreografia relendo, com muita novidade e humor, o clássico; no final uma coreografia completamente nova e sem referências maiores. Fomos com duas professoras, amigas recentes: uma portuguesinha e uma espanholinha, galega. Vimos então que coreografia de “Nazareth” só podia não ser impactante para brasileiros; elas ficaram simplesmente maravilhadas, muito principalmente com o “Nazareth”, onde tudo lhes soava como novidade. Eu ia escrever que estavam elas ouvindo pela primeira vez aquela música buliçosa de Nazareth, mas na verdade eu também, na estreia do balé (1993), ouvi pela primeira vez essa música, embora conheça a obra de Nazareth de cor e salteado, como se dizia antigamente. É que a música é de José Miguel Wisnik, fundamentada em Nazareth. Uma releitura, como se gosta de dizer hoje, bastante criativa. Faz um paralelo perfeito com os trabalhos do coreógrafo Rodrigo Pederneiras: mesmo quando baseado nos mestres (e eu penso sempre em Balanchine) ele nunca deixou de inovar.

05.09.95 - Enquanto espero Irmã Mercedes, que logo estará aqui em função de assuntos de viagem, tento “avançar” com minha correspondência. (Como não recebo resposta da imensa maioria dos destinatários de hoje, não posso usar expressões como “dar resposta”: vai então “avançar”, que dá conta do recado). Temos pela frente dias “feriadosos” (7-8-9-10) em que Gilda e eu não iremos à serra: permaneceremos no Rio. É que Gilda está promovendo mais um de seus Encontros internacionais e , assim, não pode arredar pé daqui. Há todo o trabalho do Encontro e mais o dever de ser anfitriã para os nacionais de outras bandas,e, principalmente, para os estrangeiros. Claro que eu entro na jogada, mas tenho as minhas próprias tarefas, que eu deveria realizar aqui ou na serra. (Vejam a nota de 26 de agosto!) Ainda assim, não deixarei de me dar ao luxo de almoçar e jantar nesses dias, para compensar dias “úteis” em que não posso fazer isso. Portanto, se alguém estiver em condições de me acompanhar em almoço ou jantar nesses dias, é só telefonar antes. Prefiro receber para uma refeição, porque essa é a hora em que, estando em casa, eu paro necessariamente de trabalhar. Posso então me entregar a dois dedos de prosa. Casa é para nós local de trabalho nada doméstico. Não é sem razão que estamos desdobrando os escritórios, onde passamos a maior parte e nosso tempo caseiro.

No dia 30.10.95 – dia duplamente reproduzido pelo de hoje (pelo tempo e circunstâncias de regresso, agora meu), Padre Domingos deixou na memória deste computador as seguintes palavras: Dia chuvoso e frio, para os cariocas, mas sempre lindo para quem possa usufruir da paisagem incomum da lagoa Rodrigo de Freitas emoldurada pelo Jóquei Clube e ao fundo o morro do Cantagalo; vista que deleita a qualquer pessoa, mesmo para quem venha de longa temporada em que paisagens maravilhosas se sucederam. A chuva, quando forte e persistente, independente do cenário e que esteja sendo despejada pelas nuvens, é sempre um convite à meditação, um bem sempre em crescimento num mundo cada vez mais confuso, todavia sempre e mais fascinante. O meditar nos leva a pensar mais fortemente nas pessoas que amamos, principalmente depois de uma separação por um tempo relativamente grande. Os rostos amados, e consequentemente lindos, se sucedem em nossa mente como se presentes. E realmente estão no cérebro, no coração... Quando se ama, não há como esquecer, pois a distância tem o mérito de valorizar a pessoa amada ausente, cuja presença nosso ser reclama. Assumidos pela s a u d a d e que reina imperiosa, até sofremos em adivinhar querendo o que estão a fazer, agora, neste momento aquelas pessoas que tanto bem queremos. E a indomável imaginação que não tem limites nos leva à exaustão. S a u d a d e s... Pensando em vocês, eu assino as palavras do Padre Domingos.

Lisboa, 22/12/95

22 a 30/12/95

A espera pela partida foi longa (2 horas), mas o voo para Portugal foi bom. Encontramos Lisboa chuvosa, como a vi há 20 anos, só que a temperatura agora era 12º, no lugar dos 7º da 1ª vez. Grande alegria e conforto foi ver Elsa, pequenina, irradiando presença a de pequena multidão, no saguão de espera do aeroporto. Instalação e pernoite na gostosa casa de Elsa e lá nos vamos passar uns dias, incluindo o Natal, na Areia Branca, na casa de praia do José Paulo (aliás, Senhor Desembargador José Paulo). Maria de Lourdes (Senhora Dra. Professora Maria de Lourdes). O que vai entre parênteses é apenas um a homenagem ao jeito cerimonioso de os portugueses se tratarem(Creio mesmo que um pouco de e circunstância enfeita a vida)

22 a 30/12/95

Na, verdade, na casa da Areia branca, somos hóspedes mesmo é de Elsa, pois ocupamos as dependências que usualmente são dela. E que são ótimas. Sei que Gilda e eu gostaríamos de oferecer a nossa casinha de Araras com banheiro privativo e outras mordomias aqui presentes. Na Areia Banca dormimos muito, comemos muito, bebemos, com algum brilho, vinhos excelentes da terra e demos alguns passeios pelos arredores. O destaque foi uma capelinha (N. S. dos Remédios) em sítio privilegiado, à noite, à beira-mar. Nos intervalos honramos a farta cozinha de Maria de Lourdes. Na véspera da despedida(27/02/95) fomos a um excelente(e de ótimo preço) restaurante da terra: a Adega Real.

Dia 28 é o dia do regresso a Lisboa, com Gilda outra vez a brilhar no volante. A chuva parou, mas já o dia seguinte (29) estava de chuva, fininha, o que, ajudada pelos 11ºC nos levou a ficar em casa, saindo apenas para o trivial: correios, supermercado. Mando a prova revista, pedida pela minha editora, torcendo para que o livro saia mesmo neste verão (daí). No dia 30 a chuva para um pouco, Gilda e eu vamos então ao centro e subimos o Chiado para a clássica visita ao João, joalheiro saído das página de Eça de Queiroz. Gilda tem peças para conserto e sempre faz a varredura cuidadosa que é de seu feitio. Acaba escolhendo uma linda salva de prata que o João lhe dá de presente! Prêmio por indicar a loja a amigas grandes compradoras. Mas ele também sabe que, daqui a dois meses, de volta e com menores cuidados com o dinheiro, Gilda e eu estaremos fazendo. às pressas, as clássicas comprinhas de despedida.

No último (ainda chuvoso) dia do ano a única saída é para ir à missa (nos Jerônimos) e compra de jornais e semanários. Leitura garantida para o resto do dia. A passagem do ano é feita em casa mesmo (da Elsa), com presença de José Paulo & Maria de Lourdes, de uma sopa de peixe, de um lombinho magistral (assinado por Maria de Lourdes) e dos vinhos sempre perfeitos de José Paulo.

Ficamos a fazer coisas em Lisboa esperando a chegada de Cleonice para, então fixarmos nosso cronograma e marcar as viagens mais longas. No dia de meu aniversário (5/jan) ela chegou dos Estados Unidos e nos falamos por telefone. Não pode atender meu convite para o jantar de aniversário, mas Gilda já programou uma mini temporada com ela na casa de Alexandre Herculano, hoje uma pousada. O jantar aconteceu em restaurante de luxo para cinco pessoas. Excelente vinho, escolhido pelo “expert” José Paulo, desembargador, mas “somellier” (escanção) por gosto, ou, ainda segundo o saudoso Celso Cunha, “doutor em vinhos”. A comida não fica atrás, nem as sobremesas (que eu não comi, preferindo queijos).

No dia seguinte (6), a chuva continuava a limitar nossos passos, mas não deixamos de andar. O melhor, e mais longo, ficou para a noite, quando fomos a uma tertúlia literária, realizada em ambiente criado em casa particular. Mas para entrar no recinto é preciso pompa e circunstância, e todos recebem uma capa de tipo acadêmico. Tudo, já se percebe, na maior gozação. A palestra e as intervenções, porém, são sérias. Nesta noite falou a Ana Vicente, da “Comissão... da Mulher”.No final dos debates, vinho do Porto e doces. Pois afinal, estamos em Portugal. Ganhei um bombonzinho, do tipo do que Gilda comprava em criança no soto (sic) do pai da Edite Estrela, a atual prefeita (?) de Sintra. O tal docinho é a “Madeleine” de Gilda.

Hoje, 7/1/96, encontro com Cleonice nos Jerônimos e almoço aqui em casa com ela, José Paulo, Maria de Lourdes (assinando o “menu”) e, claro, Elsa, Gilda e eu. À noite, a grande emoção de abraçar o Fernando, nosso amigo leitor em Salamanca. O convite foi para uns comeretes e beberetes que acabaram, de pouquinho em pouquinho, em um festival gastronômico. O final é um prato da cozinha alentejana, com carnes e ameijôas (vôngoles). E mais vinhos diferentes foram ter à mesa. Fernando quer falar e fala, das venturas e desventuras em Salamanca. E quer vingança! Como se trata de promover punição para quem a merece... acho que faz bem.

Mais um dia de chuva e ventos: 8/01/96

Hoje a dose de chuva foi bem forte e houve cheias por toda parte. O vale de Santarém, objetivo de nossa viagem com Cleonice, está alagado. Em Lisboa também choveu demais e a cidade ficou um caos. Gilda sai, pois tinha encontros oficiais, ao lado de Cleonice. Eu fico em casa e só, pois a “mulher a dias” telefonou para dizer que se molhara toda pois sequer conseguira abrir o guarda-chuva, tal o vento, muito menos achar transporte. Leio “La Menzogna nel Linguaggio”, de Fausto Gianfranceschi, por indicação de Elsa.

9/01/96:

O sol dá um arzinho de sua graça. Na frente das livrarias vejo “Os Lusíadas” traduzido para o Alemão. Resolvo decorar algumas estrofes para surpreender e homenagear a queridíssima Ana Luiza. Mas fico no “Die Waffeu und dia Stolzeu.”

Lisboa 10 de janeiro de 1996.--- Finalmente, o grande dia, 10/01/96, em que Cleonice Berardinelli vai receber o título de “doutor honoris causa” da Universidade Clássica de Lisboa. Gilda e eu acompanhamos a cerimônia com Elsa, Simone Caputo e o cônsul de Portugal no Rio, que me honrou sentando-se a meu lado; e que logo depois, surpreendentemente, me faz algumas revelações. A dita cerimônia acabou sendo mais curta do que nos ameaçavam; não chegou a três horas e meia. O fato é que, em cerimônia não exageradamente longa, houve discursos e-xa-ge-ra-da-men-te longos. É preciso descontar também o tempo dedicado ao coral, afinado e com um belo naipe de portuguesinhas acadêmicas.

Paulo Freire também estava recebendo o “honoris causa”. Recebeu “in absentia”, já que está bem doente. O discurso de seu paraninfo foi muito bom, bem como o da “madrinha” de Cleonice. Esta, a meu ver, foi a que falou melhor e com mais emoção. Ela sabe, em grau de excelência, colocar afetividade na representação.

Já que estamos em Portugal, finda a cerimônia há um Porto (uísque, vinhos, etc, etc.) de honra, com um farto serviço de salgadinhos. Saciados, saímos daí para um jantar coletivo (23 pessoas dos aderentes ao fã-clube de Cleonice) no “O Caleidoscópio”. “Mal acostumado” aqui a só beber vinhos brilhantes, bebi pouco, torcendo um tanto o nariz para os que foram servidos. E os vinhos até que não eram maus... Daí a ressalva “mal acostumado”.

Hoje, 11/01/96, foi dia extremamente produtivo. Nem almoçamos “de verdade”, à portuguesa, limitando-nos a fazer uma refeição ligeira no café do teatro D. Maria I, com direito a usar as instalações sanitárias do teatro. Uma graça! O destaque do dia foi a ida à Cinemateca Portuguesa. Queríamos uma informação. Saímos com várias e com uma permanente para o mês de janeiro. Pena que a chuva e nossa agenda estejam limitando drasticamente a possibilidade de usar bem essa permanente. Saímos da cinemateca encantados com a gentileza e eficiência (incrível rapidez no “gatilho”) da Joana Pimentel, que, além de tudo, é dona de extrema simpatia. Joana Pimentel, aí está um nome para se guardar. Saiu no “Diário de notícias” notícia, de bom tamanho, do “honoris causa”, com grande foto e Cleonice em destaque nela.

Começa mais um dia, 12, com sol (palidozinho) e chuva a se alternarem. Quando chegamos a Lisboa, vindos do Brasil, no dia 22/12/95, já chovia desde o dia 8. Nesse dia houve aqui no interior uma procissão para pedir chuva (há lugares com seca de 7 anos) e a resposta foi tão rápida que a imagem ficou molhada. Ora, os velhos garantiram que se aquela imagem for molhada há chuva por 40 dias. Pois estamos chegando lá. É debaixo de forte chuva e vento que Elsa, cheia de dores (artrite), pega o táxi para ir pegar o trem para Anadia, acima de Coimbra. Reunião de comissão que ela integra e de que, com todas as desculpas que poderia ter uma jubilada de frágil saúde, poderia se ausentar. Mas o acendrado profissionalismo a impede disso. E lá vai ela. Dia ainda escuro, eu a levo até o táxi e volto para a cama. Mas Gilda logo se levanta para os encontros oficiais do dia (mais tarde saberei que deram resultados), nos quais não contará com a companhia de Cleonice, de pressão alta (quem sabe em razão da agitação e emoção do dia do “honoris causa”). Fico assim só em casa e faço refeições leves, para compensar. Quanto a vinhos, resolvi nesta temporada usar a minha prática brasileira: beber menos e melhor. Já que os amigos sabem que eu gosto de vinhos e me oferecem com generosidade os melhores, então eu só bebo quando estou com eles. Isto pede grande disciplina, pois a temperatura exige “aos berros” muitos e fortes vinhos. Mas não fiquem com pena de mim: tenho (a Elsa tem a meu serviço) uma garrafeira em cada casa (a casa matriz e a casa escritório) com vinhos selecionados. E, sem precisar atravessar a rua, há aqui ao lado uma garrafeira comercial com grande coleção de vinhos nobres. Além disso, se por um lado evito comprar vinhos por disciplina (só compro alguma coisa muito diferente e especial), por outro já ganhei tantas garrafas que o “bom senso” me aconselha a beber algumas para diminuir a bagagem. (O “bom senso” não fala nada sobre a possibilidade de eu presentear por aqui mesmo, pois são vinhos nobres, bem marcados e de safras ainda mais. Ora, como meus amigos enófilos se conhecem, pode acontecer que alguém venha a saber que dei de presente uma garrafa que outro me deu de presente por uma deferência toda especial. Mas...fico em dúvida agora: há sinceridade nisso?)

Dia 13/01/96, sábado e vida que segue. Já não estaremos Gilda e eu mais sós em casa, pois vamos receber Elsa em Santa Apolônia, vinda de Anadia. O dia passa ligeiro, pois, estamos no exterior em casa de amigos (e não no hotel), e, com a chuva constante ajudando a permanecer nela, podemos fazer uma série de coisinhas necessárias ao serviço de casa, ou de outras naturezas. O jantar é na casa nova de Luís Fagundes & Miúcha que reuniram Cleonice, Ivo de Castro & Isabel Pires de Lima, Jorge Silveira, Belinha, João Dionísio & Paula, sua linda e simpaticíssima esposa, mais nosso trio: Elsa, Gilda e eu. Reunião mais que agradável: comida regional açoriana excelente, vinhos de ótimos a mais do que isso (um destes ainda por cima raro!), conversa de interesse geral. Valeu!

Hoje, 14, domingo, o destaque não vai para as eleições presidenciais (a vitória de Sampaio sobre. Cavaco é certa), mas para o almoço em casa de Helder Godinho. Lá encontramos, além de uma soberba feijoada portuguesa e o ótimo vinho de sempre, uma Conceição (Sra. Godinho) solta e muito comunicativa, alegre em sua casa nova (a julgar pelos amigos, há uma onda de “casas novas” por aqui). Companhia agradável como sempre, seja qual for o assunto, Helder diverte a valer quando o tópico são suas idiossincrasias, sempre fortemente radicais. O ódio ao Cavaco, por exemplo, que levou Gilda a lhe telefonar, por pura gozação, após a confirmação da vitória de Sampaio. Vejo um volante da exposição mexicana que acabamos de ver, dividida em setores. Eram 6 e nós visitamos 4. Um era sobre os muralistas. O volante fala de Gerardo Murillo, Fernand Leal, Roberto Montenegro e Xavier Guerreiro, que, diz o volante, “trouxeram contributos tão valiosos como” os dos “grandes” (José Clemente Orozco, Diego Rivera e David Alfango Siqueiros). Mas, na exposição, só há trabalhos dos “grandes”. Na maioria, cópias ou fotos, pois são muralistas, antes de mais nada. As outras exposições que mais nos impressionaram foram a de arte pré- colombiana (muito didática) e a dos “Altares dos Mortos”, sobre a comemoração que os mexicanos fazem ao mortos, misturando tradições. Fiquei impressionado com as crianças fotografadas já mortas e no colo do pai ou mãe.

Chegou o bom tempo! Hoje, 15/01/96. (Choveu um pouquinho, mas de madrugada) Vamos às atividades que a chuva adiou. E que vejo? Aí estão as mocinhas bonitas que Lisboa vinha me sonegando (e não só nesta vinda a Portugal).

28.01.96 --- A bordo de JOHN P. (o cruzeiro se chama HERMES (ONE DAY) e a empresa é a EPIROTIKI CRUSE LINE), no golfo Sarônico, saindo da Marina de Flisvos e rumo à ilha de Egina. Olho o relógio e vejo que estou no dia 28, ou seja, foram quase duas semanas sem fazer anotação, o que dá ideia da correria que foram estes dias após o fim das chuvas. Estou à mesa de bordo com Gilda e Cecília (Cecília? direi depois). Que andamos fazendo nestas quase duas semanas? É o que tentarei fazer nas linhas seguintes, até onde a memória ajudar. Mas não será agora, pois nossos companheiros de bordo pedem conversa. Não é só a Cecília do início, mas, principalmente, um casal canadense que chegou depois. Mas vamos recuar no tempo e ir ao dia 23/01/96.

Chegamos à Grécia dia 23 e tivemos apenas a noitinha para dar uma volta por perto e conhecer a PLAKA, zona de comércio e restaurantes na parte antiga da cidade. É onde está o nosso hotel (Athens Gate), em frente às imponentes ruínas do templo de Zeus, com apenas 16 (magníficas) colunas das 105 que havia. Logo no dia seguinte (24) começamos um giro pela Grécia, para ver as coisas antigas. Começamos por nos deslumbrar com Delfos, não só as ruínas, mas a magnífica paisagem e a localização do complexo, em topografia de montanha. Na cidade Gilda comprou um belo broche de âmbar. Daí fomos para Olímpia, com ruínas que permitem dar uma ideia do que foi o cenário dos antigos jogos olímpicos: o estádio (sem degraus), o templo de Zeus, etc. Um museu e maquetes ajudam a dar uma ideia de que foi aquilo. Do dia 25 para 26 ficamos na cidade nova, feita para os turistas. Foi a compra mais modesta de Gilda: agulha e linha. No dia 26 fomos para Micenas, que impressiona pelas muralhas ciclópicas, pela acrópole como um todo (porta dos leões, túmulos reais, túmulos de Agamenon, etc.) e o túmulo de Atreu (com seu cone interior e dimensões “à la Egito”. Depois, Epidauro, com o famoso teatro e sua ainda mais famosa acústica (uma coisa impressionante); e mais o museu e o santuário de Asclépios.

Hoje é o dia de conhecer as famosas ilhas gregas. Vamos ver várias e pisar em três: Egima, Poros e Hidra. Fizemos amizade com Cecília, uma argentina de 17 anos, que não tem medo de viajar só. Fala várias línguas (incluindo o alemão materno) e tem já experiência. É uma gracinha e Gilda e eu não pudemos deixar de adotá-la. Primeira parada é Egina, a ilha maior. Recusamos uma excursão ao interior da ilha para ficar perambulando pela cidadezinha. Vimos as igrejas (ortodoxas) locais e, na segunda delas, um casal nos oferece um pacotinho (com coisinhas trituradas, em grande mistura) relativo ao 40º dia após a morte de alguém. Comemos e achamos gostosa a mistura. Certamente é mais um desses costumes pré-cristãos que foram assimilados pelo cristianismo local. A ilha é famosa por seu pistache e tínhamos então de comprar. Atenas nos impressionou pela quantidade de gatos. Pois na ilha também estão eles. Daí fomos a Poros, onde Gilda comprou pequena peça de porcelana e, depois, para Hidra. As ilhas e casario são parecidos. Tudo lindo e vocacionado para o verão. Hydra talvez ganhe. Lá Gilda comprou um labirinto (pingente para pulseira) de ouro. E é bom registrar as danças gregas a bordo, executadas por dois homens. Aqui é assim. A parada em Corinto é mais por razões comerciais, pois querem que compremos cerâmica. Temos uma demonstração e o mulherio logo ataca. Gilda, seletiva, comprou alguma cerâmica, mas também um broche de prata dourada. No dia seguinte vamos para NAUPLIA, que encantou logo a mim à Gilda, apesar do tempo chuvoso. Como chegamos à noite, apenas demos uma sortida, o bastante para ver o encanto da cidade. Lamentamos que no dia seguinte partíssemos sem vê-la. O hotel é espetacular. A entrada é escavada na montanha; é um túnel que vai dar no elevador, cujo poço é escavado na rocha. ( imaginei o Helder Godinho ali!). É um hotel de mais de 5 estrelas, pois é um complexo hoteleiro. Foi o mais luxuoso do giro.

Atendendo às súplicas, de manhã a guia (com jeito de professorinha ) avisa que teríamos uma hora para circular pela cidadezinha antes da partida. Não foi preciso mais para Gilda descobrir em uma lojinha de rua lateral um dos pratos de seus sonhos e a preço de sua realidade. A vendedora (bonita, gentil, simples mas chique; uma figura para se lembrar!) nos encantou. Ficou toda embaraçada em enorme dilema: queria vender, mas... nossos U$ dólares eram verdadeiros ou falsos? Sugeri que fôssemos a um banco, mas ela achou que estávamos recuando da compra (é quase um ponto de honra aqui vencer a resistência do comprador em potencial; e o que era barato para nós devia ser um excelente negócio para ela). Consultou o marido (?), que ficou em “cima do muro”. Ela acabou fechando a venda. É claro que nossos dólares eram legítimos. De Atenas para Atenas (entenderam?) paramos em alguns lugares para ver algum detalhe, para refeições ou motivos “técnicos” (gostaram do eufemismo?). Vimos o canal ligando os dois mares gregos; estivemos na Grécia Central e no Peloponeso, passando (ou parando em) Tripoli, Kalamata, Levadia, Telas, etc. Atravessamos de barco do estreito de Riom Natirion, onde há cidade de nome Riom ou Rio. E revi Patras. Patras revista? Sim, porque eu já a vira do alto: foi a primeira cidade grega que vi e meu primeiro contato com a terra grega, “ao vivo”. Mesmo que lá do alto.

A guia grega, falando espanhol, otimiza ao máximo. Muito didática, carinhosa e severa, parece uma professorinha a esconder a idade. Como ela havia elogiado muito um broche de Gilda realmente lindo (não seria de Gilda se não o fosse), na despedida ganhou, com enorme alegria e maior espanto, o dito de presente. (Certamente esse seria um gesto raro e são generosidades desta e de outras naturezas que me fazem ainda mais admirador de minha esposa.). Realmente, uma guia assim vale a pena.

Aprende-se muito viajando (lendo, vendo, ouvindo, mergulhando-se na vida local). O saiote grego, por exemplo, tem o nome de “fustanela”, que me soa como italiano. Gilda me lembra as novidades em hotéis: no de Nauplia o frigobar compartimentado e controlado eletronicamente (ao retirar o produto há o registro automático da despesa); a chave que funciona como registro geral de luz no Hotel Armada, em Istambul; mas o futuro da hotelaria anuncia o uso de cartões magnéticos. Aliás, o hotel merece registro por ter tido o cuidado de manter o tradicional: decoração, móveis antigos para uso ou simples enfeite em alguns espaços, com destaque para a antiga banca de engraxate (espetacular!), música ambiente local. Tudo isso ao lado de modernismos como a opção de 99 canais de TV, embora muitos estivessem vazios.

Segunda, 29/01/96. Dia para Atenas. Um “city tour” onde vemos a catedral bizantina e uma igreja antiquíssima e minúscula ao lado; na frente de um palácio público a mudança (?) da guarda (guardas vestidos com “fustanela” executando uma coreografia que uns acham graciosa e que para outros é ridícula: em dado momento dois levantam as pernas e encostam as solas dos pés); e, principalmente, a Acrópole e o Partenon, sobre o que nada mais há para dizer. À noite vamos à PLAKA para as últimas compras (Gilda a pensar sempre em dar presentes) e jantamos em um “boteco” não-turístico. O que comi eu? Moussaka! Que me (nos) acompanhou durante todo o “tour” pela Grécia como “menu” fixo. Agora é preparar as malas para a aventura maior: a Turquia, ou, melhor, Istambul. O voo é na Olympia, grega, e tudo vai bem. Mas... estariam nos esperando? Lá estava um cidadão com plaquinha com nossos nomes. Que alívio! Começa bem, o guia CHALOM, convidando-nos para o desejado “tour” de dois dias e já dando dicas sobre onde e quando fazer câmbio, etc. Pela hora (o voo atrasou) pensávamos não ser mais possível aproveitar a manhã, mas o Sr. Chalom já tinha tudo planejado. E mal chegamos ao hotel Armada (em frente às muralhas romanas) já saímos para a conquista de Istambul, usando (vejam só!)) uma viatura da VASP BRAZILIAN AYRWAYS. Com o simpático, preparado e eficiente Sr Chalom a nos guiar, fomos ver o principal de Istambul. Palácio de TOPKAPI (hoje museu), que impressiona pelas dimensões e pela riqueza ali depositada; SANTA SOFIA (hoje o museu Haghia Sophia); ficando assim, por ver o “Arkeoloji Müzesi”, “Karye Müsesi” e outros menos votados. Mesquitas vimos as principais: “Süleymaniye Camii”, “Sultan Ahmet Camii” (a mesquita azul, soberba), a mesquita de Selim I e outras vistas apenas por fora, pois, com neve e vento, nem sempre tínhamos ânimo para entrar, já que era previsão tirar os sapatos. (E os fiéis ainda tinham que lavar os pés com água gelada). Fomos ao mercado egípcio (de especiarias) e ao Grande Bazar, ou Mercado Coberto, com suas 4.000 ou 5.000 lojas, onde comprou Gilda alguma coisa em ouro e turquesa. Vimos as fortificações antigas, não as muralhas de Bizâncio de Sétimo Severo ou de Constantino (não há delas nem traços), mas as de Teodósio II, em grande parte de pé e marcando os limites da parte antiga da cidade, onde ficava o nosso hotel (um encanto!), bem em frente a um trecho da muralha. Vimos o aqueduto romano e uma espetacular cisterna (surpresa, choque e assombro!) que acumulava a água na era romana. Ainda acumulando água, é uma espécie de lago subterrâneo, com direito a passeio de barco. Nos percursos víamos muita coisa (como cemitérios bem pegados às casas e com lápides verticais a chamar a atenção). Não dá para anotar tudo. Fica a certeza de que precisamos voltar a Istambul, porque há mais coisas muito interessantes para se ver.

Viagem 1992

Sobre computadores

Cartão do amigo Francisco [Caetano Lopes Junior]

Homenagem à Estelle

As três festas de despedidas

Regresso ao Brasil: os livros e a casa no voo da Varig

O voo e a alfândega no Rio

Carta a Francisco Caetano Lopes Jr.

Brasil - Economia, Inflação, vinhos

Carta à Mécia – procurando Maria Luiza

Lisboa a “Capital Cultural da Europa” e Queluz, Sintra, Mafra, Porto e o Douro. Salamanca

Nosso lugar é no Brasil

Toda 6ª feira é dia de “folga”

Fim de semana em Araras

Compromissos da semana

Vinho do Alentejo faz bem

O “espírito de férias” também

A nova casa de Teresópolis

IX Encontro Nacional da ANPOLL Caxambu

Celebração dos 50 anos de magistério superior de C. Berardinelli

Época de Copa do Mundo. Carta à

Mécia e os sobrinhos

Tatiana e Richard

Araras – município de Petrópolis Bauernfes t. Roça chique onde a comida francesa prevalece mas faltam araras

Início do inverno carioca - 10 graus! Em Araras muito, muito frio

Barrigudinhos Matrinchã Pirapitanga Piracanjuba

Pesquisa sobre quem faz mais pelo Brasil

Barrigudinhos Matrinchã Pirapitanga Piracanjuba

A reação do povo sobre a bagagem da delegação, a queda do dólar. A última safra agrícola e a renúncia de candidatos à vice-presidência

No JB entrevista com escritor italiano Antônio Tabucchi

Grande Prêmio Brasil. Hipódrom os, cavalos e a maior paixão: o cinema

II Encontro de Centros de Estudos Portugues es do Brasil. O governo nos anos 80. FHC.

I Congresso Internacio nal da ABRALIN

Setembro, mês de Congressos

Dia Mundial do Professor. Aniversári os do mês

Dia do médico, parabéns Ana Luiza!

Congresso em BH. Linguística e cinema. O livro de Cleonice

A violência no Rio. RIO- 92/Eco-92. Brizola.

Rio para os estrangeiros. Desigualdade, a 1ª favela, violência

Aniversariantes de novembro Congresso na Europa.

Palestra na Comissão para Defesa dos Direitos e Igualdade da Mulher. Retorno ao Rio.

Correspondências aos sobrinhos. Araras x Violência no Rio. A modelo Geórgia Wortmann opina sobre o Rio na seção do Zózimo em O Globo. Chico satiriza o Congresson o Globo. Ballet de Bolshoi na TV

Concurso para admissão de professores assistentes na área médica

Carnaval em Araras com Cleonice. Centenário de Ipanema

Mariana e Pedro chegam da Califórnia para uns dias no Rio

Nota posterior à Mécia sobre Mariana e Pedro no Rio

Aniversariantes do mês

Votos de Feliz Páscoa a familiares e amigos

Entre as diversas viagens o esforço de manter contato com amigos e parentes

Visita à Mécia na Califórnia adiada

Darcy Ribeiro e seu livro O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil. Também no JB Betinho fala sobre Veríssimo e a vida antes da revolução

Jennifer Connelly vem para lançamento de seu filme e faz topless na praia. O esforço para melhorar a imagem da cidade. México, Argentina e o Mercosul

Defesa de tese do “último” doutor

Após viagem de Gilda para homenagear Jorge de Sena em Portugal, as visitas femininas de Emmanoel

O passamento de Maria do Carmo, irmã de Emmanoel

Gilda em Congresso no Porto

Dia das mães em Portugal. Elsa, notável filóloga e amiga queridíssima.

As correspondê ncias difíceis entre Emmanoel e seu sobrinho Carlos Dias Filho

Parque das Mangabeira s. Ameaça de extinção da juruva.

Carta aos amigos Miucha e Luiz Fagundes Duarte

Datas importantes para serem marcadas

A briga com a IBM

Gilda na Casa de Leitura em Laranjeiras e o lento voo da Pavoeira

A morte do lendário Bicho Novo

Visita ao “quintal”: o Jardim Botânico

Romeu e Julieta na versão de Bolshoi

Carmina Burana de Karl Orff

Citações

A obra de José Paulo e o amigo em comum Padre Lemos

20 de julho Dia da Amizade

Veríssimo

O presidente FHC vai à Coimbra para a cerimônia do doutoramento honoris causa

Padre Lemos em Roma

Férias para Padre Domingos e Irmã Mercedes

Veríssimo e as críticas à FHC. Jabor, Drummond e Graciliano Ramos

Veríssimo e as homilias

Trecho de carta escrita ao amigo Don Fernando de Salamanca

Aniversários de setembro

Um acidente de carro tem socorro de “primeiro mundo”

Mas, elogios viram queixas

Conjunto de dança o “Corpo”

Gilda promove Encontro Internacional

Palavras de Padre Domingos

Lisboa e Areia Branca

Últimos dias do ano Visita ao Chiado

Passagem de ano na casa de Elsa

Chegada de Cleonice Jantar de aniversário de Emmanoel 1996

Tertúlia literária

Almoço com Cleonice e amigos

Dias de chuva. Cerimônia da entrega de título a Cleonice

Ida à Cinemateca Portuguesa Cleonice no Diário de Notícias

Elsa vai à Anadia, Gilda aos compromissos Chuva e vinhos das garrafeiras

Jantar com vários amigos na casa de Luís Fagundes Almoço na casa nova de Helder Godinho. Eleições presidenci ais e volante da exposição mexicana

Ida à Grécia Templo de Zeus Delfos Olímpia Micenas Epidauro Asclépios Ilhas Gregas Corinto Nauplia Tripoli Kalamata etc.

Curiosidades da vida local

Curiosidades da vida local

1992